1. Introdução.
No último artigo, vemos que falar, ou seja, revelar a outro seu verbo interior, seus próprios pensamentos, deliberações, vontades, nem sempre implica iluminar o outro. Só há iluminação, numa conversa, quando o assunto é Deus, a vontade de Deus, a mente de Deus, a verdade de Deus. É por isso que os anjos podem conversar entre si sem que isto signifique que estejam sendo iluminados, quando conversam. Sua conversa pode envolver apenas aquilo que a sua própria vontade forma em suas mentes, sem tratar de Deus. Uma vez que os anjos possuem intimidade, interioridade, um anjo só é capaz de saber aquilo que está na mente de outro quando este outro fala com ele e o expressa, revelando-se.
A pergunta, aqui, é ainda mais profunda: os anjos podem se dirigir a Deus? Podem falar com Ele?
É bom registrar que sabemos, por revelação bíblica, que os Santos Anjos estão na presença de Deus e O contemplam – o próprio Jesus nos assegura isto em Mateus 18, 10. Mas não há segredos, para Deus, quanto a nenhuma de suas criaturas. Assim, como imaginar que uma criatura precise, ou mesmo possa, revelar a Deus alguma coisa de si que Deus já não conheça de antemão? Há a possibilidade, ou mesmo a necessidade, de que algum anjo fale com Deus? E se falar com Deus é, no fundo, rezar a ele, será que o fato de que os Santos Anjos podem ver Deus face a face não tornaria dispensável pensar em qualquer tipo de oração deles dirigida a um Deus que os conhece inteiramente e os ama profundamente?
São muitas perguntas, que têm uma implicação muito profunda na nossa própria relação humana com Deus. De fato, os anjos oferecem a Deus um santo incenso que, como sabemos, não é físico, mas é constituído pela oração dos santos que sobe como incenso, pelas mãos dos anjos, até o altar de Deus (Apocalipse 8, 4). Será que há, aqui, um registro bíblico de que os anjos, afinal, falam com Deus?
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
Já sabemos que a hipótese inicial sempre nos provoca, para iniciar o debate.
Aqui, a hipótese é a de que os anjos nunca falam com Deus, quer porque isto seria impossível, quer porque seria desnecessário ou inconveniente. Existem dois argumentos controvertidos iniciais que tentam comprovar esta primeira hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento parte da ideia de que seria desnecessário que uma criatura inteligente tivesse o poder de falar com Deus. De fato, é um argumento que vemos, algumas vezes, utilizado por pessoas que não rezam, que não cultivam o hábito da oração; de fato, diz o argumento, falar é manifestar, ao outro, alguma coisa que, por ser da nossa intimidade, está oculto a ele. Mas Deus conhece tudo, inclusive a nossa intimidade, de tal modo que nada, nem mesmo os nossos pensamentos e deliberações mais íntimas, estão ocultas a Deus, como diz o Salmo 138 (139): A palavra ainda não me chegou aos lábios e já, Senhor, a conheceis inteiramente.
Assim, não haveria razão para que um anjo precisasse falar com Deus. E por isso o argumento conclui que os anjos não podem falar com Deus.
O segundo argumento objetor.
Falar, como foi definido no primeiro artigo desta questão 107, é manifestar ao outro aquilo que está guardado em nosso intelecto, em nossas locuções interiores. Ora, os Santos Anjos sempre ordena a Deus a plenitude de seu intelecto, porque está em Sua presença e vive integralmente para Ele. Logo, se fôssemos admitir que isto é falar com Deus, teríamos que admitir que todos os Santos Anjos estão permanentemente falando com Deus, dirigindo inteiramente sua interioridade a Ele em ato de modo permanente.
Ocorre que os anjos são criaturas, e portanto têm uma capacidade intelectual limitada em comparação com Deus, embora enorme em comparação aos humanos. Ora, como criaturas, eles também têm que fazer escolhas com relação àquilo a que dirigem sua atenção. Mas sabemos que os anjos falam uns com os outros, como vimos no artigo anterior. Quando o fazem, dirigem sua atenção ao outro, e não a Deus. Logo, seria inadmissível considerar que os anjos estivessem permanentemente e de modo sempre atual a falar com Deus e ainda pudessem efetivamente dirigir-se aos outros anjos ao mesmo tempo. Portanto, o fato de estarem sempre voltados a Deus e abertos a ele não pode ser considerado como algum tipo de fala que os anjos dirigissem a Deus – e portanto temos que concluir que os anjos não falam com Deus, diz o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra quer nos mostrar que não podemos aceitar a hipótese controvertida inicial, porque há alguma razão séria que lhe é contrária. Aqui, o argumento simplesmente cita a Profecia de Zacarias (Zc 1, 12), que retrata o Anjo do Senhor se dirigindo a Ele: “Senhor dos Exércitos, até quando demorarás ainda a ter piedade de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais estás irado há setenta anos?”. Há, portanto, séria evidência bíblica de que, ao contrário do que propõe a hipótese inicial, os anjos de fato podem falar com Deus, e efetivamente algumas vezes o fazem.
5. Encerrando.
Falar é revelar a própria intimidade, abrir o conteúdo do próprio coração a outra pessoa. Mas como ou por que fazê-lo para Deus, que é Aquele que conhece todos os segredos e é mais íntimo de mim do que eu mesmo, como diz Santo Agostinho?
É o que veremos no próximo texto, no qual estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás e as suas respostas específicas aos argumentos objetores iniciais.
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