1. Retomando.

Para muitos povos anteriores ao cristianismo, o mundo estava recheado de deuses; todas as forças naturais que não podiam explicar eram colocadas na categoria dos deuses. Mesmo na visão dos primeiros filósofos, “tudo está cheio de deuses”, como reza uma frase atribuída a Tales de Mileto.

Com o cristianismo, o mundo, de certo modo, se torna menos divino, menos distante do ser humano: a criação é criatural, se podemos dizer assim, e Deus é outro, que está presente, que intervém, que governa, mas não se confunde com as forças e relações da natureza. Mas isto não significa uma despersonalização da criação: estas forças que os antigos consideravam divinas, os primeiros cristãos apontaram como angelicais: portanto, são pessoais, embora puramente espirituais e grandemente superiores, em natureza, ao espírito humano.

Assim, esta visão do universo como regido por Deus por intermédio de suas criaturas espirituais, os anjos e nós próprios, criaturas capazes de aderir livremente ao amor e escolher o bem, é muito rica – talvez muito mais do que a nossa, ou seja, a visão cientificista de leis cegas e do acaso como explicação da estrutura fundamental do universo.

Estudemos, dentro deste espírito, a resposta sintetizadora de Tomás ao tema que está em debate neste artigo.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A influência dos anjos na vontade dos outros anjos.

O tema da influência de Deus na vontade das criaturas inteligentes foi debatido na questão 105, artigo 4, que nós estudamos em três textos, aqui, aqui e aqui. Vimos, ali, que a vontade da criatura pode ser movida de duas maneiras: 1) Pelo objeto desejado, isto é, por aquilo que eu identifico como bom e por isso eu passo a querer, ou 2) Pelo sujeito que possui a capacidade de querer.

Na primeira hipótese, quando a vontade é movida pelo objeto, isto ocorre porque ela identifica, naquele objeto, algum bem, e se inclina para ele. Assim, o objeto move a vontade; como também a move aquele que mostra o objeto ao sujeito. Por exemplo, quando um médico me prescreve uma medicação que melhorará minha saúde e reduzirá meus sofrimentos, a minha vontade passa a querer aquele medicamento por causa das orientações do médico, ainda que eu jamais tenha visto, anteriormente, aqueles medicamentos, ou que eu nem saiba exatamente como funciona. Neste caso, o medicamento move minha vontade como objeto, e o médico também influi sobre ela, como alguém que me mostra o bem do objeto.

Objetivamente, apenas o bem universal pode mover infalivelmente qualquer vontade.

Ora, todos os bens criados são finitos, concretos, individuais. Mas nossa vontade tem, como objeto próprio, o bem universal: é fácil notar isto, quando percebemos, por exemplo, que nada, no universo criatural, pode saciar a vontade da criatura, ainda que o sujeito tenha uma quantidade enorme de aptidões, de bens, poder e dinheiro. Assim, somente um bem universal, aquilo que fosse perfeitamente bom sob todos os pontos de vista, e pudesse satisfazer simultaneamente todas as nossas aptidões, desejos, inclinações e tendências, poderia mover infalivelmente nossa vontade: perante um bem deste tipo, não teríamos escolha senão nos inclinar a ele. Assim, nenhum bem criatural retira nossa capacidade de escolha – podemos sempre rejeitar qualquer bem particular, por mais impressionantemente bom que seja; mas o bem universal, absoluto, completo e infinito, ou seja, o bem que só existe em Deus, moveria infalivelmente nossa vontade, sem possibilidade de recusa.

De modo semelhante, alguém que nos mostra um bem finito, seja ele o maior bem que possa existir, pode somente influir, mas não determinar nossa vontade. Mas Deus, ao se revelar como bem infinito, determina, no melhor sentido, a nossa vontade, movendo-a até ele mesmo. É o que as Escrituras nos ensinam, por exemplo, no trecho de Êxodo 33, 18-19, em que Moisés dialoga com Deus. “Moisés disse: ‘Mostrai-me vossa glória’. E Deus respondeu: ‘Vou fazer passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome de Javé. Dou a minha graça a quem quero, e uso de misericórdia com quem me apraz”. Este trecho da Bíblia mostra que a vontade de Moisés é movida por Deus como pelo objeto e como por quem mostra ao sujeito o objeto. Mas nenhum anjo é universalmente bom, e nenhum anjo pode revelar diretamente a outra criatura a essência da bondade infinita de Deus. Logo, nenhum anjo pode determinar a vontade de outra criatura, nem como objeto de desejo, nem pela exposição de algum objeto. No máximo, o anjo pode influenciar, pode persuadir, mas nunca pode intervir na própria vontade do outro, anulando-a ou substituindo-a.

