1. Introdução.

Vimos, no último artigo, a maneira maravilhosa pela qual os anjos trocam conhecimentos, pela iluminação, de modo que o anjo mais elevado, mais perfeito, pode aumentar a capacidade intelectual do anjo inferior e, além disso, compartilhar com ele informações ou noções que ele seria incapaz de alcançar sozinho.

O debate, agora, é a respeito da vontade dos anjos. Será que, de modo análogo àquele pelo qual os anjos podem alterar a própria capacidade intelectual dos outros anjos, eles poderiam também alterar a própria vontade do outro anjo? Será que um anjo mais elevado seria capaz de determinar a vontade do menos elevado, alterando-a diretamente, pelo simples fato de ser mais elevado, mais perfeito, mais poderoso? Um anjo mais elevado é capaz de mover a própria vontade do anjo inferior? Será que esta estrutura angélica hierárquica é estruturada de um modo determinista, de tal modo que os anjos não sejam realmente livres em suas missões?

Examinemos, então, o debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, aqui, é a de que a estrutura hierárquica dos anjos está organizada de tal modo que um anjo superior, além de iluminar a inteligência do anjo inferior, pode também mover diretamente sua vontade – isto é, pode modificar diretamente o querer do inferior, que, no fundo, não teria livre arbítrio quando o superior atuasse sobre ele. Ou seja, nossa hipótese inicial propõe que o anjo superior pode mover diretamente a vontade do inferior. Existem três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor traz a autoridade de uma citação do Pseudo-Dionísio, certamente uma grande autoridade, quanto aos anjos. Em sua obra, ele afirma que assim como um anjo ilumina o outro, ele também o purifica e aperfeiçoa. De fato, esta mesma citação gerou o argumento sed contra do artigo anterior, no qual ficou comprovado que um anjo, de fato, ilumina o outro.

Ora, no trecho citado, o Pseudo-Dionísio não faz menção apenas à iluminação intelectual, mas também se refere à purificação e ao aperfeiçoamento. Ora, a purificação diz respeito à retificação da vontade que se inclina à sordidez do pecado, e o aperfeiçoamento, à busca do fim adequado. Portanto, tanto a purificação quanto o aperfeiçoamento dizem respeito ao direcionamento da vontade, não da inteligência. Logo, um anjo pode determinar a vontade do outro, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Ainda citando o Pseudo-Dionísio, o argumento lembra que este grande mestre ensinava que os nomes dos anjos designam suas propriedades. Assim, por exemplo, aqueles anjos que são chamados de serafins recebem este nome porque a palavra serafim quer dizer aquele que abrasa, que aquece. Ora, abrasar ou aquecer significa justamente encher a vontade com o amor. Assim, o próprio nome indica que os anjos podem atuar diretamente sobre a vontade dos outros, por exemplo, enchendo-o de amor. Assim, os anjos superiores podem agir diretamente sobre a vontade dos inferiores, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Aristóteles, na sua obra sobre a alma (De Anima), ensina que o apetite superior pode controlar o inferior. Ora, o anjo superior pode agir sobre o intelecto do anjo inferior. Logo, também pode controlar o apetite do intelecto, que é a vontade. Portanto, o anjo superior pode atuar sobre a vontade do outro diretamente, mudando-a, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra lembra o conceito de justificação; justificação, teologicamente falando, é o ato de retificar a vontade da criatura, tornando-a conforme a vontade de Deus. Ora, somente Deus pode justificar uma criatura, retificando sua vontade – caso em que Ele age diretamente sobre essa mesma vontade. Então apenas Deus pode agir diretamente sobre as vontades das criaturas, e não outros anjos, ainda que superiores e mais perfeitos.

5. Encerrando.

Esta discussão é muito interessante, ainda hoje. De fato, se Deus governa a criação por meio dos anjos, como é a visão de Tomás, da teologia antiga e da filosofia clássica, então o universo é um espaço de amor e liberdade, regida por mentes espirituais que o conduzem no sentido da vontade de Deus porque o amam e estão convencidos de que esta é a melhor coisa a fazer. Muito diferente, por exemplo, da visão cientificista que predominou durante muito tempo, de que o Universo é regido impessoalmente por forças cegas e deterministas – é célebre a frase do matemático Laplace, que afirmava que, se conseguíssemos saber exatamente a posição e a velocidade de cada partícula do universo, seríamos capazes de prever o que aconteceria em seguida – para ele, o livre arbítrio era apenas uma ilusão e o universo, uma grande e rígida máquina mecânica. Semelhantemente, num universo em que os anjos fossem controlados pelos superiores o determinismo seria inevitável.

Sabemos que hoje, depois do desenvolvimento da física quântica, a ciência, embora continue com o paradigma da impessoalidade da condução do universo, já não crê no determinismo dessas forças. Mas, ainda assim, o universo é visto como um amontoado de forças cegas que se movem por fenômenos apenas estatisticamente previsíveis (ou seja, seria possível que a minha mão atravessasse uma parede rígida, mas isto seria estatisticamente tão improvável que, na prática, é impossível, dizem eles). O fato é que há um grau de imprevisibilidade nos fenômenos físicos, dentro da visão da física quântica, que pode ser compatível com a liberdade da relação entre os anjos, como vistos pela tradição antiga.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.