1. Voltando para encerrar.

A transparência do bem é impressionante. Contagiosa, no melhor sentido da palavra. E é assim que o universo é governado por Deus, por meio dos seus anjos: na ordem, no amor, na comunicação, no compartilhamento livre e obediente do bem. A iluminação de um anjo por Deus leva-o à iluminação de todos os outros, de modo hierárquico, de tal modo que cada um receba a luz verdadeira e boa, proporcionada à sua própria capacidade de compreender e viver esse bem. Vimos tudo isso na resposta sintetizadora de Tomás, que estudamos no texto anterior. Ou seja, quando os anjos superiores iluminam os inferiores, eles compartilham tudo o que sabem, mas de modo adequado e proporcionado às limitações do anjo inferior.

Estudaremos, agora, as respostas de Tomás a cada um dos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento recorre, mais uma vez, ao Pseudo-Dionísio, grande autoridade quanto aos anjos. Ele afirma que os anjos superiores, por sua natureza mesma, têm uma capacidade intelectual muito mais elevada, muito mais penetrante, do que os inferiores; estes, os inferiores, são muito menos capazes de abstrações e de lidar com o saber universal – são mais voltados ao particular. Ora, o saber universal é muito mais amplo do que o particular. Logo, os anjos universais sabem muito mais do que os inferiores, e não podem iluminar os inferiores sobre tudo aquilo que sabem, porque isto ultrapassaria a própria capacidade dos inferiores, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A diferença entre os anjos não significa que os inferiores não alcancem todos os assuntos, todas as informações que os superiores alcançam; porém, não o fazem com a mesma profundidade e amplitude que os superiores. Logo, os superiores iluminam os inferiores sobre tudo o que sabem, mas de modo adaptado aos limites dos inferiores, conclui Tomás.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra da posição de Pedro Lombardo, o respeitadíssimo Mestre das Sentenças, que era objeto de estudo de todos os que desejavam conhecer profundamente a teologia no tempo de Tomás. De fato, Pedro Lombardo diz que os anjos superiores sabiam, desde todo o sempre, que a Encarnação do Verbo aconteceria, mas os anjos inferiores a ignoravam. E esta afirmação decorre da leitura que se fazia do Salmo 24(23), versículos 08 a 10, que, segundo o Pseudo-Dionísio lia, representava um diálogo entre os anjos, no qual os inferiores perguntariam aos superiores, quanto a Jesus: “quem é esse Rei da Glória?” E os superiores responderiam: “é o Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da Glória”. Ora, um diálogo assim pressupõe que os inferiores ignorassem a respeito da Encarnação, e, confrontados com Jesus, tivessem que perguntar aos

Ora, um diálogo assim só teria lugar se os anjos superiores não iluminaram os inferiores desde sempre com relação à Encarnação. Logo, os anjos superiores não iluminam os inferiores sempre, com relação a tudo aquilo que sabem, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás é muito cuidadoso, com relação à Tradição que recebe e aos escritores eclesiásticos e teólogos que o precederam. Dificilmente ele os desmente ou ataca, e sempre procura alguma maneira de interpretar seus escritos de maneira a preservá-los de desvios ou equívocos, evitando declará-los errôneos quando há alguma maneira de interpretá-los que os resgate de erros.

É isto que acontece aqui. Diante do fato de que Pedro Lombardo defende que os anjos inferiores, de algum modo, não conheciam a Encarnação, Tomás vai responder que Pedro, na verdade, dizia que os anjos inferiores não tinham todo o alcance do fato, isto é, não o compreenderam tão plenamente como os superiores, e por isso precisaram, ao confrontar-se com Jesus, da orientação dos superiores para progredir nesse conhecimento até que todo o mistério lhes ficasse claro. Por isso, não se pode concluir que os anjos superiores deixaram de iluminar os inferiores quanto aquilo que os inferiores tinham capacidade de entender, nesse caso.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que o processo de iluminação entre os anjos é permanente, ou seja, não é algo pontual, que ocorra algumas vezes; tampouco é algo que tenha um caráter processual, quer dizer, que tenha acontecido num determinado momento e tenha se tornado desnecessário em seguida. Ora, se os anjos superiores simplesmente iluminassem os inferiores com tudo aquilo que sabem, de modo a transmitir a eles todo o conhecimento que detêm, então esse processo deixaria de ser necessário, pois já não haveria nada, nos anjos superiores, que precisasse ser transmitido aos inferiores, e a iluminação simplesmente deixaria de acontecer. Logo, os anjos superiores não iluminam os inferiores a respeito de tudo aquilo que sabem, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Enquanto houver o desenrolar da história em nosso universo material, haverá novas revelações de Deus aos anjos, e portanto haverá sempre assunto para que os superiores iluminem os inferiores. De fato, os anjos superiores transmitem aos inferiores, com transparência e lealdade, tudo aquilo que recebem de Deus, sem ocultar nada; mas não são oniscientes, de modo que, enquanto houver história, isto é, enquanto não vier o Juízo Final, sempre haverá o que receber de Deus e transmitir aos inferiores, sem que seja necessário imaginar que os superiores precisem ocultar alguma coisa aos inferiores, ensina Tomás.

3. Concluindo.

Aprendemos, portanto, que o bem não pode ser retido; deve ser espalhado, compartilhado, ensinado, mesmo entre os anjos. Principalmente entre os anjos, quando na função de executar o governo, sob o amor de Deus, da criação. Não é outro o sentido da palavra de Jesus em Mateus 10, 27: “O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados”.