1. Retomando.

É sempre muito complicado tratar de anjos, hoje em dia. Na verdade, há um risco de cair na crendice quanto a eles, ou na adoração new age que os anjos recebem em certos círculos gnósticos contemporâneos, como se fossem uma população de gente bonita com asinhas de galinha nas costas ajudando as pessoas bacanas e positivas… Nada mais distante da realidade. Os anjos são criaturas puramente espirituais, inteligências livres pessoais, cuja capacidade supera muito a nossa própria.

O debate, aqui, é a respeito da relação entre essas criaturas, no governo divino do universo. Mais especificamente, quanto ao modo pelo qual trocam conhecimento entre si, informam-se mutuamente, enriquecem os respectivos intelectos pelo contato espiritual. Também estudaremos a relação entre suas vontades, mas isto será objeto do próximo artigo. No momento, o debate diz respeito às suas inteligências.

Temos que lembrar que os anjos, diferentemente dos humanos, não aprendem, nem têm aquilo que conhecemos como memória concreta, experimental, que temos. A memória concreta humana é ligada ao corpo, como percebemos naquelas patologias em que ela se perde em razão de alguma alteração corporal, como a demência ou o mal de Alzheimer. Os anjos não armazenam dados sensoriais concretos, porque não possuem nem órgãos dos sentidos, nem células cerebrais de memória. Deste modo, a relação entre eles, trocando conhecimentos e iluminação, é essencial para que desempenhem suas tarefas próprias.

Vimos, então, que a hipótese inicial propõe que esta relação de iluminação intelectual entre os anjos não existe, e os três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. Vimos a autoridade do Pseudo-Dionísio apontando para a existência desse processo de iluminação entre os anjos, com sua hierarquia característica. Estudaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Iluminar é tornar visível a verdade.

Não existe dúvida, diz Tomás, de que um anjo, que tem uma penetração intelectual mais profunda, pode iluminar um anjo inferior, influindo no intelecto deste. E o que significa exatamente o termo “iluminar”?

Segundo as Escrituras, iluminar é tornar a verdade evidente a um intelecto (Efésios 5, 13). Aqui, precisamos destacar dois pontos:

1. A luz torna evidente aquilo que ela ilumina. Imaginemos uma sala escura, à noite. O ser humano é incapaz de ver as coisas que estão nela. Mas,s e acendemos uma lâmpada, as coisas se tornam manifestas. A luz ilumina a verdade que está na sala, tornando-a visível aos nossos olhos. Assim, quando dizemos que um anjo superior ilumina o outro, estamos querendo dizer que o anjo superior pode tornar evidente para o anjo inferior uma determinada verdade que, embora esteja já em seu espírito, não podia ser compreendida por ele em toda a sua extensão, como a lâmpada torna visíveis as coisas que estão naquela sala.

2. Isto nos leva a uma outra questão: os anjos não são capazes de explorar o mundo para aprender. Quando são criados, recebem de Deus toda a informação intelectual que lhes cabe, e não aprendem mais. Mas, dentro da hierarquia dos anjos, cada um tem um nível próprio de informação e penetração, porque não há dois anjos da mesma espécie. Ora, uma vez que os anjos não podem aprender, explorar, adquirir novos conhecimentos, então esta relação entre eles, que permite que um deles, de inteligência mais penetrante, possa iluminar a inteligência daquele menos capaz, supre as lacunas intelectuais dos anjos mais inferiores e estabelece entre eles uma grande relação de interdependência.

Mais uma vez, Tomás cita São Paulo, que, na mesma Carta aos Efésios (3, 8-9), mostra que a Comunhão dos Santos tem uma relação análoga de iluminação entre os seres humanos, e nesta relação o próprio São Paulo, sem ter pesquisado ou aprendido por conta própria, mas tendo recebido de Deus a iluminação da fé, deve, por sua vez, iluminar os irmãos: “A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus”. Ora, este conhecimento, que Paulo não adquiriu naturalmente, ele o transmite aos irmãos, iluminando-os. Assim, analogamente, os anjos mais elevados, que receberam de Deus uma luz intelectual mais forte, devem servir aos menos elevados, iluminando-os para que possam ver aquilo que, isoladamente, não podem alcançar. É neste sentido que o Pseudo-Dionísio nos diz, tratando da hierarquia celeste, que a santa teologia demonstra claramente que as ordens inferiores dos intelectos angelicais recebem das ordens superiores o conhecimento daquilo que está na mente divina.

A intelecção dos seres humanos e dos anjos.

