1. Retomando.

O universo está constituído de um modo profundamente relacional e hierárquico: as coisas não são átomos (no sentido grego da palavra), ou seja, não existem de modo isolado umas das outras. A estrutura de governo que Deus providenciou para o universo é constituída por uma hierarquia de inteligências que troca informações a cada momento, que se ilumina e se fortalece reciprocamente para conduzir todas as coisas.

O prólogo do Livro do Apocalipse demonstra bem a estrutura hierárquica de iluminação sucessiva do inferior pelo superior, de interdependência sucessiva na compreensão das coisas de Deus – ali onde o universo é visto como revelação natural e a vontade de Deus para nós, como revelação positiva. Trata-se de Ap 1, 1-3: “Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João, o qual atesta, como Palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo o que viu. Feliz o leitor e os ouvintes se observarem as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo”.

Aqui, trata-se não de um conhecimento descoberto, adquirido pelo esforço do exame sensorial da natureza, mas da vontade de Deus que ultrapassa toda a capacidade da inteligência criada, mas que a inteligência criada deve conhecer e cumprir. Deus a revela em Jesus, que se vale de seu anjo para revelá-la a João – que, por seu turno, a descreve para nós. Cada mestre sucessivo recebe, como discípulo, a mensagem adaptada à sua própria condição, e a transmite, como missionário, aos discípulos que lhe estão abaixo nessa ordem maravilhosa. Discípulos e missionários: isto não é simplesmente um slogan eclesial, mas um modo de ser da criação, pelo qual Deus mesmo a governa.

Estudemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais deste artigo tão interessante.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Jeremias 31, 34: “Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: ‘aprende a conhecer o Senhor’, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos”. Ora, instruir é o mesmo que iluminar com as verdades divinas, ou seja, uma vez que alcancemos a glória eterna da visão beatífica, todos terão acesso a deus e ninguém precisará mais iluminar ninguém. Mas os anjos já alcançaram a visão beatífica no momento mesmo em que optaram por Deus, ou seja, já gozam da visão de Deus pela eternidade. Logo, não precisam mais que um ilumine o outro, pois todos o conhecem diretamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que, feita aquela opção inicial que separou os Santos Anjos, por um lado, de Lúcifer e seus demônios, por outro, todos os Santos Anjos estão na presença de Deus e podem ver diretamente a Sua face. Então, com relação a Deus mesmo, a Sua essência maravilhosa, de fato se aplica a profecia de Jeremias, e nenhum dos Santos Anjos, qualquer que seja o seu grau na hierarquia celeste, precisa da iluminação de outro anjo. Todos são igualmente santos, todos são igualmente felizes. É uma bela forma de contemplar a vida desses mensageiros maravilhosos de Deus que regem, sob Suas ordens divinas, o universo criado.

Mas, quanto à vontade positiva de Deus a cada momento, quanto à condução que, por meio dos anjos, Ele exerce no Universo, é claro que há um grau diverso de penetração, dentre os anjos. Deus, é claro, conhece suas próprias decisões e decretos como ninguém, porque estão Nele mesmo. Aqueles anjos mais elevados, mais perfeitos, conhecem mais profundamente esta vontade positiva de Deus, porque podem compreendê-la de modo mais imediato, mais complexo, mais aprofundado. Assim, ele pode iluminar aquele anjo menos penetrante, menos perfeito, a respeito daqueles aspectos da vontade de Deus que o anjo inferior não alcança completamente. Podemos imaginar o seguinte: aqueles anjos que cuidam, por exemplo, do desenvolvimento das pequenas flores na Terra recebem sua iluminação daquele anjo que cuida das relações do Sol com a Terra – é claro que esta é uma comparação imperfeita, mas ajuda a compreender a concretude dessa hierarquia: é claro que um anjo relacionado com o Sol pode influir e iluminar um anjo responsável por uma plantinha, mas o contrário não é verdadeiro.

O segundo argumento objetor.

Os anjos, diz o argumento, têm três “luzes”: a luz da natureza, isto é, seus poderes naturais de intelecto e vontade, com os quais são criados; a luz da graça, isto é, aquela ajuda que Deus lhes concede para que possam entrar em relação com Deus e optar por ele, entrando na santidade final, e finalmente a luz da glória, quando, ajudados pela graça, optam por Deus e entram na contemplação beatífica. Ora, a primeira luz, a natura, eles a recebe de Deus quando são criados. Assim como a luz da graça, que vem de Deus mesmo para capacitá-los a uma relação pessoal com Deus. E finalmente a luz da glória eterna, que nada mais é senão a contemplação de Deus em Sua essência maravilhosa.

