1. Retomando.
Afinal, os anjos podem se dirigir a Deus, podem falar eventualmente com ele, manifestar-lhe o que pensam? Como falar com aquele que já sabe, de antemão, tudo o que pode ser dito? O que um anjo poderia dizer a Deus que já não fosse do conhecimento dele?
Vimos, no texto passado, que era esta a razão pela qual a hipótese inicial não aceitava que os anjos pudessem falar com Deus; mas vimos, no argumento objetor, que há evidências bíblicas de que os anjos não somente podem se dirigir a Deus e falar a ele, como efetivamente o fazem, às vezes.
Estudemos agora a resposta sintetizadora de Tomás e as suas respostas específicas aos argumentos objetores iniciais.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Falar consiste em evidenciar o conteúdo de sua mente a outra pessoa, conforme o conceito que estudamos no artigo primeiro desta mesma questão. Vimos, naquela oportunidade, que, diferentemente de nós humanos, os anjos não precisam de uma linguagem articulada, com palavras e gestos e outros meios materiais de comunicação, para manifestar os conceitos atuais de sua mente àquele com quem ele fala. Quando ele aplica a sua vontade a tornar seu pensamento íntimo conhecido por seu interlocutor, ele comunica diretamente o conteúdo de sua mente ao outro.
Mas há duas maneiras pelas quais a vontade pode se dirigir ao interlocutor, num ato de fala, diz Tomás:
1. Há uma maneira pela qual minha vontade dirige a minha atenção ao outro para que eu, ativamente, transmita a ele alguma informação que tenho e que quero compartilhar. É a maneira pela qual, no mundo humano, a mente do professor se dirige à do aluno, é a maneira pela qual o agente se dirige ao paciente; dentre os anjos, diríamos que é a maneira pela qual o intelecto do anjo superior se dirige ao anjo inferior a quem vai iluminar. Com relação a esta maneira, não existe nenhuma possibilidade de que o anjo fale com Deus. Não há nada que o anjo possa transmitir e Deus venha a receber, ou seja, nunca há a possibilidade de que o anjo se dirija a Deus para ensinar a Deus alguma coisa, ou mesmo para mostrar-lhe alguma vontade ou deliberação pessoal da qual Deus não tivesse conhecimento prévio.
2. Há uma outra maneira pela qual a minha atenção pode se dirigir a um interlocutor: quando faço notar a ele que estou atento para receber o que ele tem para me oferecer de informação, ou que estou maravilhado e feliz pela sabedoria com que ele me enriquece. Esta é a maneira similar àquela pela qual, na natureza, um filhote manifesta à mãe a necessidade de ser nutrido ou sua satisfação por tê-lo sido, ou o aprendiz manifesta ao professor sua presença de espírito e abertura para ser conduzido e informado.
É exatamente desta segunda maneira que os anjos podem se dirigir a Deus, falando com ele: tanto consultando-o sobre aquilo que devem fazer, de maneira a tornar claras as orientações devidas e exprimir sua prontidão para recebê-las e cumpri-las, ou para louvar a Deus e manifestar a ele sua admiração, gratidão e lealdade, expressando as maravilhas que reconhecem em Deus.
3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que falar significa tornar conhecido a outra pessoa aquilo que está oculto em nossa própria mente. Ora, Deus conhece tudo, inclusive o interior das nossas mentes e das mentes dos anjos. Logo, um anjo não pode manifestar nada a Deus que já não seja do conhecimento dele. Portanto, os anjos não falam a Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nem sempre, quando alguém fala, está transmitindo uma informação a outro, de maneira a colocar o outro na condição passiva de quem recebe simplesmente o que ainda não tinha ou sabia. Isto realmente não seria possível, com relação a quem fala com Deus.
Mas há aquela outra maneira de falar, própria do discípulo que se dirige ao mestre para esclarecer alguma dúvida ou manifestar sua admiração ou prontidão, e é justamente desta maneira que os anjos falam com Deus.
O segundo argumento objetor.
Voltando ao conceito de fala, apresentado no artigo primeiro, vê-se que falar é dirigir a atenção, voluntariamente, para um interlocutor, manifestando a ele o conhecimento que está no seu intelecto. Ora, todos os santos anjos sempre estão inteiramente voltados para Deus, abertos a ele, sempre colocando o conteúdo da sua mente à disposição dele. Assim, seria necessário admitir que os anjos estão sempre falando com Deus. Mas ocorre que os anjos falam também uns com os outros, dirigindo sua atenção a eles. Assim, não podemos chamar essa abertura do anjo a Deus de “fala”, porque senão teríamos que admitir que o anjo dedica sua atenção completa para falar com Deus o tempo todo, e também consegue dedicar sua atenção completa a falar com os outros anjos simultaneamente, o que, para muitos estudiosos, seria inadmissível. Assim, não podemos dizer que os anjos falam com Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos sempre estão falando com Deus, no sentido de expressar a ele seu louvor e gratidão; isto é como uma atitude habitual neles. Mas somente esporadicamente eles falam com Deus no sentido de interpelá-lo diretamente sobre alguma situação ou circunstância nova sobre a qual precisam de alguma iluminação divina. Assim, somente neste segundo caso existe, por parte do anjo, um voltar-se a Deus com toda a sua atenção que o impede de falar simultaneamente com os outros anjos.
4. Concluindo.
Os anjos estão na presença de Deus e estão sob a hierarquia do amor. Mas vivem para o louvor e a adoração habitual, porque contemplam Deus face a face. São livres, também, para interpelar o Senhor quanto àquelas situações que demandam uma iluminação nova, atual, que os dirija de maneira segura no governo do mundo. E para levar a Deus, cremos nós, as nossas próprias orações.
Deixe um comentário