1. Introdução.
Já estudamos, de modo geral, a relação de Deus com sua criação, no exercício do seu governo. Agora, estudaremos longamente a atuação dos anjos na gestão do universo. De fato, o universo, na visão de Tomás, é densamente povoado por estes seres inteligentes e espirituais que o administram sob a supervisão de Deus. Aquilo que olhamos, hoje, como leis naturais impessoais, a filosofia e a teologia clássicas olhavam como atuação de seres inteligentes – ou seja, a regularidade do funcionamento do universo era, para eles, a marca da pessoalidade, enquanto para nós [e justamente o contrário: parece demonstrar impessoalidade.
De fato, se olhamos para fenômenos como a gravidade, pensamos logo numa lei impessoal que rege as coisas, em função de sua massa. Mas se olhamos um grafito ou uma inscrição irregular numa caverna antiga, pensamos numa atuação de algum ser pessoal. Para os antigos, porém, a irregularidade seria uma marca de uma inteligência pouco desenvolvida, enquanto a regularidade seria a marca das inteligências poderosas. Neste sentido, por exemplo, vemos que os reis tinham uma vida regular: horário para dormir e acordar, para atender os súditos, responsabilidade com os casamentos e a família, obrigações com o exército. Os escravos, por outro lado, eram pouco importantes, e por isso não era necessário, por exemplo, que se preocupassem com o matrimônio ou com obrigações com terceiros. O casamento do rei era uma questão de Estado, mas a sexualidade dos escravos era muito pouco importante. Quão distante esta mentalidade está da nossa!
Assim, viviam num universo vibrante, vivo, administrado por seres espirituais e inteligentes, capazes de zelar de tudo com tremenda regularidade. Nós, por outro lado, vivemos num universo impessoal, triste, desabitado e nos perguntamos por qual razão as únicas criaturas inteligentes das quais sabemos somos nós mesmos. Apontamos grandes telescópios para o universo, na tentativa de encontrar vida fora do planeta, algo além de pedras ressequidas e leis impessoais.
Para os antigos, o universo inteiro fervilhava de vida inteligente. Não era difícil para eles entender, por exemplo, como Jesus podia dar uma ordem ao vento e fazê-lo acalmar-se: as forças que regem o vento eram inteligentes, pensavam eles. Capazes de entender e cumprir as ordens divinas. Mas, ao contrário do universo mágico dos povos pagãos, nos quais as forças naturais pareciam arbitrárias e adversárias a nós, no universo clássico da filosofia grega e dos primeiros cristãos os anjos estariam submetidos a Deus, de tal modo que, na prática, seria de esperar que agissem com regularidade e coordenação na direção do bem comum. É uma visão muito interessante. Temos muito o que aprender com eles.
Precisamos lembrar que os anjos são inteligências personalizadas, com poder sobre a matéria. Assim, os anjos se distinguem um do outro pela penetração da sua inteligência, de tal modo que os anjos muito elevados têm uma penetração muito maior do que aqueles mais simples. Isto também faz sentido com a visão do universo como conduzido por inteligências espirituais: é inegável que os grandes movimentos, as grandes leis do universo, como a gravitação e o eletromagnetismo, exercem influência sobre os fenômenos menores, como os biológicos e químicos. Neste sentido, podemos entender a importância de debater se os anjos mais elevados podem iluminar os inferiores: trata-se de reconhecer que os fenômenos mais elevados estão intrincadamente relacionados e influem nos menos elevados, dentro daquilo que o Papa Francisco, na recente carta Laudate Deum, chama de “inter-relação da criação na Casa Comum”.
Vamos começar este grande exame do governo do mundo a partir dessas forças inteligentes e regulares. No presente artigo, o que está em jogo é a relação de comunicação inteligente entre os próprios anjos: será que eles são capazes de trocar informações e conhecimentos entre si?
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é que não existe esta comunicação, esta troca de informações entre os anjos, que permite que um anjo mais elevado, com uma inteligência mais profunda e aguda, ilumine outro com algum discernimento, com algum conhecimento que está além da capacidade daquele último. Ou seja, o que está em jogo é justamente esta capacidade que estes seres supostamente têm de formar uma grande rede de interações que sustenta o universo, tornando todas as forças motoras interdependentes entre si. A hipótese, então, nega que esta relação de troca de conhecimentos e de experiências possa existir entre os anjos, vale dizer, nega que eles possam se iluminar reciprocamente, de tal modo que aquele mais elevado pudesse orientar aquele menos elevado. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Os santos anjos já fizeram sua opção definitiva por Deus, a quem já podem ver em essência; vale dizer, os anjos estão na glória, na visão beatífica. Nós, seres humanos, seremos admitidos à mesma visão beatífica se morrermos na graça de Deus; Ocorre que as Escrituras ensinam que, na visão beatífica “ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: ‘Aprende a conhecer o Senhor’, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos” (Jeremias 31, 34). Assim, se entre os seres humanos que estão na glória não há a possibilidade de que um ilumine o outro, tampouco para os santos anjos essa possibilidade existe, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento nos ensina que há três níveis em que se pode dizer que um anjo é iluminado, ou aperfeiçoado: como natureza, ele foi iluminado quando foi criado, momento em que Deus aperfeiçoou sua essência e o fez existir, com toda a sua capacidade espiritual natural. Depois, foi iluminado pela luz da graça, que estabeleceu a amizade entre ele e Deus. Por fim, aqueles anjos que, pela graça, escolheram a glória de Deus, foram iluminados por ela, quer dizer, pela felicidade eterna da glória de Deus. Portanto, nos três graus de iluminação, os anjos são iluminados por sua relação com Deus, não pelos outros anjos, ainda que mais perfeitos ou elevados, conclui o segundo argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor explica que quando falamos em iluminação, estamos nos referindo à luz que forma a inteligência, que aperfeiçoa a mente. Ora, prossegue o argumento, o próprio Santo Agostinho nos ensina que é apenas Deus que ilumina com a perfeição do conhecimento as mentes racionais. Logo, um anjo não pode iluminar outro, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra é aquele que vê razões fortes, sempre lastreadas em alguma autoridade reconhecida (Escrituras, Padres da Igreja, filósofos ou teólogos respeitados) para não admitir a hipótese inicial, contrariando os argumentos objetores iniciais.
No presente caso, o argumento sed contra traz uma citação do Pseudo-Dionísio, que é uma autoridade no assunto dos anjos. De fato, ele afirma que “os anjos das hierarquias segundas são iluminados pelos anjos de primeira hierarquia”. Ou seja, de fato, aquelas inteligências espirituais e personificadas que regem a amplitude do universo são capazes de informar e iluminar aquelas responsáveis por tarefas menos amplas, dotadas de uma visão mais estreita, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Por mais que esta discussão sobre os anjos pareça distante ou pouco importante para nós, ela faz parte de uma visão de mundo que, durante milênios, manteve uma relação com a natureza muito mais saudável, muito mais respeitosa do que temos hoje. Enxergar o universo como regido por inteligências espirituais profundas, submetidas a Deus, fez bem ao meio ambiente. Enxergar o universo como um mecanismo de forças impessoais, um amontoado de rochas inanimadas que circulam sob leis inflexíveis, esperando a dominação do ser humano, causou as consequências que vemos hoje.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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