1. Voltando para encerrar.
Dizíamos, no final do texto anterior, que as criaturas espirituais se movem no amor, e o amor pressupõe vontades livres. Mas é sempre bom lembrar que, se por um lado, o livre arbítrio é um pressuposto da liberdade, por outro lado a liberdade não se esgota nele. O livre arbítrio é a possibilidade de escolha dentre bens que são, eles próprios, limitados e contingentes, já que, no universo criado, nenhum bem é absoluto.
Mas a liberdade vai além disso; ela é, segundo o Catecismo da Igreja Católica, “uma força de crescimento e de maturação na verdade e na bondade. E atinge a sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança” (CIC § 1731).
A liberdade pressupõe, assim, a inviolabilidade da vontade, porque pressupõe a responsabilidade. Assim, é preciso estabelecer claramente, em nome da própria responsabilidade criatural, que um anjo não pode violar a vontade do outro. Vimos isto no último texto: além da própria criatura inteligente, somente Deus, bem universal e criador da própria vontade da criatura, pode penetrar nela e dirigi-la “desde dentro”; mas a experiência nos mostra que isto acontece poucas vezes e de modo respeitoso com a liberdade que o amor exige.
Estudemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, neste artigo.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento usa uma citação do Pseudo-Dionísio, grande autoridade com relação ao assunto dos anjos. De fato, esta mesma citação foi usada no artigo anterior. Ela nos ensina que assim como um anjo ilumina outro [intelectualmente], também o purifica e aperfeiçoa. Ora, prossegue o argumento, purificação e aperfeiçoamento dizem respeito à vontade, que pode ser maculada pela culpa e o pecado, desviando-se do fim adequado por um discernimento equivocado. Ora, tudo isto está relacionado com a vontade e não apenas com o intelecto. Logo, um anjo superior pode dirigir diretamente a vontade de um anjo inferior, movendo-a, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na verdade, quando se fala, aqui, de purificação e de aperfeiçoamento, não devemos entender apenas uma referência à vontade – também existe a purificação e o aperfeiçoamento do intelecto. De fato, quando Deus age sobre a criatura inteligente, concedendo a Sua graça e encaminhando-a ao bem, Ele pode aperfeiçoar tanto o intelecto da criatura quanto sua vontade mesma, purificando a criatura de seus defeitos e a dirigindo ao seu fim, que é a perfeição. Deus tem plena atuação, quer no intelecto, quer na vontade de suas criaturas – sempre respeitando aquilo que Ele mesmo criou, que é a liberdade de amar.
Mas os anjos, em sua relação recíproca, não podem violar a vontade uns dos outros, de modo que, como vimos no artigo anterior, eles iluminam precisamente o intelecto do outro, purificando-o de suas ignorâncias e aperfeiçoando-o quanto à sua finalidade, que é o conhecimento da verdade. Portanto, não se pode compreender a citação do Pseudo-Dionísio acima transcrita como se fosse algum reconhecimento de que um anjo pode se imiscuir na própria vontade do outro, violando-a e alterando-a diretamente. Mas um anjo mais elevado ilumina apenas a inteligência do outro, como ensina o próprio Pseudo- Dionísio, ao afirmar que nas hierarquias celestes, a iluminação se dá na própria essência dos sujeitos da iluminação, trazendo-lhes aquilo que lhes é desconhecido, de modo a levá-los a um conhecimento mais perfeito.” Fazendo uma analogia entre os nossos olhos e a inteligência dos anjos, diríamos que, quando acendemos uma luz na plena escuridão, isto equivaleria a uma purificação do nosso olhar, tornando-o capaz de enxergar ali onde não via nada. Quando a luz se espalha e torna as próprias coisas visíveis, isto equivaleria a uma iluminação, ao nos capacitar a ver aquilo que nos estava oculto. E, por fim, quando nossos olhos se dirigem às coisas que foram iluminadas e as examina, chegando efetivamente a identificá-las, isto seria equivalente ao aperfeiçoamento da nossa visão. Assim, é neste sentido, de modo analógico, que estes termos são usados para designar os modos pelos quais um anjo se relaciona intelectualmente com o outro que lhe é inferior. Não há, pois, aqui, nenhuma relação com algum suposto poder de um anjo sobre a vontade do outro.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor também cita o Pseudo-Dionísio, que ensina que “os nomes dos anjos indicam suas capacidades”. Ora, há anjos que são chamados de serafins, nome que significa aquele que abrasa, que aquece. Aquecer ou abrasar, prossegue o argumento, significa, espiritualmente, intensificar o amor. Mas o amor está na vontade. Assim, um anjo pode entrar diretamente na vontade de outro e modificá-la, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, os serafins abrasam de amor, e podem persuadir outros anjos ao amor; mas não podem forçá-los nem violar suas vontades, apenas influenciar, como já foi dito na resposta sintetizadora, no último texto.
O terceiro argumento objetor.
Na obra filosófica Sobre a Alma, Aristóteles diz que o apetite superior move o inferior. Ora, a vontade é o apetite da inteligência. Logo, um anjo superior pode mover diretamente a vontade do anjo inferior, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aristóteles está falado, neste trecho citado, da ordem interna da alma humana, na qual os apetites sensoriais, como a fome ou a atração sexual, devem ser dirigidos pela vontade, que é o apetite do intelecto; os apetites sensoriais não podem ter o comando incondicionado da pessoa. Mas isto se dá no interior da mesma alma humana, e não na relação entre os anjos, mesmo entre aqueles de diferentes graus de perfeição. A citação de Aristóteles foi, portanto, descontextualizada e deturpada, no argumento objetor que está sendo respondido.
3. Concluindo.
A liberdade não se esgota no poder de escolher indiferentemente dentre as realidades criadas; ela se dirige ao fim, isto é, ao bem absoluto que é o seu objeto, e que está em Deus. Liberdade é a capacidade de atingir o próprio fim. Assim, somente Deus é absolutamente livre, e aqueles que estão Nele adquirem a liberdade – apesar de não terem mais o arbítrio de escolher mal. Mas a má escolha, que caracteriza o livre arbítrio, não liberta – muito ao contrário, ela conduz para longe da liberdade. Isto não é difícil de notar: aqueles que, por exemplo, no uso do livre arbítrio, escolhem viciar-se em alguma substância que causa dependência, usam o livre arbítrio para perder a liberdade. Neste exemplo tão simples percebemos a diferença entre o livre arbítrio e a liberdade.
Mas ninguém alcança Deus, o bem supremo, o amor completo, se não o fizer voluntariamente, ou seja, se não usar a vontade própria para chegar até ele. Daí a importância de ressaltar que um anjo não pode simplesmente penetrar na vontade de outro, impondo a ele uma escolha que não respeita sua autonomia. O universo criado é regido pelo amor e pela liberdade, e implica, consequentemente, a responsabilidade das criaturas inteligentes. É esta a conclusão a que chegamos, aqui.
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