A intelecção, em qualquer criatura inteligente, depende de dois elementos:

1) A capacidade intelectual, por um lado, como o lado do sujeito do conhecimento, e 2) A existência da informação da coisa conhecida (species) no interior desse mesmo intelecto, ou seja, o objeto do conhecimento.

Podemos dizer, portanto, que o conhecimento tem um lado subjetivo, ou seja, a capacidade do sujeito que conhece, e um lado objetivo, ou seja, a disponibilidade da informação a ser adquirida.

Pensemos, por exemplo, em alguém que se depara com um livro totalmente escrito em javanês, língua que ele não domina. Ora, por mais que haja informações neste livro, falta àquele sujeito a capacidade intelectual para assimilar aquelas informações. Por outro lado, pensemos em alguém que, embora dotado de um intelecto penetrante, nunca teve oportunidade de estudar, digamos, um pequeno roedor de Madagascar, do qual nunca teve notícia. A capacidade intelectual está presente, mas falta o objeto do pensamento, que é a species, a informação sobre a coisa a ser pensada.

Dentre os seres humanos, temos inteligências semelhantes – embora haja variações na configuração corporal, inclusive patológicas, como certas desordens psiquiátricas ou neurológicas, que podem influir diretamente na capacidade de cada intelecto humano para aprender, espiritualmente somos todos da mesma espécie, com a mesma dotação intelectual.

Com os anjos não é assim: cada um deles tem uma capacidade intelectual diversa, porque não há dois anjos da mesma espécie.

Diferentemente dos anjos, é próprio do ser humano nascer com um intelecto vazio e ir adquirindo os conhecimentos na medida que entra em contato com o mundo – as informações adquiridas por contato material ficam armazenadas em nossa memória cerebral, corporal, e são progressivamente processadas pelo intelecto ativo, que as inscreve como informações intelectuais no intelecto passivo, que vai se aperfeiçoando progressivamente pela vida afora.

Por outro lado, os anjos, não têm sentidos ou memória cerebral para expandir seus conhecimentos (lado subjetivo do conhecimento), e, quando são criados, já recebem no intelecto toda a informação intelectual de que precisarão e de que são capazes – isto é, já dispõem da informação objetiva.

Como os anjos iluminam uns aos outros.

Assim, os anjos superiores iluminam os inferiores de duas maneiras:

1. Uma vez que têm uma inteligência naturalmente mais penetrante do que a dos anjos inferiores, os superiores, ao entrar em contato com os inferiores, expandem a capacidade destes últimos: como um carvão em brasa transmite seu calor aos outros carvões frios que estão ao seu lado, o contato com o anjo superior como que aviva a capacidade intelectual do inferior. Assim, a relação do anjo superior com o inferior aumenta a própria capacidade intelectual subjetiva do anjo inferior.

2. Pela transmissão das informações sobre o objeto de conhecimento. Ou seja, o anjo superior transmite a species do conhecimento ao anjo inferior, fazendo-o receber e compreender aquilo que, antes, não conseguia decifrar, ou não sabia mesmo, mas que está na inteligência do anjo superior. Neste caso, o anjo superior transmite ao inferior aquela verdade de um modo adaptado à inteligência mais limitada do inferior, como um professor humano explica a matéria de um modo adaptado às limitações do aluno.

Temos que lembrar que os anjos recebem de Deus, ao serem criados, todas as razões de que precisam para a sua própria capacidade intelectual. Diferentemente dos humanos, que pertencem todos à mesma espécie, e portanto têm a mesma dignidade e a mesma capacidade (inata, mediada pelas condições corporais que diferem), os anjos são, cada um, de uma espécie diferente, de modo que uns recebem de Deus razões mais completas e mais profundas que os outros. Assim, como ensina o Pseudo-Dionísio, citado aqui por Tomás, “os anjos se iluminam pelas razões daquilo que existe”, isto é, alcançando a verdade, o que só lhes é possível pela relação hierárquica.

3. Encerrando.

Muito a aprender, aqui, quanto à própria constituição hierárquica e relacional do universo, e sobre educação humana, também. Deus não quis um universo impessoal no qual os seres humanos fossem a única criatura inteligente, e cuja relação com Deus fosse individualista. Não somos as únicas, nem as principais, inteligências na criação, e não estamos uns isolados dos outros – precisamos da troca de informações e, principalmente, precisamos da luz da graça que nos vem de Deus e nos ilumina, como ilumina os anjos, e que só nos chega de modo relacional.

É claro que existe, para todas as criaturas, uma relação pessoal e imediata com Deus, por Jesus; mas esta relação nunca é individualista, nem exclui a relacionalidade – esta não é opcional nem acidental, mas substancial, tanto na criação quanto na Trindade mesma.