1. Introdução.

Eis aqui mais um assunto em que nossa mentalidade contemporânea, individualista e anarquista, difere profundamente da mentalidade clássica e medieval: o valor da ordem e da hierarquia, aceitos livremente por amor. A nós o amor parece ser justamente o contrário da ordem e da hierarquia, da previsibilidade, da constância e da permanência. Para nós, o amor é pura espontaneidade, sentimentos fortes, quebra de rotina e imprevisibilidade – assim, damos pouca importância, ou até desprezamos expressamente, aquilo que torna a vida segura, estável e previsível, como se fosse o contrário do amor – opressão, rotina, prisão, é assim que vemos a estabilidade, a ordem e a hierarquia. Principalmente na esfera espiritual: a nós parece inaceitável que exista uma ordem, querida por Deus, em que alguns exercem funções diversas, e até superiores, a outros.

Lembro de um episódio, em meu local de trabalho, durante a visita do Papa ao Brasil, há alguns anos. Algumas pessoas conversavam no elevador, e uma dizia a outra: “não faz sentido que o Estado brasileiro feche ruas, forneça segurança pública e dê destaque a esse sujeito. O que ele pensa que é?” Ao que o outro respondeu: “acho que ele pensa que é o Papa”.

O debate agora é: será que, na ordem do universo, é sempre o anjo mais elevado que ilumina o menos elevado? Será que não haverá alguma situação em que o inferior ilumine o superior? Será que o anjinho que cuida desta florzinha não teria nada a ensinar ao anjo que cuida, digamos, do sol, ou da galáxia? Será que não seria simplesmente muito arrogante achar que pode haver alguma coisa como “superioridade de perfeição” espiritual? Fazendo uma analogia com o mundo humano, será que não seria injusto imaginar, por exemplo, que Deus pudesse amar mais a Santíssima Virgem Maria do que a mim? Não seria justo dizer que mesmo o menor de todos poderia ter alguma coisa a ensinar, quanto ao amor de Deus, ao maior de todos? O que isto significa, numa visão do universo criado em que a regência das forças universais cabe aos anjos?

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como sabemos, todo artigo da Suma inicia com uma hipótese, quer dizer, uma ideia controvertida, capaz de estimular o debate. No presente caso, a ideia, ou hipótese, polêmica e controvertida, é a de que, aparentemente, no mundo angélico, pode acontecer de que o anjo inferior possa ter alguma coisa a oferecer, intelectualmente, ao anjo superior. Ou seja, a hipótese provocativa é a de que parece que há situações em que o anjo inferior pode iluminar o superior, e portanto a hierarquia espiritual do universo, no plano dos anjos, não é absoluta. Há três argumentos objetores que tentam confirmar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que a hierarquia eclesial, na qual existem graus da ordem e funções diversas a diversos grupos de batizados, como bispos, presbíteros, diáconos e leigos, representa, no mundo humano, uma analogia com a hierarquia celeste, dos anjos, e é por isso que a Bíblia diz que a Jerusalém celeste é “nossa mãe” (Gl 4, 26): a Igreja nasce à semelhança da mãe celeste.

Ora, na hierarquia da Igreja, nada impede que alguém que está num posto mais alto da hierarquia seja iluminado por alguém que está num degrau inferior, como um bispo, ou mesmo o Papa, pode receber exemplos de santidade de um simples e humilde leigo. As Escrituras testemunham isto, por exemplo, na passagem de 1 Coríntios 14, 31: “Todos, um após outro, podeis profetizar, para todos aprenderem e serem todos exortados”; ou seja, um pequenino pode ser agraciado com uma profecia, por parte do Espírito Santo, e essa profecia pode edificar alguém hierarquicamente mais alto, inclusive o próprio Papa.

Ora, se a Igreja é construída à imagem da hierarquia celeste, e se na Igreja o menor pode iluminar o maior, então também na hierarquia dos anjos o anjo inferior pode iluminar o superior, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Além da hierarquia dos anjos, existe uma outra ordem de criaturas, que são as criaturas materiais. Aqui também há uma hierarquia, que começa pelos seres inanimados, passa pelos vegetais, pelos animais irracionais e chega em nós, seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus. Ora, quando nós estudamos a questão 105, artigo 6, vimos que Deus pode atuar fora ou além da ordem das coisas materiais, corpóreas, realizando milagres; assim, por exemplo, vemos, nas Escrituras a narrativa da jumenta de Balaão a profetizar, dando-lhe uma lição de prudência espiritual em Números 22, 28-30.

Ora, se a ordem corporal reflete a espiritual, e se na ordem corporal Deus pode quebrar a hierarquia desse modo, então também na ordem espiritual, dos anjos, pode acontecer que o menor ilumine o maior, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O anjo pode escolher se voltar para algum outro anjo, e isso se dá quando ele fixa a sua atenção naquele com o qual quer se relacionar. Ora, nisto se manifesta a liberdade da vontade do anjo: ele pode, por exemplo, escolher se relacionar com um anjo muito inferior. Assim, pode acontecer que um anjo muito elevado se volte para um anjo muito inferior e o ilumine fortemente, de tal modo que este anjo pequenino adquira a possibilidade de iluminar até mesmo aqueles que estão acima dele. Logo, existe a possibilidade de que um anjo inferior possa iluminar um superior, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita justamente aquele que é considerado a maior autoridade em matéria de anjo: o Pseudo-Dionísio. De fato, esse escritor eclesiástico ensina que há uma lei divina, imutável: que os seres inferiores sejam orientados até Deus pelos superiores. Assim, não existe a possibilidade, no mundo dos anjos, de uma inversão de hierarquia: os superiores sempre iluminarão os inferiores, e não o contrário. Portanto, segundo este argumento contrário, a hipótese inicial está errada.

5. Encerrando.

A hierarquia, no céu, não se fundamenta no poder, na repressão, na superioridade da força ou da violência, mas no amor: reconheço que Deus me ama e que a ordem que ele estabelece é a melhor para mim, reconheço que aquele que está acima de mim ama mais do que eu posso amar, serve com mais intensidade do que eu, e por isso me submeto alegremente a ele. É isto o que Jesus diz em Mateus 20, 26: aqueles que se colocam na posição mais elevada devem ser aqueles que mais servem a todos!

Mas não nos adiantemos: no próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.