1. Introdução.
Importante debate. Chama a nossa atenção para o fato de que nem toda intervenção de Deus sobre a natureza tem o mesmo significado ou a mesma importância. De fato, os milagres existem porque somos incapazes de perceber a atuação de Deus sobre a natureza; mas eles não são o centro da nossa fé. Não é no inusitado, no maravilhoso, no espantoso, mas na brisa suave, que Deus nos fala, como nos lembra a passagem de Elias em 1 Reis 19, 12.
Também aqui é necessário discernimento. Na vida espiritual há sutilezas que só um coração amadurecido nas coisas de Deus pode perceber: por isso precisamos de Tomás. Nele, juntam-se o profundo teólogo, o intelectual culto e o místico sensível. E ele pode nos ensinar a discernir a nossa relação com Deus, e diferenciar a profundidade de Suas intervenções na natureza e, principalmente, em nossas vidas. Deus não age sempre igual: ele é pessoa, e tem a liberdade de amar como quer, amar diferentemente cada coisa e cada um e expressar esse amor como quiser.
Mas estamos nos alongando. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
Nós já sabemos que todos os artigos da Suma iniciam com uma hipótese provocadora, de modo a estimular os debates. Esta hipótese, também já sabemos, normalmente é refutada ou bem alterada pelas conclusões finais de Tomás.
No caso presente, a hipótese controvertida propõe que todo milagre traz em si o mesmo grau de importância, de relevância, sendo impossível estabelecer graus entre eles. Assim, um milagre nunca é maior do que outro, propõe essa hipótese, para nos provocar. Há dois argumentos iniciais que tentarão justificar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que numa carta afirma: “em tudo aquilo que é miraculoso, devemos procurar a razão daquilo que é feito na potência daquele que o faz”, isto é, deve-se buscar a dimensão do milagre na potência de Deus. Mas a potência de Deus é sempre infinita; Assim, uma vez que a razão é sempre a potência infinita de Deus, não há como dizer que um milagre é maior que outro, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O poder de Deus é sempre infinito. Mas não há proporção entre o que é infinito e o que é finito. Uma vez que o milagre sempre envolve causar espanto e admiração em nós, essa admiração não decorre do milagre em si, mas da contemplação de que há um poder infinito agindo ali. Por isso, o que importa, no milagre, não é contemplar sua dimensão, mas chegar à contemplação do poder infinito do amor de Deus. Logo, não se pode dizer que um milagre é maior que outro, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, que busca refutar a hipótese inicial, lembra-nos que o próprio Jesus, quando menciona suas obras miraculosas, diz que “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas” (João 14, 12). Ora, se Jesus menciona a possibilidade de obras maiores que as dele, isto significa que há uma gradação entre os milagres, e podemos classificá-los em milagres maiores e menores, conclui o argumento.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Quando falamos em milagres, não estamos nos referindo ao próprio poder divino, mas aos acontecimentos que revelam a intervenção direta de Deus na natureza. De fato, com relação ao poder divino, aquelas coisas que nos parecem espantosas, maravilhosas, são ínfimas em proporção à onipotência de Deus; como dizem as Escrituras (Isaías 40, 15): “As nações são para ele apenas uma gota de água num balde, um grão de areia na balança; as ilhas não pesam mais que o pó”.
Assim, não é em comparação com Deus que nós julgamos os milagres, mas em comparação com as capacidades próprias da natureza, ou seja, ele é tão mais espantoso e maravilhoso quanto mais ultrapassar as capacidades da natureza criada. É preciso ter isto em mente, principalmente para nós, pessoas que vivem oitocentos anos depois de Tomás, e que muitas vezes somos incapazes de discernir a verdadeira maravilha da atuação de Deus na natureza. Estamos, pois, aqui, recebendo uma verdadeira educação para a contemplação das coisas de Deus.
Ora, diz Tomás. Há três maneiras pelas quais um acontecimento maravilhoso, ou seja, um milagre, pode exceder as capacidades naturais das coisas nas quais ele ocorre:
1) Quando esse fato maravilhoso excede as capacidades da natureza em sua substância mesma, ou seja, quando se trata de um fato que a natureza não poderia realizar por nenhum modo. Estão nesta categoria aqueles milagres que envolvem a bilocação (um corpo ocupa dois lugares na natureza ao mesmo tempo), a alteração do curso dos astros (o sol retrocede, por exemplo), ou a glorificação do corpo humano, como no caso de Jesus e de Nossa Senhora – um corpo humano, pelas forças naturais, se encaminha sempre à dissolução pela morte, não à glorificação; não há nenhum tipo de corpo glorioso natural. Assim, diz Tomás, estes milagres são os mais elevados, os mais impressionantes, os mais importantes, diz Tomás.
2) O fato maravilhoso pode ultrapassar as capacidades da natureza não de modo substancial, mas apenas relativamente àquela coisa na qual ele acontece. Assim, é de se esperar que um corpo humano seja vivo; mas um cadáver já não tem a vida nem a capacidade de voltar a ela. Assim, a reanimação de um cadáver, seu ressuscitamento, é um milagre deste tipo. Outro exemplo seria aquele da recuperação da visão num cego congênito: de fato, é próprio do ser humano enxergar, mas um cego congênito tem uma condição particular que não o habilita a tanto. Assim, se um milagre faz com que ele recupere a vista, trata-se de algo que não ultrapassa as capacidades da natureza em geral, mas apenas as capacidades particulares daquele indivíduo. Este tipo de milagre, portanto, ocupa um grau intermediário entre os milagres.
3) Um terceiro tipo de fato maravilhoso é aquele que ultrapassa a capacidade da natureza apenas com relação à maneira e a ocasião pela qual acontece, mas não ultrapassa nem a capacidade da natureza em geral, nem as capacidades individuais do sujeito que recebe o milagre. Estão nesta categoria, por exemplo, aquelas curas que, embora tenham se manifestado como miraculosas por serem súbitas e inexplicáveis, não estão fora da capacidade de cura da natureza. Assim, quando Jesus ameaça a febre da sogra de Pedro, realiza um milagre, porque a febre não se cura por meio de palavras de ameaça a ela, mas pelo tempo e pelo cuidado com a saúde do doente. Também quando a oração de Elias provoca chuva há um milagre desta ordem: a chuva pode vir naturalmente, e portanto não é algo que supere as capacidades da natureza. Mas quando vem em resposta à oração de Elias (1 Reis 18, 44) é um fato miraculoso. Embora este tipo de milagre seja, de fato, do tipo menor dentre os milagres.
Portanto, podemos classificar os milagres quanto à natureza daquilo em que ele incide. Sempre lembrando que o centro do milagre nunca é causar maravilhamento ou espanto, mas demonstrar a relação real entre o amor de Deus e suas criaturas.
6. Concluindo.
Tomás não acha necessário, após oferecer sua resposta sintetizadora, voltar aos argumentos objetores iniciais. Ele já respondeu, com relação ao primeiro argumento (aquele que diz que todo milagre é igual porque a capacidade de quem o realiza, que é o próprio Deus, é sempre infinita) , que não se trata de comparar o poder de Deus, mas a capacidade da natureza que recebe a ação divina. Quanto ao segundo argumento, que diz que todo milagre é igual, porque tem por objetivo nos levar à contemplação do poder de Deus, que é sempre infinito, Tomás nos ensina a notar que há uma hierarquia de valor nas coisas criadas, e é com relação a esta hierarquia que classificamos os milagres. Não é a mesma coisa quando Deus glorifica um corpo ressuscitado ou quando faz cair chuva em resposta a um profeta.
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