Somente Deus, ao mostrar-se, pode determinar necessariamente a vontade da criatura, e isto porque a bondade de Deus é irresistível, porque é infinitamente boa.Assim, quem vê Deus face a face não quer escolher outra coisa.

Movendo a vontade alheia na sua dimensão subjetiva.

Subjetivamente, apenas a própria pessoa tem o poder de mover livremente sua vontade para este ou aquele objeto, por um ato interno de decisão. Ou seja, outra criatura não pode, não tem a capacidade, para dirigir a vontade alheia, anulando a liberdade do outro. Em suma, um anjo não pode possuir outro, dominar sua vontade e passar a dirigi-la como que a partir de dentro.

Não podemos, no entanto, nos esquecer do poder que Deus tem de intervir na pessoa e mover diretamente sua vontade: Deus criou os seres inteligentes como dotados de liberdade, deu a eles a própria vontade, como uma capacidade interna; logo, Deus pode mover aquilo que Ele próprio criou. Há testemunhos disto nas Escrituras, como, por exemplo, em Êxodo 10, 27: “Mas o Senhor Deus endureceu o coração de Faraó, e este não quis deixá-los partir”. Temos que lembrar, porém, que esta é uma situação presumivelmente rara, e que Deus não intervém ordinariamente deste modo na liberdade das suas criaturas, porque isto retiraria a respectiva responsabilidade criatural.

Portanto, um anjo não pode se imiscuir na subjetividade do outro, anulando a vontade e mudando-a irresistivelmente; mais uma vez, ele pode apenas influenciar, persuadir ou outro anjo, mas não mover diretamente a vontade daquele.

3. Concluindo.

As criaturas espirituais se movem no amor. E o amor pressupõe vontades livres: “a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte”, ensina a Dignitatis Humanae, 1 (Vaticano II). Para isto, precisamos conceber a visão de um universo no qual a diferença moral seja um dado natural: existe naturalmente a diferença entre o bem e o mal, e os seres livres são atraídos pelo bem espontaneamente. Fazemos o bem – como o fazem os Santos Anjos – não porque Deus o ordena de modo autoritário, nem para cumprir a lei, mas porque o bem atrai.

Assim, a prática do bem, num universo criado por Deus que é amor, pressupõe a capacidade criatural de reconhecê-lo e aderir a ele livremente. Assim, repugnaria à bondade divina que a vontade de suas criaturas pudesse ser simplesmente anulada ou sobrepujada por forças alheias, ainda que hierarquicamente superiores; ou que a escolha perversa não fosse uma possibilidade real, ainda que irracional.

Note-se que não estamos tratando-, aqui, do mistério das possessões demoníacas que ocorrem sobre determinados seres humanos – neste caso, está em jogo o pecado original, que nos submete, de certa forma, ao demônio, e normalmente existe algum tipo de atitude, de escolha da pessoa humana, que abre as portas para o demônio em sua vida. Oportunamente, espero, teremos a oportunidade de falar mais sobre isto.

O mistério do mal está presente no universo criado – todos nós o sabemos – mas ele só se apresenta ali onde o fundamento é o amor. A liberdade da criatura, sua dignidade mesma, pressupõe sempre a possibilidade do inferno.

Um inverso que fosse construído como um mecanismo desprovido de espírito seria indiferente para o bem e o mal, que só surgiria como convenção, nunca como diferença moral natural. Por isto é muito difícil para nossas mentes, hoje em dia, compreender como o universo possa ser inteiramente regido por Deus por intermédio de suas criaturas inteligentes, e não de simples leis naturais impessoais.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.