1. Retomando.

Conversar é algo que, para nós humanos, implica sempre a intermediação física ou, mais especificamente, corpórea. É impossível a um ser humano realizar algum tipo de conversa, de fala, sem a intermediação do corpo. É também a materialidade do ser humano que determina a processualidade de nossa mente: saímos sempre de um estado de ignorância para um estado de conhecimento imperfeito, incompleto, sempre passível de aperfeiçoamento.

Com os anjos nenhuma das duas coisas se apresenta. Em primeiro lugar, seja qual for a maneira pela qual eles se comunicam, ela não envolve nenhuma intermediação material para acontecer: os anjos devem possuir alguma maneira de falar que não envolva produzir sons, gestos, olhares e toques físicos como nós fazemos.

Além disso, eles não procedem, na sua mente, de modo processual, como se precisassem aprender empiricamente, por exploração, por raciocínio, por tentativa e erro, por abstração: os anjos sabem ou não sabem, e, neste último caso, passam do estado do não saber ao estado do saber por iluminação, ou seja, pela aquisição imediata, certa e clara daquilo que ignoravam. Anjos não precisam de dialética nem de experimentação para conhecer.

Debrucemo-nos agora sobre a resposta sintetizadora de Tomás quanto à língua dos anjos, ou seja, sobre a maneira pela qual eles trocam informações entre si: ou seja, sobre o modo pelo qual os anjos falam, conversam entre si, em sua missão de governar o universo sob a obediência de Deus.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Os anjos podem falar entre si.

Os anjos são capazes de se comunicar entre si, por um modo que é muito diferente do modo humano de falar, de se comunicar. De fato, o próprio São Gregório, tratando da questão da nobreza da nossa dimensão espiritual e da sua capacidade de contemplação e de diálogo interno, constata que é muito adequado que nossa mente possa superar os limites materiais da linguagem para elevar-se até os modos sublimes e desconhecidos da linguagem interior, ou seja, que possamos pensar sem os limites estreitos da linguagem material articulada, pela contemplação direta e integral das ideias, das formas, das species.

É certo que a filosofia dos nossos dias trava um debate interessantíssimo sobre a natureza do pensamento humano, e se conseguimos ou não pensar de um modo tal que supera a nossa capacidade de falar articuladamente – ou se a estrutura de nossas línguas, do nosso falar que sempre envolve algum tipo de materialidade, condiciona absolutamente nosso pensamento interior mesmo, como humanos que somos. Tomás não conheceu, e nem poderia, esta discussão que é muito posterior a ele. Mas, para chegar a explicar a maneira pela qual uns anjos falam com os outros, Tomás vai nos recordar a respeito de como a nossa alma funciona, na relação entre pensamento e linguagem.

A relação entre o conhecimento, o pensamento e a fala na alma humana.

Para chegar a explicar alguma coisa sobre a forma pela qual os anjos conversam, precisamos entender a forma pela qual nós próprios, seres humanos, conversamos, falamos, e, por analogia, tentar entender como isso se daria entre os anjos.

De fato, quando estudamos a questão 82, atigo 4 (nossos textos sobre esse artigo estão aqui, aqui e aqui) descobrimos que é a nossa vontade que faz com que o nosso intelecto possa funcionar, ou seja, entrar em operação.

Em nosso intelecto, tudo começa com a aquisição do conhecimento. Adquirir conhecimento significa aperfeiçoar, com o hábito da ciência, nossa mente. Assim, se quero estudar, por exemplo, a ciência química, passo a ler os livros, a receber as aulas dos professores e a fazer minhas próprias experiências, até que o conhecimento da ciência se implante em minha mente como um hábito, ou seja, como uma perfeição que está disponível para mim sempre que eu precisar e quiser buscá-la em meu intelecto – embora não esteja sempre em ato (quer dizer, um químico não está sempre pensando efetivamente na química, quando, por exemplo, dorme, ou almoça com sua família no final de semana, ou vai à missa). Mas, quando a minha vontade determina que este ou aquele conhecimento sobre determinada reação química seja ativado na minha mente, ele passa a estar disponível para mim em ato, na minha mente – e por isso Tomás define o hábito como aquela capacidade que alguém usa quando quer.

Neste caso, e usando as lições de Santo Agostinho sobre memória, ato e referência, o conhecimento, que está depositado em mim, em minha memória, como um hábito (primeiro nível) passa a estar disponível à minha mente como ato (segundo nível) quando eu estou efetivamente usando este conhecimento, por uma deliberação da minha vontade: por exemplo, quando estou no laboratório provocando uma reação química entre dois elementos.

