1. Retomando.

A comunicação entre as pessoas, como veremos agora, tem sempre duas dimensões: a dimensão da expressão do próprio pensamento, que é a expressão das vontades particulares, por um lado, e a expressão da verdade, que sempre é a expressão daquilo que é próprio de Deus. Assim, em toda comunicação verdadeira, estas duas dimensões estão entrelaçadas. Embora para nós, hoje em dia, a própria existência da verdade, como conhecimento daquilo que tem origem no próprio Deus, seja menos evidente para nós. Assim, nossas conversas giram muito mais em torno de nossos próprios sentimentos e vontades, e muito menos em torno da objetividade do mundo, da realidade de Deus e dos Seus planos maravilhosos: quer dizer, nossos diálogos são, quase sempre, muito pouco edificantes, mesmo, e talvez principalmente, quando são divertidos no pior sentido da palavra, isto é, quando nos distraem levianamente da realidade e do amor de Deus.

É claro que a ausência de diálogo sempre é pior do que a sua existência, mesmo que superficial. Mas isto não deve nos servir de desculpa para que nossos diálogos nunca se aprofundem.

Mas estamos fugindo do tema. Examinemos, agora, a resposta de Tomás quanto à possibilidade de que os anjos inferiores falem com os superiores.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Os anjos inferiores podem, sim, falar com os superiores, ensina Tomás.

É preciso, neste ponto, fazer uma diferenciação entre falar e iluminar. Toda vez que um anjo ilumina outro, ele está falando com o outro. Mas nem toda vez que um anjo está falando com outro, ele o está iluminando. Esta distinção é essencial para perceber que um anjo inferior pode falar com um superior, mas essa fala nunca ilumina o superior; por outro lado, quando o superior fala com o inferior, sempre pode iluminá-lo. Precisamos, então, examinar mais detalhadamente essa diferença entre falar e iluminar.

De fato, como vimos no artigo primeiro desta mesma questão, falar nada mais é do que permitir voluntariamente que seus conceitos interiores (quer dizer, o conteúdo atual de sua mente) sejam conhecidos por outra pessoa. Ora, em nosso interior, em nossas cogitações íntimas, existem basicamente duas ordens de coisas:

1) A verdade sobre o mundo e as coisas, sobre Deus e Seus planos, vale dizer, o conhecimento em sentido estrito, e

2) As nossas próprias deliberações interiores e planos, ou seja, a atuação da nossa própria vontade, que pode acessar nossos conhecimentos habituais, planejar, especular e criar. São os nossos próprios pensamentos em sentido estrito.

A rigor, a verdade que possuímos em nosso intelecto, a verdade que chegamos a conhecer sobre o mundo criado e sobre Deus e seus planos, é considerada corretamente como a luz em nós, porque toda verdade tem a sua fonte e cume em Deus mesmo, e Deus é a luz dos intelectos.

Assim, quando falamos sobre aquilo que é verdade independentemente de nós mesmos, isto é, sobre o conhecimento que temos das coisas de Deus e das coisas do mundo, nossa fala transmite a luz ao nosso interlocutor. Podemos dizer que uma fala é iluminação quando ela trata da transmissão de conhecimento verdadeiro. Assim, quando dizemos a alguém que Deus criou o céu e a terra, ou que o ser humano é um animal racional, ele está, com sua fala, iluminando o seu interlocutor. Sua manifestação é, simultaneamente, iluminação e fala.

Mas quando simplesmente expresso ao outro as minhas próprias vontades, meus próprios planos, minhas deliberações e desejos, esta manifestação é uma fala, ou seja, é, sem dúvida, a expressão externa, ao meu interlocutor, do meu pensamento. Mas não é, de modo algum, iluminação, porque a minha vontade, meus planos, minhas deliberações pessoais, não são luz, porque não são verdade divina e não têm raiz em Deus mesmo, ainda que participem, de algum modo, dos planos e deliberações dele. Portanto, quando digo ao meu interlocutor que quero isto ou aquilo, que estou planejando isto ou aquilo ou que me sinto assim ou assado, eu estou falando, mas não estou iluminando o meu interlocutor, porque eu próprio não sou luz, não sou regra ou medida da verdade, porque não sou Deus. Assim, aqui existe fala, mas não existe iluminação.

De fato, só existe iluminação, diz Tomás, quando um intelecto, por conta de uma informação recebida, se torna mais perfeito do que era. E ninguém se torna mais perfeito por conhecer a vontade de outra criatura, seus planos e deliberações, seus desejos e sentimentos, mas somente quando conhece a própria verdade sobre as coisas e sobre Deus, que é o objeto próprio do intelecto criado. De fato, a verdade sobre a criação e sobre Deus, os planos de Deus, tudo isto nos faz participar de Deus mesmo; mas saber alguma coisa sobre a mera vontade de outra criatura não nos torna mais perfeitos ou mais próximos de Deus.

O princípio da verdade é Deus. É, portanto, com relação a Deus, e portanto ao conhecimento da verdade mesma, que dizemos que um anjo é superior ao outro. A hierarquia, entre os anjos, envolve conhecer mais a respeito de Deus – os que são superiores sempre conhecem mais sobre a verdade, sobre Deus, sobre os planos de Deus, do que os inferiores. E exatamente por isso são ditos superiores ou inferiores: por relação de conhecimento com Deus, que é fonte e cume da verdade.

Mas o princípio da vontade da criatura é a própria criatura. Ela é a fonte e o cume de seus próprios desejos, planos e pensamentos. Não há, pois, nenhuma iluminação envolvendo a manifestação desses pensamentos, pela fala, a outro. É por isto que os anjos inferiores nunca podem iluminar os superiores, porque, sendo inferiores, não há nada que possam saber sobre Deus e a verdade da criação que não seja conhecido, e de modo mais profundo, pelos superiores. Mas nada impede que possam falar com os superiores a respeito de seus próprios pensamentos – ou seja, suas deliberações, suas decisões e desejos.

Portanto, os anjos inferiores falam, sim, com os superiores.

3. Encerrando.

É preciso sempre lembrar que os anjos são muito diferentes de nós, humanos. Eles são puramente espirituais, nós somos corporais. Eles são diferentes entre si, cada anjo é de uma espécie diferente, com capacidades diferentes, com inteligência diferente, enquanto nós, humanos, somos essencialmente iguais em espécie, diferentes apenas nas configurações corporais, de tal modo que a hierarquia, entre nós, sempre deve respeitar a igual dignidade dos indivíduos e o fato de que nossas diferenças são todas acidentais. Nos anjos não há igualdade de dignidade e as diferenças são essenciais. Assim, a rigidez da hierarquia, entre eles, não tem apenas um lastro acidental e cultural, mas tem um lastro natural. Por isso, também a conversa entre eles é muito mais rigidamente estruturada do que entre nós. Em todo caso, estudá-los representa, sempre, conhecer melhor a nós mesmos.