Portanto, toda luz que há nos anjos vem de Deus, e não de outros anjos, deduz o argumento. E conclui: assim, um anjo não ilumina outro de nenhum modo.

A resposta de Tomás.

Quando falamos da relação intelectual entre os anjos, ou seja, quando dizemos que “um anjo ilumina outro”, não estamos nos referindo nem à luz natural, ou seja, a tudo aquilo que está no intelecto do anjo em razão de sua criação mesma, nem à luz da graça, isto é, àquela iluminação que o leva a entrar em relação com Deus, nem à luz da glória, ou seja, da contemplação de Deus reservada aos Santos Anjos. Estamos falando daquela relação que permite que um anjo mais elevado possa ajudar um anjo menos elevado a penetrar em algum mistério ou em algum aspecto do conhecimento que ele não pode discernir por si, aumentando sua capacidade individual pela relação com o outro, quanto à verdade que ele precisa conhecer mas não alcança por suas próprias forças naturais, sozinho. Uma relação que ajuda a expandir os limites naturais dos anjos.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que chamamos de “luz” àquele aperfeiçoamento da mente, a formação do intelecto. Mas a formação do intelecto, de acordo com o próprio Santo Agostinho, é algo que procede apenas do próprio Deus, sem intermediação de nenhuma criatura. Assim, não cabe a nenhum anjo, por mais alto e perfeito que seja, iluminar outro anjo, mas somente Deus ilumina os intelectos de modo a formá-los, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Normalmente, quando um problema apresenta uma dificuldade, é porque não fizemos uma análise adequada dos termos e conceitos que estamos usando. Aqui, a dificuldade vem da noção de “formação”, que pode ser ambígua. A palavra “formação” pode se referir ao fato de que Deus cria diretamente os espíritos inteligentes: a inteligência e a vontade nunca surgem, em nenhuma criatura, por qualquer processo de geração natural, como a reprodução. No caso dos anjos isto é muito evidente: os anjos não se reproduzem. Todos e cada um deles, desde Lúcifer e seus demônios até os Santos Anjos, foi criado direta e separadamente por Deus. Também no caso dos seres humanos, embora de fato possamos procriar, a nossa alma espiritual, intelectual, não a recebemos de nossos pais, mas Deus a cria direta e individualmente para cada ser humano que surge. É este o sentido, por exemplo, da fala de Eva em Gênesis 4, 1: “Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim, e disse: ‘gerei um homem com a ajuda do Senhor’”. A interpretação clássica é a de que esta “ajuda” de Deus consiste justamente na formação, por criação direta, da alma espiritual inteligente. Assim, diz Tomás, se usamos a palavra formação como significando a origem e a essência da inteligência da criatura, então entendemos a citação de Santo Agostinho corretamente: cada intelecto criatural, cada espírito, é formado diretamente por Deus à sua imagem e semelhança.

Mas há um outro sentido para a palavra “formação”, que é o sentido de enriquecimento intelectual, de aperfeiçoamento sucessivo do intelecto. É neste sentido que dizemos, por exemplo, que uma universidade pode dar uma boa formação a seus estudantes. Este sentido tem a ver, ontologicamente, com o conceito da existência como primeira perfeição do ser, e do aperfeiçoamento das potencialidades como segunda perfeição ou última forma do ser. Neste último sentido, de desenvolvimento das capacidades, o intelecto pode ser formado pela colaboração de outras criaturas, que são nossos mestres. Seriam, para os seres humanos, os professores ou diretores espirituais, por exemplo; no caso dos anjos, são exatamente os anjos mais perfeitos, superiores, que iluminam os inferiores, aperfeiçoando-os intelectualmente.

3. Concluindo.

Os anjos podem se influenciar reciprocamente, por este processo maravilhoso de iluminação das inteligências inferiores pelas superiores.

Mas há, também, um processo de influência sobre as vontades dos anjos. Será que um anjo pode influir diretamente na vontade de outro, alterando seu processo de decisão, de escolha? Os anjos gozam de inviolabilidade em sua liberdade pessoal? É o que debateremos no próximo artigo.