1. Introdução.
Já sabemos que os anjos se diferenciam por seu grau de inteligência e por sua perfeição de amor. Já sabemos, também, que eles recebem de Deus o que sabem, e que não é próprio dos anjos aprender por exploração, como os humanos, porque os anjos não têm órgãos de sentido – não têm corpo. Assim, recebem de Deus as informações, o conhecimento, de tal modo que dispõem, em sua própria natureza, do conhecimento que é próprio à sua espécie, e transmitem reciprocamente, por iluminação, do maior para o menor, aquelas informações que são reveladas por Deus para seu conhecimento.
A pergunta que deve ser debatida, agora, diz respeito a essa relação de iluminação entre os anjos: será que os anjos superiores transmitem incondicional e completamente todas as informações que possuem para os inferiores? Será que há segredos entre os anjos, de tal modo que haja conhecimentos que são reservados por alguns e não repassados aos outros? Ou o governo que Deus exerce sobre o universo criado pressupõe que os anjos se relacionem sempre com completa abertura e confiança recíproca?
A importância disso para nós é grande. Se admitimos que há informações reservadas, mesmo entre os anjos, teremos que admitir que há aspectos da criação, quanto ao próprio funcionamento do universo, que estão e estarão sempre fora da capacidade humana de conhecer. Não apenas como mistérios, que podem ser conhecidos mas nunca esgotados (isso existe), mas como áreas simplesmente vedadas ao nosso conhecimento, e mesmo ao conhecimento de anjos inferiores. Se isto for verdade, os limites à ciência humana sobre a criação serão muito maiores do que pensamos – mas, se o conhecimento dos anjos é sempre partilhado com abertura e confiança recíprocas, podemos, também nós humanos, confiar que a criação não apresentará obscuridades inacessíveis a nós, e a nossa ciência, mesmo nunca sendo completa, é sempre capaz de alcançar, em tese todos os aspectos do governo do universo. Portanto, está em jogo, aqui, a transparência, para nós, do próprio governo do universo. Se há segredinhos entre os anjos, de tal modo que os inferiores – muito mais inteligentes que nós – não são informados de tudo o que os superiores sabem, então muito mais haverá segredos, na condução do universo, que estarão irremediavelmente além de nossa capacidade intelectual.
Tema complexo. E interessante. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, proposta aqui para suscitar o debate, é a de que o anjo mais elevado não ilumina o inferior quanto a tudo aquilo que sabe, mas retém ou reserva para si informações ou conhecimentos quanto aos planos de Deus no governo do universo. Haveria, assim, assuntos que alguns anjos mais perfeitos sabem, mas os anjos inferiores ignoram inteiramente, porque nada recebem, nessa matéria, dos superiores, segundo esta hipótese. Há três argumentos objetores que tentam provar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor, que tenta comprovar a hipótese inicial, afirma que é da natureza dos anjos superiores terem um intelecto mais profundo, um conhecimento nais universal e abrangente sobre o universo do que os anjos mais simples, cujo intelecto é mais particular e mais dependente. Ora, prossegue o argumento, um intelecto mais profundo, dotado de uma ciência mais universal e abrangente, é caracterizado justamente por ter mais compreensão, mais penetração, mais informação, do que o inferior. Assim, o anjo superior sabe mais coisas do que o inferior, e não ilumina o inferior a respeito de tudo aquilo que sabe, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento cita Pedro Lombardo, chamado de “Mestre das Sentenças” por Tomás e pelos escolásticos. De fato, Pedro Lombardo afirma que os anjos superiores sabiam, desde muito séculos, o mistério da encarnação do Verbo, mas os inferiores o desconheciam até quando ele de fato veio a se consumar. O próprio Pseudo-Dionísio, comentando este mesmo fato, o interpreta a partir do salmo 24(23), como se fosse um diálogo entre anjos inferiores, que desconheceriam o mistério da Encarnação e, deparando-se com Jesus, perguntariam aos superiores: “Quem é este Rei da Glória?”; os superiores, então, lhes responderiam: “É o Senhor onipotente”. Ora, se os inferiores já tivessem recebido, dos superiores, a iluminação sobre a encarnação do Verbo, diz o argumento, este diálogo não seria necessário, nem eles precisariam, ao encontrar Jesus, perguntar quem ele era, aos superiores. Logo, os anjos superiores nem sempre iluminam os inferiores sobre tudo o que sabem, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Se os anjos superiores iluminassem os inferiores sobre tudo o que sabem, então os inferiores não precisariam mais de iluminações posteriores, porque já saberiam, desde logo, tudo o que os superiores sabem. Mas ocorre que a relação entre os anjos, em sua hierarquia, e essa iluminação dos inferiores pelos superiores, ocorre sempre. Logo, os superiores não iluminam sempre, imediata e irrestritamente os inferiores sobre tudo o que sabem, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Chegamos, agora, ao argumento que se posiciona de modo contrário à hipótese controvertida inicial, que chamamos de argumento sed contra. Aqui, o argumento cita São Gregório Magno que, quando trata da troca de informações entre os anjos e da transparência na gestão do universo, diz assim: “na pátria celeste, embora algumas coisas sejam dadas de modo mais completo para uns do que para outros, não há, no entanto, nada que seja de propriedade exclusiva de um ou de alguns”. Ora, uma vez que, quanto aos anjos, o dom é sempre espiritual, ou seja, sempre se refere ao conhecimento e ao amor de Deus, fica claro que não há a retenção, por alguns, daquelas informações que são dadas para que sejam compartilhadas por todos. E o Pseudo-Dionísio ensina que “cada indivíduo (essência) celeste comunica aos seus inferiores aqueles conhecimentos que recebeu dos seus superiores”, de modo que, como vimos no artigo primeiro desta mesma questão, existe uma comunicação livre, sem reservas e e colaborativa entre os anjos no governo do mundo, conclui o argumento.
5. Encerrando.
A questão da confiança recíproca e da transparência, para os anjos, dos planos de Deus para o governo do mundo parece se chocar, neste debate, com a questão relativa à estrutura hierárquica dos anjos e às diferenças em sua própria capacidade de inteligir, o que implicaria que os superiores poderiam deixar de repassar informações aos inferiores. Assim, o governo do universo não seria igualmente transparente para todos os seres celestes, e portanto não totalmente disponível, pelo menos potencialmente, para o conhecimento humano. As implicações disto para os seres humanos são, portanto, enormes. Precisamos pressupor, ao mesmo tempo, que a hierarquia entre os anjos é algo real mas que a transparência na gestão do universo também o é.
No próximo texto veremos a resposta de Tomás a este assunto espinhoso.
Deixe um comentário