1. Introdução.

Para nós, humanos, é muito difícil, senão impossível, conceber mentalmente um ente que, como os anjos, não seja de nenhum modo material. Como age um ser que não está preso a tempo e lugar? Como pode se dirigir a outro, se estiverem distantes entre si?

Mesmo no nosso mundo contemporâneo, em que a internet parece reduzir as limitações de tempo e lugar, de tal modo que podemos conversar e interagir com pessoas que estão muito distantes, ainda assim as coisas funcionam dentro das coordenadas de tempo e espaço: sabemos que a pessoa está distante, e por isso precisamos conversar à frente do computador, aceitar os atrasos na emissão dos sinais, respeitar os limites de velocidade de conexão, de armazenamento e transmissão de dados e até o fato de que a outra pessoa tem que estar simultaneamente falando conosco para haver uma conversa em sincronia.

Mas os anjos não dependem de nenhum modo da matéria: vivem num mundo em que a velocidade é apenas a do pensamento, e a distância não existe, a não ser a distância psicológica de quem tem interesses diversos. Como se dá isso? Como os anjos podem se dirigir aos outros, como podem escolher com quem e quando querem falar? Como é a comunicação entre dois seres completamente imateriais? É o que debateremos neste artigo.

2. A hipótese controvertida.

Sabemos que os artigos da Suma sempre começam com a proposição de alguma hipótese polêmica, controvertida, que tem a função de provocar o debate, inquietando o interlocutor. Aqui, neste artigo, a hipótese é que a distância física tem influência na comunicação entre os anjos, assim como tem entre nós, humanos; ou seja, a ideia é de que dois anjos precisam estar fisicamente próximos um do outro para poderem conversar. Quanto mais longe estiverem um do outro, mais difícil será a fala, propõe esta hipótese. Há dois argumentos iniciais que tentam comprovar sua validade para nos convencer de que a hipótese inicial é verdadeira, e um argumento sed contra que se coloca contra ela. Vamos a eles.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita São João Damasceno, Padre da Igreja, que na sua obra sobre A Fé Ortodoxa, quando trata dos anjos, diz que ali onde o anjo está, ali ele opera. Ora, falar é uma operação dos anjos, lembra o argumento. Assim, a distância afeta a comunicação entre eles – quanto mais se afastam, mais difícil será para que conversem, e, se estiverem longe fisicamente, não poderão conversar entre si, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Quando duas pessoas estão longe uma da outra, precisam falar alto, aos brados, para serem ouvidos. Ora, as Escrituras retratam anjos bradando uns com os outros, como se diz dos Serafins em Isaías 6, 3-4: “Suas vozes se revezavam e diziam: ‘Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!’. A este brado as portas estremeceram em seus gonzos e a casa encheu-se de fumaça”. Portanto, os anjos parecem ter que falar mais alto em alguns momentos, e isso só pode decorrer de que a distância física tem influência na forma com que conversam entre si, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Se examinamos a Bíblia, diz o argumento, vemos que, na parábola do rico e de Lázaro, o rico, apesar de estar no abismo intransponível do inferno, conversava com Abraão sem dificuldade (Lc 16, 24). Portanto, para os espíritos dos que estão na eternidade, a distância física não impede a conversação. Ora, de modo análogo, para os anjos, a distância física não exerce nenhuma influência nem dificulta que conversem entre si, conclui o argumento.

5. Encerrando.

A fala dos anjos, sua conversa, não está de nenhum modo condicionada por circunstâncias de tempo e lugar, de tal modo que estar perto ou longe não exerce nenhuma influência sobre a fala dos anjos.

Como já havíamos dito, é muito difícil para nós, humanos, imaginar esse modo de ser de uma inteligência plenamente espiritual, ou seja, a capacidade de se comunicar sem restrições materiais ou espaciais.

No próximo artigo examinaremos as respostas de Tomás aos problemas colocados neste debate.