1. Retomando.
Lembramos que estamos debatendo, neste artigo, o modo pelo qual a distância física poderia ou não influenciar na relação entre os anjos, na sua conversa. A hipótese inicial diz que há uma influência da distância física no modo pelo qual os anjos conversam, e os argumentos tentam nos provar que os anjos não conseguem conversar, ou, pelo menos, o fazem com muita dificuldade, se estão fisicamente distantes uns dos outros. Isto teria consequências enormes no modo pelo qual o universo é governado por Deus por meio dos anjos; de fato, isto determinaria que o poder dos anjos não seria uniforme em todo o universo material, e que, por exemplo, o anjo que rege o sol teria mais dificuldade de se relacionar com o meu anjo da guarda pessoal do que o anjo, digamos, que rege o Brasil. Sujeitaria os anjos, que são imateriais, a leis que são estritamente ligadas ao mundo material, e os anjos se sujeitariam aos limites materiais do universo que eles, supostamente, deveriam reger.
Mas estamos nos adiantando. Vamos às respostas de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Como vimos nos artigos anteriores desta questão 107, a fala dos anjos é uma operação intelectual direta, que não envolve nenhuma dimensão física, como a fala humana. Trata-se, pois, de uma operação estritamente espiritual, em que o conteúdo interno do pensamento de um anjo é diretamente partilhado com o outro anjo, sem o uso de nenhum meio material.
Ora, isto significa que as condições de tempo e lugar, que são próprias do mundo material, não se aplicam à fala dos anjos – que é uma operação estritamente intelectual.
Como sabemos, é próprio das operações intelectuais que sejam abstratas. Mesmo a intelecção humana, quer dizer, o conhecimento estritamente intelectual em nós, realiza-se pela abstração de tempo e lugar: para que, por exemplo, um biólogo conheça realmente a espécie canina, ele tem que abstrair a concretude de cada cão que examinou, para alcançar aquilo que determina que todos os cães sejam da mesma espécie. É claro que a mente humana sempre precisa recorrer à memória sensorial para pensar, por exemplo, na espécie canina abstrata. Mas isto é um acidente relativo ao nosso modo humano de ser, e não uma característica própria da inteligência. De fato, como os anjos não têm órgãos dos sentidos, nem memória concreta corporal, eles não precisam recorrer a imagens e lembranças sensoriais para pensar, como não precisam de meios materiais para transmitir seu pensamento, nem sequer de alusão a imagens e símbolos para se comunicar.
3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita São joão Damasceno – que afirma que o anjo opera ali onde ele está. Ora, falar é uma operação dos anjos. Então o lugar onde ele está tem influência sobre sua fala, de tal modo que, se estiver longe do outro anjo, não conseguirá falar com ele, afirma o argumento.
A resposta de Tomás.
No artigo primeiro desta questão, lembra Tomás, nós aprendemos que a fala dos anjos não tem, como a nossa, uma fase “externa”, que use meios materiais para transmitir as ideias (sons, sinais, escrita, etc.). A fase externa é própria dos seres humanos. No caso dos anjos, eles podem transmitir diretamente o conteúdo do seu pensamento a outro anjo, sem uma linguagem intermediária, simplesmente dirigindo sua vontade para o outro anjo com quem querem falar. Assim, do mesmo modo que os anjos podem ver os outros anjos independentemente da distância espacial entre eles (já que não estão submetidos aos limites do tempo e do espaço, sendo imateriais), então igualmente podem receber a informação que o outro anjo dirige a eles, independentemente da distância espacial entre eles. Portanto, estar longe ou perto espacialmente não é algo que influencie a comunicação entre os anjos, conclui Tomás.
O segundo argumento objetor.
Quando estamos longe uns dos outros e queremos conversar, nossa atitude fundamental é a de gritar, bradar elevando a voz, para conseguir ser ouvido.
Ora, as Escrituras testemunham que os Serafins, que são anjos, bradam seu louvor a Deus, em Isaías 6, 3-4. Não precisariam bradar para ser escutados, se sua fala não fosse influenciada pela distância física entre eles. Logo, a distância física entre eles influencia no modo como conversam, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nem sempre clamar significa gritar para ser ouvido por quem está longe. Muitas vezes as Escrituras usam a palavra “clamar” para denominar algum tipo de expressão muito importante, quer por causa daquilo que está sendo expresso, quer por causa da grandeza do respectivo efeito. Por exemplo, quando Deus diz a Caim que o sangue de Abel “clama aos céus” em Gênesis 4, 10, é claro que o sangue de Abel não estava “gritando” literalmente, mas expressando a Deus um fato de grande relevância, que demandaria uma resposta enérgica de Deus. É por isso que São Gregório Magno, na sua obra sobre a moral, ensina que cada um clama menos aquilo que menos deseja. Nada há, pois, de mais importante e mais relevante do que clamar a Deus, e é por isso que os Serafins são descritos por Isaías como clamando o nome do Senhor, nessa passagem de 6, 3-4. Portanto, o trecho das Escrituras aqui citado não prova de modo nenhum que os anjos tenham que gritar para ser escutados quando estão longe uns dos outros, e o argumento está errado.
7. Concluindo.
Mas temos que lembrar sempre que estamos tratando do governo da criação por Deus: ou seja, de como a criação é regida em seu caminhar. Como funcionam aquilo que hoje chamamos de forças físicas, de leis da natureza impessoais, mas que, antes da modernidade, era o funcionamento inteligente do universo, mentes pessoais imateriais conduzindo todos os tempos e lugares numa relação de amor dialogante com Deus. Do mesmo modo que, hoje, sabemos que, por exemplo, a lei da gravidade se aplica a todo o universo, indistintamente, a filosofia clássica ensinava que os anjos podiam conversar entre si independentemente do lugar em que estavam. Ambos, nós e eles, estávamos tentando explicar os fenômenos físicos que contemplamos à nossa volta. Mas convenhamos que a explicação deles é muito mais rica e colorida: as “forças” não são leis impessoais, mas seres imateriais inteligentíssimos que se iluminam uns aos outros numa relação hierárquica, conversam entre si, falam com Deus e apresentam a Ele as suas e as nossas necessidades e desejos e indagam suas ordens e exortações, e são capazes de conversar entre si independentemente do lugar onde estejam. Faz todo sentido.
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