1. Introdução.
Há um fenômeno religioso que tem obtido grande proliferação no século XX: trata-se de “falar na língua dos anjos”, fenômeno comum nos meios pentecostais. Não é isto que vamos debater aqui. Aqui, trataremos da comunicação verbal entre os anjos, que é algo difícil de conceber para nós, humanos. De fato, os anjos não têm corpos materiais, e portanto não têm uma linguagem articulada, como a nossa. São mentes espirituais, e por isso é muito difícil para nós entender como eles podem trocar informações entre si. Para nós, a comunicação verbal é sempre realizada por uma linguagem, que tem sempre uma dimensão material, seja pela vibração do ar, no caso da língua falada, seja pelo registro de sinais em algum meio material, no caso da língua escrita. Mas anjos não se comunicam por meio de sinais. Como podem trocar ideias entre si? Este é o debate que faremos aqui. Vimos, na última questão, que eles podem se iluminar intelectualmente, isto é, podem ampliar a capacidade intelectual uns dos outros (os superiores iluminam os inferiores) para transmitir aquelas informações que recebem de Deus. Mas como essa iluminação se realiza? Qual o meio que eles usam, já que não são materiais? Como conversam, em resumo? Será que simplesmente pensam e o outro anjo vê? Será são capazes de ler as mentes uns dos outros, de modo que são completamente transparentes aos outros?
Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é a de que eles não conversam, isto é, um anjo não fala com outro. Há três argumentos objetores que tentam explicar as razões pelas quais a conversa entre os anjos seria impossível ou mesmo desnecessária. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita São Gregório Magno, que ensinou que, na ressurreição final, a corporeidade que teremos não ocultará as mentes dos olhos dos outros. Ora, se nós, seres corporais, seremos, na ressurreição final, transparentes uns aos outros, de tal modo que nenhuma conversa será necessária, porque nos conheceremos reciprocamente de modo integral, muito mais transparentes uns aos outros são os anjos, que não têm em si nenhuma dimensão material para torná-los opacos uns aos outros. Ora, a conversa e a fala servem justamente para evidenciar aos outros aquilo que, em nós, não é visível diretamente a eles. Portanto, se não há nada, nos anjos, que não seja diretamente visível uns aos outros, então não há nenhuma razão para que eles conversem, e portanto, os anjos não falam entre si, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que, entre nós humanos, há dois níveis de conversa: a fala interna, quando elucubramos conosco mesmos em nossos corações, e a fala externa, ou conversação, quando nos dirigimos a outras pessoas. Ora, esta fala externa, ou conversação, sempre envolve algum tipo de materialidade, como a emissão de sons, os sinais corporais ou escritos ou os gestos das mãos. Ora, os anjos não têm nenhum tipo de materialidade, então nunca podem se expressar por gestos corporais ou materiais, como nós. Assim, os anjos podem até realizar uma fala interior, em sua própria mente, mas nunca entram em conversação com outros anjos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Quem conversa sempre chama de algum modo a atenção do outro, interpelando-o para que esteja atento à sua fala. Ora, um anjo não tem como interpelar outro anjo, chamando sua atenção, porque nós, humanos, sempre fazemos isto de alguma maneira que envolve o corpo: cutucando, fazendo psiu, chamando ou mesmo acenando. Assim, um anjo não entra em conversação com outro, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra traz um argumento da própria Bíblia: trata-se da Carta de São Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 13, 1), em que ele diz: mesmo que eu falasse línguas, as dos homens e a dos anjos…
Ora, as Escrituras dão testemunho, aqui, diz o argumento, de que há algum tipo de língua entre os anjos. Logo, eles podem trocar ideias, falar entre si, conversar, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Ficamos, assim, curiosos com este mistério. O que será que as Escrituras querem dizer quando mencionam uma língua dos anjos? Como será a conversa entre eles?
Por outro lado, como imaginar algum tipo de intimidade pessoal com relação aos anjos? Como imaginar que eles possam manter seus pensamentos privados, de tal modo que possam inclusive se defender daqueles anjos decaídos que conhecemos como demônios, se sua mente fosse simplesmente transparente?
Coisas que aprofundaremos no próximo texto, visitando a resposta sintetizadora de Tomás.
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