1. Retomando.

Para nós, é muito difícil imaginar um universo regido por Deus por meio dos anjos, ou seja, imaginar um universo em que aquilo que a ciência enxerga como um jogo de forças impessoais (gravitação, eletromagnetismo, forças fortes e fracas, deslocamento espacial de astros, etc.) decorra, na verdade, da relação dos anjos com Deus e entre si, de modo ordenado, hierárquico e amoroso, no qual a obediência pressupõe a compreensão dos fins da atividade universal e a aceitação da condução divina. A ordem e a inteligibilidade do universo, o seu governo, que o conduz a Deus como ao seu bem supremo, estão relacionados a esses seres espirituais pessoais e invisíveis para nós; isto parecia muito claro para os antigos, e para nós, hoje, parece simplesmente espantoso que se possa pensar assim. Mas, quando pensamos, por exemplo, no fato de que Jesus dá uma ordem ao vento e ele se acalma, vemos como isto faz sentido.

Num universo assim, governado por Deus por meio de seres pessoais, aquele que está numa posição menos elevada reconhece livremente, no mais elevado, alguém que ama mais, que conhece mais, que está mais próximo de Deus, e por isso serve mais. A hierarquia decorre, pois, do reconhecimento espontâneo de que é bom que as coisas sejam assim. Sabemos que nem todos os anjos se submeteram à ordem do amor. Mas estamos tratando, aqui, da ordem amorosa do universo pelos santos anjos, não da sua rejeição.

É exatamente esta hierarquia entre os anjos que está em debate agora; a hierarquia inflexível na ordem do amor que faz com que o governo do universo seja estável e faça sentido, mesmo para aqueles que, como nós humanos, não conseguimos enxergar essas forças pessoais e invisíveis a conduzir todas as coisas por Deus e com Deus. Examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que a hierarquia na Igreja (Papa, bispos, presbíteros, diáconos e assim por diante) refletem e espelham a hierarquia celeste, notadamente aquela dos Santos Anjos. Ora, sabemos que, na Igreja, às vezes alguém numa posição inferior tem uma relação de mais amor, de mais intimidade com Deus do que alguém numa posição hierarquicamente superior, e aquele pode vir a inspirar e até ensinar o seu superior hierárquico sobre Deus – não são raros os exemplos de santos muito simples, como Catarina de Sena, que chegaram a iluminar bispos e até mesmo o Papa. Assim, se esta hierarquia é reflexo da outra, devemos concluir que também entre os anjos é possível que um inferior ilumine um superior, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, a hierarquia eclesial é como que um reflexo da hierarquia celeste, mas está longe de ser um reflexo perfeito ou literal. Na hierarquia celeste, ser “mais elevado” ou “mais perfeito” significa estar mais próximo de Deus, viver mais intensamente o Seu amor, gozar mais perfeitamente de Sua amizade. Assim, os mais elevados são necessariamente mais perfeitos no amor e no conhecimento de Deus, e não há sentido em imaginar que alguém mais próximo de Deus possa ser iluminado por alguém mais distante Dele. Mas na Igreja que caminha aqui na terra as coisas nem sempre são assim: algumas vezes, na Igreja aquele que ocupa um cargo mais elevado na hierarquia pode ser muito proeminente em algum aspecto, mas deficiente em outro; pode ser, por exemplo, muito culto ou estudado, mas moralmente fraco. De tal modo que às vezes um humilde leigo, como São Francisco, pode estar muito mais perto do coração de Deus do que um bispo pouco santo. Assim, na Igreja, um inferior pode iluminar um superior, quanto ao amor e ao conhecimento de Deus, mas entre os anjos isto nunca é possível.

O segundo argumento objetor.

A ordem hierárquica dos anjos está integralmente submetida ao poder infinito de Deus, à Sua vontade onipotente, como também a ordem das criaturas corporais. Ora, no artigo anterior vimos que Deus, às vezes, desconsidera a ordem natural das coisas corporais e age miraculosamente, fora dessa ordem. Assim, nada impede que ele o faça também na ordem das criaturas espirituais. Assim, Deus pode quebrar a hierarquia dos anjos e fazer com que um inferior ilumine um superior, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Deus, de fato, pode quebrar a ordem natural das coisas materiais e realizar milagres. Mas os milagres, na ordem material, sempre têm por objetivo conduzir os seres humanos até Deus. Ora, a quebra da ordem hierárquica dos anjos não seria visível para nós, e por isso não ajudaria a nos conduzir para Deus. Ou, pior ainda, poderia nos aparecer como uma falta de sentido intrínseco na própria condução do universo físico, o que impediria inclusive o desenvolvimento das ciências dos seres humanos, se o universo não mantivesse sua previsibilidade e as causas disso fossem ocultas para nós. Assim, não há sentido em imaginar que Deus quisesse quebrar a hierarquia entre os anjos arbitrariamente.

O terceiro argumento objetor.

O anjo é livre para se voltar para outro anjo e entrar em relação com ele, iluminando-o, como vimos no primeiro artigo desta questão. Ora, se há essa liberdade de relação entre os anjos, nada impediria, por exemplo, que um anjo muito elevado, muito perfeito, se voltasse para um anjo pequenino, muito inferior, e o iluminasse, de tal modo que esse anjo pequenino, ocupando um lugar muito baixo na hierarquia celeste, estivesse mais iluminado do que aqueles que estão acima dele. Neste caso, esse anjo pequeno, estando iluminado diretamente pelo mais elevado de todos, poderia ser capaz de iluminar aqueles que estão acima dele. Logo, existe a possibilidade de que um anjo inferior ilumine um superior, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, os santos anjos são seres pessoais, e portanto possuem uma vontade livre para se relacionar com quaisquer outros anjos. Mas os santos anjos compreendem profundamente a ordem do amor de Deus, que envolve a hierarquia de proximidade com ele, e, deste modo, nunca querem agir de um modo tal que implicasse numa quebra dessa ordem espiritual maravilhosa. Assim, a liberdade dos anjos não implica a possibilidade de que esse anjo se rebele contra a ordem de Deus, que ele reconhece livremente como perfeita e adere livremente para realizar. Por isso, não se pode imaginar que um anjo mais elevado deliberadamente provocasse a quebra da hierarquia celeste, pois isso seria um abuso da liberdade incompatível com a santidade.

3. Concluindo.

A ordem espiritual, a ordem da santidade, a ordem dos anjos, que é a ordem pela qual Deus rege ativamente o universo por meio dos seus mensageiros livres, pessoais e espirituais, é a melhor ordem de todas, e não há razão para que seja quebrada. Por isso, podemos concluir que há uma perfeita hierarquia no céu, na qual e pela qual os anjos realizam perfeitamente a vontade de Deus sobre o universo criado. É uma verdadeira liturgia celeste, que deve ser o modelo para a nossa.