A minha vontade pode, então, fazer com que este conhecimento se eleve a um terceiro nível, quando eu o articulo em forma de linguagem para transmiti-lo a outra pessoa. Neste caso, eu uso uma linguagem de referência para falar com alguém sobre aquilo que eu sei e faço.

É deste modo que, por exemplo, o professor de química, além de ter o conhecimento habitual sobre a química e ser capaz de usar este conhecimento, por exemplo, num laboratório, pode querer transmitir esse conhecimento a seus alunos, formando sobre ele uma linguagem articulada, tomando palavras da língua comum ou mesmo utilizando termos técnicos e palavras adaptadas à realidade que quer descrever. Neste caso, ele usa muitas vezes palavras ou expressões que foram geradas em outro contexto para expressar e referir o conhecimento que quer transmitir pela fala. Pode usar palavras como quente e frio, opaco ou translúcido, reativo ou inerte, para tratar daquele conhecimento que quer transmitir em sua fala. Temos, assim, no processo espiritual de conhecimento, pensamento e fala, três níveis que formam a capacidade humana de conversar, de transmitir pensamentos e conhecimentos.

Ora, para simplesmente pensar sozinho, diz Tomás, não precisamos destes três níveis: usamos apenas os dois primeiros. Na nossa vida interior, diz ele, quando queremos atualizar algum conhecimento que temos habitualmente, formamos o chamado verbo interior, ou seja, trazemos à consciência aquilo que estava guardado em nossa memória, não necessariamente de um modo articulado em forma de linguagem gramatical, mas como verbo interior, pensamento ativo, conhecimento disponível existencialmente para nós mesmos, e que permanece secreto para o outro até que queiramos passar ao terceiro nível, isto é, até que possamos expressar externamente pela palavra falada ou escrita.

Que o segundo nível, do pensamento íntimo, é diferente do terceiro, é fácil constatar: basta comparar, por exemplo, um relato sobre algum mesmo fato, escrito por um colegial de tenra idade e poucos conhecimentos ou por um literato de grande talento narrativo: mesmo que pensem sobre a mesma coisa (segundo nível, o verbo interior), a maneira pela qual a expressarão (terceiro nível, o da fala) será muito diferente.

A conversa entre os anjos.

Os anjos não são constituídos, como nós, de uma dimensão espiritual e uma dimensão material. Eles são inteiramente espirituais. Ora, o terceiro nível do nosso pensamento, ou seja, o nível da articulação do verbo interior numa linguagem referencial, transmissível por algum meio material para a outra pessoa, decorre exatamente do fato de que nós, humanos, não somos apenas espíritos, mas seres de corpo e alma. Para nós é impossível transmitir diretamente o verbo interior para outra pessoa, por mais que nossa fala seja, justamente, uma tentativa – sempre limitada – de fazê-lo.

Os anjos não têm este limite. Podem transmitir entre si, diretamente, o verbo interior para os outros, isto é, podem, por um ato de vontade, dar a conhecer, aos outros anjos com os quais se relacionam, seu verbo interior, apenas por querer que os outros o conheçam. Assim, quando um anjo fala a outro, ele não precisa de uma linguagem articulada, referencial, imperfeita, material, nem precisa de algum meio para expressar o que pensa: ele simplesmente torna atual ou seu conhecimento habitual e manifesta ao outro anjo, por uma decisão de sua vontade, aquilo que está em sua mente. O anjo, ao falar, transmite diretamente o conteúdo do segundo nível da sua mente: o verbo interior. Anjos não precisam de linguagem articulada, referencial, para falar. Embora, acrescentemos nós, sua capacidade intelectual superior permita que eles conheçam perfeitamente as línguas humanas e possam se expressar nelas, por exemplo quando se dirigem a nós ou quando nos contemplam.

Assim, a fala dos anjos é simplesmente a vontade de evidenciar seu verbo interior ao outro. O que significa que os anjos também podem resguardar dos outros a sua intimidade pessoal, que só é revelada por uma decisão deliberada de sua vontade. Entre eles, pois, conversar é manifestar o verbo interior ao outro.

3. Encerrando.

O texto acabou ficando mais longo e mais complexo do que eu esperava. Encerremos por aqui.

No próximo texto, munidos destes princípios, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.