1. Introdução.

Uma vez que, no primeiro artigo desta questão, ficou claro que os anjos têm a capacidade de falar uns com os outros, agora debateremos se essa fala é apenas um discurso unilateral, rígido e hierárquico, em que o superior transmite uma iluminação ao inferior, mas o inferior não diz nada – e nem sequer poderia – ao superior; ou seja, a ideia de que, entre os anjos, poderia haver realmente uma fala, mas nunca um verdadeiro diálogo.

Duas coisas estão em jogo, aqui: a noção da rigidez hierárquica entre os anjos, uma vez que eles são realmente diferentes entre si, e essa diferença se manifesta na própria capacidade intelectual deles, e a noção de que o superior sempre ilumina o inferior, mas o contrário nunca acontece – noção que foi debatida por nós no artigo terceiro da questão 106, em três textos (aqui, aqui e aqui). De fato, sabemos que essa diferença essencial entre a capacidade intelectual é real, e que os anjos superiores sempre iluminam os inferiores, mas o contrário nunca acontece. Então como poderia haver um verdadeiro diálogo entre eles? Não pareceria que apenas o superior poderia falar ao inferior, mas nunca aconteceria o inverso?

É o que será debatido aqui. Veremos se falar, entre os anjos, é sinônimo de iluminar, ou seja, se toda fala entre anjos implica a transmissão de uma verdade divina entre eles, ou se há algum outro conteúdo para ser falado entre eles. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como sabemos, cada artigo sempre propõe, inicialmente, uma hipótese polêmica, para provocar o debate. No presente artigo, a hipótese controvertida é a de que os anjos superiores falam aos inferiores, mas os anjos inferiores nunca falam aos superiores. Entre eles não haveria, portanto, verdadeira interação, verdadeira conversa, mas apenas a transmissão pura e simples de informação ao inferior pelo superior.

Uma perspectiva um tanto angustiante, pela qual esse mundo espiritual de seres altamente capazes em inteligência parece adquirir, se esta hipótese for verdadeira, uma rigidez militar muito mais inflexível do que entre nós, humanos, e que nos parece muito distante da relação de verdadeira amizade que envolve o amor entre amigos, e que pressupõe a conversa recíproca e aberta entre eles. Muito mais um mundo de poder e ordem do que um mundo de amor que flui.

Há três argumentos iniciais que tentam provar esta hipótese inicial. Lembrando que estes argumentos iniciais não são definitivos nem necessariamente verdadeiros, mas apenas tentativas de comprovar a hipótese em debate, e que o próprio Tomás os corrigirá num momento posterior, que examinaremos nos textos seguintes. Vamos aos argumentos iniciais.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento examina a famosa passagem paulina em 1 Coríntios 13, 1 (Se eu falasse a língua dos homens e dos anjos…) lembrando que a glossa interlinear que comenta esta passagem nos explica que a língua dos anjos, aqui mencionada, não é outra coisa senão aquele movimento pelo qual os anjos superiores iluminam os inferiores com alguma verdade recebida de Deus. Portanto, entre os anjos, falar é o mesmo que iluminar. Ora, já vimos, na questão 106, artigo 3, cujos links estão acima, que os anjos inferiores nunca iluminam os superiores, mas é o contrário que sempre acontece: são os superiores que sempre iluminam os inferiores. Ora, se falar e iluminar são sinônimos, entre os anjos, então temos que concluir que os anjos inferiores nunca falam com os superiores, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor continua insistindo que, entre os anjos, falar e iluminar são palavras sinônimas. De fato, diz o argumento, na questão 106, artigo 1, definiu-se que iluminar, entre os anjos, é a ação de manifestar ao outro aquilo que já é manifesto a si mesmo. Ora, quando eu mostro ao outro aquilo que sei, isto nada mais é do que falar. Logo, entre os anjos, falar é o mesmo que iluminar. Mas já vimos, no argumento anterior, que os superiores sempre iluminam os inferiores, mas o contrário nunca acontece. Logo, os anjos inferiores nunca falam com os superiores, conclui este argumento.

O terceiro argumento objetor.

Segundo São Gregório, que é uma grande autoridade quanto aos anjos, Deus fala com os anjos quando revela às suas mentes suas deliberações ocultas e invisíveis. Ora, receber o conhecimento das deliberações ocultas de Deus significa exatamente ser iluminado por Deus.

Mas o conteúdo da fala entre os anjos é sempre a transmissão das deliberações de Deus aos outros anjos – ou seja, é sempre uma iluminação. Mas isso se dá sempre do anjo mais elevado para o inferior. Logo, nunca há a possibilidade de que o anjo inferior fale ao superior, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Já sabemos, também, que, no início de cada artigo, após colocar a hipótese polêmica e os argumentos iniciais que tentam comprová-la, surge sempre um argumento contrário, normalmente retirado das Escrituras ou de alguma grande autoridade no assunto, que nos impede de aceitar a hipótese e nos mostra que ela está errada ou incompleta.

No presente caso, a autoridade invocada é a do Pseudo-Dionísio, respeitado em todo o mundo cristão como grande especialista em anjos. Este autor tinha uma leitura muito interessante do salmo 23(24), que ele compreendia como sendo um diálogo entre os anjos a respeito de Jesus. Assim, nos versículos 8 e 10, a pergunta “dizei-nos, quem é este Rei da Glória?” seria, para o Pseudo-Dionísio, os anjos inferiores falando com os superiores, para que pudessem saber mais a respeito de Jesus. Ora, se é assim, então ficaria comprovado, diz o argumento, que os anjos inferiores de fato podem se dirigir aos superiores e falar com eles.

5. Encerrando.

Num universo estruturado pelo amor de Deus, a conversa, a relação bilateral, a possibilidade de falar e ser ouvido, estão em paralelo com a possibilidade de ouvir o que o outro nos fala. Isto não poderia ser diferente com os anjos.

Mas estamos nos adiantando. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.