1. Retomando.
A solidariedade no conhecimento de Deus, dentre os Santos Anjos, é uma dimensão daquilo que podemos chamar – e de fato chamamos – de comunhão dos santos. De fato, embora Deus não seja conhecido do mesmo modo por todos os santos – e por todos os santos anjos, devido inclusive à sua constituição interna, que inclui a diferença essencial entre eles – eles não formam clubinhos, eles não escondem segredos, eles não ocultam o amor de Deus uns dos outros. A questão é: dada esta verdade, será que todos os conhecimentos que os santos anjos possuem sobre Deus são compartilhados e conhecidos igualmente por todos eles?
Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial de que os anjos mais elevados não compartilham todos os conhecimentos com os anjos inferiores, de modo a iluminá-los integralmente com os planos de Deus que conhecem. Vimos três argumentos que tentavam justificar esta posição, e finalmente o argumento contrário, que trouxe a posição de São Gregório e do Pseudo-Dionísio para rejeitar a hipótese inicial, asseverando que todo conhecimento, toda iluminação possuída pelos anjos mais elevados é incondicionalmente partilhada com os inferiores. Diante dessas duas posições extremas, que representam a tese e a antítese de nosso diálogo, examinaremos agora a síntese do próprio Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A bondade na criatura é participação na bondade divina, e tende à difusão.
Como Tomás não cansa de nos lembrar, o bem é sempre difusivo; isto significa que tudo aquilo que é bom tende a se difundir, a se espalhar, a crescer, a ser comunicado. Este princípio aparece com muita clareza, hoje, em nossas redes sociais: quantas vezes um fato qualquer é compartilhado pelas redes sociais, ou quantas vezes, digamos, um filme se torna famoso porque as pessoas o divulgam espontaneamente nas suas redes informatizadas?
Assim, Tomás nota que, mesmo no mundo dos seres materiais, temos a tendência a compartilhar, a comunicar o bem que somos e temos. Mesmo os animais mais solitários, como, digamos, os tigres, têm um forte impulso à reprodução, ou seja, a compartilhar o bem daquilo que são. E, ao se reproduzir, eles compartilham o bem com seus companheiros e sua prole. Também entra nós, humanos, não somente o bem que somos, mas o bem que temos e o bem que sabemos tende a ser compartilhado sempre. Não se esconde o bem, não se priva os outros do bem, não se interrompe o bem.
Portanto, vemos que, tanto maior o bem de alguma criatura, tanto mais ele tende a compartilhar esse bem. Assim, se um vegetal ou um animal irracional comunica à descendência o bem daquilo que são, nós, animais racionais, não somente o fazemos por reprodução, mas também pela cultura e pela fé. E muito mais os santos anjos, criaturas ainda mais próximas de Deus, tendem a comunicar o bem elevadíssimo de que desfrutam, por viverem na graça. Isto é o que ensina a Primeira Carta de São Pedro (4, 10): “Como bons dispensadores das diversas graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu”. Ora se isso se aplica a nós, caminhantes neste mundo material, muito mais se aplica aos Santos Anjos, mergulhados na graça divina. Assim, eles não guardam para si nada do que recebem de Deus, mas iluminam-se para que o conhecimento de Deus seja difundido.
Os limites da natureza dos anjos.
Como já vimos, os anjos não são iguais em natureza, o que significa que sua hierarquia se fundamenta justamente na diferença de capacidade intelectual e volitiva entre eles. De fato, há anjos com enorme capacidade intelectual e outros muito simples, cujo entendimento não é capaz de penetrar muito na verdade das coisas. Mas isto não significa que eles não sejam capazes de conhecer a verdade e amá-la; mas a conhecem de um jeito muito mais simples do que os anjos mais elevados. Uma analogia seria a daquele aluno ainda na infância que tem seu primeiro contato com o alfabeto; o professor ensina a ele as letras e ele de fato as aprende, mas certamente o professor conhece o alfabeto de uma maneira muito mais profunda, muito mais completa, do que a criança que está sendo alfabetizada. Mas o professor não esconde nem altera a verdade sobre o alfabeto – no entanto, vai transmitir ao aluno um conhecimento adaptado e adequado à idade e ao grau de instrução do pupilo.
Algo análogo ocorre entre os anjos: aqueles mais elevados têm um conhecimento mais completo e abrangente da verdade, de um modo mais perfeito do que aqueles mais simples; mas não se trata de um conhecimento diferente ou mesmo inacessível a alguns. Ocorre que, quando o mais elevado ilumina o mais simples, ele o faz considerando os limites deste último, como o mestre considera os limites do aluno quando o instrui.
3. Encerrando por enquanto.
Esta parece, então, ser a posição sintetizadora, alcançada por Tomás: os anjos mais elevados sempre transmitem a verdade que sabem e receberam de Deus aos mais simples; mas o fazem de modo adaptado aos limites dos simples, de tal modo que todos conhecem a mesma verdade, mas com diferentes graus de penetração.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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