1. Retomando.
A noção de hierarquia é algo que, a nossos ouvidos de hoje em dia, pode provocar uma resistência imediata: temos, hoje, como valores muito caros, a autonomia individual e a igualdade essencial entre as pessoas. Mas, quando se trata da hierarquia dos anjos, há dois pontos a serem considerados, um que se relaciona ao fato mesmo da gestão do universo por meio dos anjos; o outro se refere à natureza dos anjos como criaturas espirituais. Assim, há uma razão que, digamos, é empírica, e outra que é teológica mesmo:
1. Empiricamente, observando as forças físicas que estariam sob o governo de Deus pelos anjos, notamos que a própria estruturação do universo parece indicar uma rígida ordem hierárquica, na qual as forças superiores (como a gravidade e a força eletromagnética, que, para nós, são forças impessoais, mas para os antigos são o resultado da atuação pessoal, ordenada, livre e amorosa dos anjos, embora, é claro, eles não as chamassem assim nem possuíssem teorias matemáticas sobre elas) influem nas inferiores, mas o contrário não é verdade. Assim, uma plantinha na terra está sujeita a essas forças, mas essas forças, ou mesmo as galáxias distantes, os buracos negros e fenômenos semelhantes não sofrem influência ou modificações por conta do desenvolvimento de uma plantinha aqui. A observação disso pode levar à dedução, adotada por eles, de que os anjos superiores podem iluminar os inferiores, mas o contrário não ocorre. Portanto, se cremos, como acreditavam os antigos, que essas forças são, na verdade, criaturas espirituais executando os planos de Deus, deduziremos que há, aí, uma rígida hierarquia entre elas.
2. A razão teológica está na própria estrutura do ser dos anjos. Diferentemente dos seres humanos, que se multiplicam por corpos materiais animados pela mesma essência humana, e portanto são rigorosamente iguais em dignidade, os anjos são espiritualmente diferentes entre si, de tal modo que cada indivíduo, sendo puro espírito, possui sua própria espécie, com capacidades e dignidade diferente. Ora, isto significa que, neles, a capacidade de inteligir, de querer e de amar não é igual entre os indivíduos. Logo, uma sólida hierarquia decorre naturalmente desses fatores.
Examinemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás nesta questão tão interessante.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás responde com clareza: nunca existe a possibilidade de que um anjo inferior venha a iluminar um anjo superior, isto é, que um anjo inferior transmita para um anjo superior uma informação, uma revelação de Deus ou um conhecimento que o anjo superior não tenha.
De fato, diz Tomás, os graus na hierarquia funcionam, entre os anjos, como a hierarquia das causas entre as coisas materiais. De fato, não há o rompimento da hierarquia das causas, no mundo material, assim como não há o rompimento da hierarquia dos anjos, no mundo espiritual. Do mesmo modo que, no mundo material, por exemplo, os corpos maiores atraem os menores, no mundo espiritual os espíritos mais elevados iluminam os menos elevados. Esta é a ordem natural das coisas.
Ocorre que, no mundo material, tudo está organizado de modo a levar os seres humanos até Deus, que é o fim dos seres humanos. Ora, assim, no mundo material, pode acontecer que a ordem das causas seja rompida, quando isto favorece a obtenção desse fim: seria o equivalente, diz Tomás, àquele caso em que um soldado recebe uma ordem militar diretamente do general, sem passar pelo sargento. Assim, no mundo material, a quebra da hierarquia da causalidade pode acontecer por intervenção direta de Deus, miraculosamente, de modo a favorecer a conversão, a salvação dos seres humanos. Vimos isto nos artigos sétimo e oitavo da questão 105. Isto é, no mundo material, a hierarquia das causas naturais pode ser eventualmente rompida por Deus, de modo miraculoso, se isto for necessário ou conveniente para levar os seres humanos até ele.
Mas a ordem hierárquica dos anjos não é visível para os seres humanos. Assim, nenhuma quebra de hierarquia, entre os anjos, poderia servir para que os seres humanos viessem a ter um conhecimento mais direto da vontade de Deus, ou poderia atrair os seres humanos de algum modo para Deus. A ordem dos anjos não é visível para nós, e portanto não haveria razão para que Deus a rompesse miraculosamente – isto não nos transmitiria nenhuma mensagem salvífica.
Na verdade, ao contrário, qualquer quebra da hierarquia entre os anjos somente seria percebida, pelos seres humanos, como algum tipo de desordem inexplicável na própria estrutura do universo criado, como alguma coisa que não fizesse sentido, escapasse ao logos que rege o universo e o torna capaz de ser objeto de ciência, de conhecimento metódico e de exploração racional. Ou seja, o universo criado por Deus pode ser explorado por nós porque a criação é dotada de sentido, de previsibilidade e ordem, e a hierarquia dos anjos faz parte dessa previsibilidade e ordem, do próprio sentido da criação.
Por isso, não existe a possibilidade de que a ordem hierárquica dos anjos seja quebrada e podemos afirmar com segurança que um anjo inferior jamais ilumina um superior.
3. Encerrando por enquanto.
É claro que não falamos, aqui, de uma hierarquia de puro poder, no sentido maquiavélico, mas de uma hierarquia de serviço e de amor, que, portanto, não se apresenta como opressora ou violadora da liberdade – uma vez que os anjos optam pelo amor, é muito natural que reconheçam seu lugar e estejam felizes com ele. E assim o governo do universo, do qual os anjos são peça fundamental, pode transparecer para nós como harmonia maravilhosa, sentido perfeito, beleza estruturada que encanta nossos cientistas.
Os próprios Santos Anjos percebem a importância e o sentido da sua hierarquia, e a recebem e respeitam. O resultado disso é a maravilhosa ordem pela qual o universo é regido por Deus, ou seja, aquilo que encanta os nossos cientistas, a ordem fantástica da natureza.
No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás a cada um dos argumentos objetores iniciais.
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