1. Retomando.
Vimos, então, no último texto, que falar nem sempre é iluminar. Iluminar, disse ali Tomás, é transmitir a alguém uma verdade sobre o mundo criado ou sobre Deus. Falar, por sua vez, é manifestar a outro aquilo que já está manifesto a si mesmo, ou seja, transmitir a outro o conteúdo ativo de sua própria mente. Não há dúvida, então, de que todo ato de iluminação é um ato de fala: para transmitir a outra pessoa a verdade que sei sobre Deus ou sobre o mundo criado, tenho que falar com ele.
Mas a recíproca não é verdadeira: se, por um lado, ninguém pode iluminar sem falar, por outro lado alguém pode falar sem iluminar, quando sua fala não transmite a verdade sobre as coisas ou sobre Deus, mas apenas comunica as deliberações de sua própria vontade, suas decisões, anseios, expectativas ou mesmo reações sobre algum estímulo. Se eu digo assim: “eu gostaria de visitar a Itália”, minha fala não está iluminando o interlocutor, mas apenas transmitindo a ele um desejo meu. Não importa que a minha fala transmita aquilo que verdadeiramente eu decidi ou quero; não é neste sentido que dizemos que só a verdade constitui uma iluminação. A verdade, aqui, diz respeito àquilo que tem seu fundamento em Deus, não em mim mesmo. Se eu explico ao meu interlocutor alguma verdade a respeito da órbita da lua, que é algo criado por Deus, eu o estou iluminando. Mas se, mesmo com toda a sinceridade do mundo, eu apenas comunico a ele o quanto eu o admiro, eu estou falando de algo cuja fonte está em mim mesmo, não em Deus, e portanto, como só Deus é luz em sentido próprio, aquilo que tem fonte em mim mesmo, em minha própria vontade, não é luz, não ilumina o outro, porque eu não sou luz. É uma fala, mas não uma iluminação; ora, aos anjos inferiores não é dado iluminar os superiores, pelos motivos que já discutimos na questão anterior. Mas nada impede que o anjo inferior fale ao superior sobre seus próprios desejos, vontades, deliberações e planos. Portanto, os anjos inferiores podem falar com os superiores.
Agora que relembramos tudo isto, vamos examinar novamente os argumentos objetores iniciais, para ver as respostas de Tomás a eles.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro e o segundo argumentos objetores.
Tomás considera que os dois primeiros argumentos objetores não precisam de nova resposta específica e direta, porque já foram suficientemente respondidos pela resposta sintetizadora. O primeiro argumento, como nós nos lembramos, é aquele que lembra o comentário interlinear antigo a 1 Coríntios 13, 1 (se eu falasse a língua dos anjos e dos homens…). Como vimos, a glossa antiga, comentando este versículo, dizia que a língua dos anjos transmite as iluminações que os superiores transmitem aos inferiores; ora, prossegue o argumento, os anjos inferiores nunca iluminam os superiores. Portanto, se a fala dos anjos consiste justamente na iluminação, então são os anjos superiores que falam com os inferiores, mas os inferiores nunca falam com os superiores, conclui o argumento.
O segundo argumento também propõe que falar e iluminar são sinônimos, e que, portanto, cada vez que alguém fala com outro, simultaneamente e sempre também o ilumina, diz o argumento. Assim, como os anjos inferiores não conseguem nunca iluminar os superiores, então os inferiores, diz o argumento, simplesmente não falam com os superiores, ou seja, não conseguem falar com eles, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás não se dá ao trabalho de responder separadamente a estas objeções. De fato, como vimos na resposta sintetizadora, nem sempre que os anjos falam, eles iluminam. Iluminar, como vimos, é transmitir ao outro algo de verdade objetiva sobre a criação ou sobre Deus, isto é, transmitir aquilo cuja fonte de verdade está no próprio Deus, e não em si mesmo. Neste caso, apenas os anjos mais elevados podem iluminar os inferiores, justamente porque, para os anjos, ser mais elevado significa estar mais próximo de Deus e, portanto, conhecer melhor e mais profundamente o próprio Deus e a verdade sobre a criação. Mas há ocasiões em que a nossa fala manifesta apenas aquilo que decorre de nossa própria vontade, e não da verdade sobre Deus e sobre a Criação. Ora, apenas Deus é luz, e portanto apenas quando falamos sobre Deus é que iluminamos o outro. Mas a nossa vontade tem origem apenas em nós mesmos, e nós, ou seja, aquilo que se origina em nós e não em Deus, não é luz, e portanto não tem o poder de iluminar. Deste modo, quando falamos de nossa vontade, de nossas decisões, de nossos desejos e expectativas, por exemplo, trata-se verdadeiramente de uma fala, mas não se trata de iluminação. Portanto, é possível falar sem iluminar, e é justamente esse tipo de fala que os anjos inferiores dirigem aos superiores, como Tomás ensina na Resposta Sintetizadora que examinamos no texto anterior a este.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor parte de uma citação de São Gregório, que, tratando da relação de Deus com os anjos, diz que Deus fala com os Santos anjos quando revela aos intelectos deles os Seus próprios desígnios ocultos e invisíveis. Ocorre que isto é exatamente a noção de iluminar: quer dizer, quando Deus fala com os anjos, ele necessariamente os ilumina. Assim, também os anjos, quando falam com os inferiores, revelam a eles os mistérios de Deus e a verdade que Ele transmitiu, isto é, a fala dos anjos é sempre e necessariamente iluminação. Mas um anjo inferior nunca é capaz de iluminar um superior; portanto, um anjo inferior não fala com o superior, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Toda vez que Deus se dirige aos anjos há uma verdadeira iluminação, porque Deus é a própria luz, e a vontade de Deus é a própria verdade. Deus é a verdade, a regra e o critério da verdade, e por isso não há nenhuma fala de Deus que não seja, simultaneamente, iluminação. Assim, toda vez que alguma criatura inteligente descobre alguma coisa a respeito de Deus, de sua mente, de sua vontade maravilhosa, a criatura está sendo iluminada, está se tornando mais perfeita, mais completa. Mais cheia de luz.
Mas há outro assunto sobre o qual as criaturas conversam: suas próprias vontades de criaturas, seus próprios desejos, seus sonhos, seus receios, seus planos. Tudo isso não tem origem em Deus, mas na própria criatura, que não é luz por si mesma. Assim, nem toda fala entre criaturas é simultaneamente iluminação; por isso, um anjo inferior pode falar com um superior, mas nunca o iluminará.
3. Concluindo.
Falar sobre nós mesmos, sobre nossos sonhos, desejos, deliberações, vontades, tudo isso é necessário, mas não é iluminador para o outro. Porque não somos deuses, quando falamos de nós mesmos não trazemos luz para o outro. Por isso percebemos, muitas vezes sem ter consciência clara disso, que a conversa com algumas pessoas, em alguns momentos, é tão boa e enriquecedora, enquanto a conversa com outras pessoas, embora possa ser até interessante, não nos ilumina: é que estamos falando apenas de nós mesmos, neste último caso; mas as conversas iluminadoras são aquelas que tratam de Deus ou das verdades que Ele próprio estabeleceu sobre sua criação. Isto nos interpela a falar menos de nós mesmos e mais de Deus e de Sua obra maravilhosa, pois isto é luz para nós e para o mundo.
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