1. Retomando.

Oda vez que Deus faz alguma intervenção, algo fora ou além da ordem natural inscrita nas próprias coisas, pode-se dizer que há um milagre? É isto que está em debate. De fato, os argumentos iniciais trazem algumas hipóteses em que, mesmo havendo uma intervenção extraordinária de Deus, aparentemente não poderíamos chamá-la de miraculosa.

Examinemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás e as respostas dele aos argumentos iniciais.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A primeira coisa que Tomás examina é a própria origem da palavra milagre. Na sua origem, ela designa algo maravilhoso ou assombroso; aquilo que causa admiração. A admiração ou espanto surgem quando nos deparamos com efeitos evidentes, dos quais não conseguimos descobrir as respectivas causas. É por isso que um povo primitivo podia se maravilhar, por exemplo, com um eclipse solar, do qual não conheciam as causas, mas o mesmo fenômeno não nos assombra do mesmo modo, porque não é milagroso para nós, com os conhecimentos astronômicos que temos hoje.

Assim, a rigor, chamamos de milagre àquilo que nos causa admiração ou espanto por não poder ser explicado a partir de causas naturais, por via científica; ou seja, aquilo cuja causa é o obrar de Deus, que está acima e além da nossa capacidade de ciência, por vias naturais. Em suma, milagre é aquilo que Deus faz fora ou além das causas que podemos conhecer.

É preciso, aqui, fazer uma distinção sutil, que Tomás fará nas respostas aos argumentos objetores iniciais, que examinaremos adiante: o milagre é um efeito de ordem natural, causado por uma ação sobrenatural. Neste sentido, os efeitos sobrenaturais das ações sobrenaturais não são, a rigor, milagres. Por exemplo, a graça santificante, que nos habilita ao mérito no plano sobrenatural, não é, a rigor, algo miraculoso, mas uma verdadeira elevação da nossa natureza ao plano da vida sobrenatural.

Com este conceito em mente, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que nos darão uma visão mais completa desta distinção.

3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que fatos como a criação do mundo e das almas e a justificação dos pecadores não são eventos da ordem natural. Portanto, podem ser considerados como atuações de Deus fora ou além da ordem natural inscrita nas criaturas. Estes fatos não decorrem de nenhuma causa natural. Mas não os chamamos de milagres: nenhuma dessas três coisas são tidas como milagres por nós. Assim, nem tudo que Deus faz fora ou além da ordem da natureza pode ser considerado como milagre, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A criação de todas as coisas ou a justificação dos pecadores são ações privativas de Deus; de fato, apenas Deus, em Sua maravilhosa onipotência, pode criar a partir do nada, ou pode perdoar o pecado e justificar o pecador. Mas não podemos chamar essas ações divinas de milagres no sentido estrito da palavra, porque os milagres, por definição, são efeitos gerados por modificações na ordem natural pela atuação divina. Ora, a criação não é uma modificação da ordem natural, porque a ordem natural não existia antes da criação. Assim, a criação não pode ser chamada de milagre. Quanto ao perdão e à justificação, relacionam-se à amizade sobrenatural com Deus, e portanto tampouco consistem em modificações na ordem natural; na verdade, são modificações na ordem sobrenatural. Esses resultados não pertencem à ordem natural, e por isso não são chamados de milagres.

O segundo argumento objetor.

Santo Agostinho costumava conceituar o milagre como algo árduo e não usual, superior às capacidades da natureza e às expectativas de quem o contempla.

Mas há coisas que são feitas por Deus de um modo que supera a ordem da natureza, mas que não são árduas, como os milagres de purificação de fontes de água em 2 Reis 2, 19-22, tampouco são não usuais, como as pessoas que se colocavam à sombra de São Pedro para serem curadas (Atos 5, 15); há, mesmo, casos de curas que não podem ser declaradas como superiores às forças da natureza, como a febre da sogra de Pedro (Marcos 1, 31), já que, em alguns casos de febre, pode haver a cura natural espontânea; nem superam as expectativas de quem contempla, como no caso da ressurreição dos mortos, que faz parte da esperança teologal cristã ordinária. Assim, de acordo com o conceito de Santo Agostinho, nem tudo aquilo que ocorre por atuação de Deus fora ou além da ordem da natureza pode ser chamado de milagre, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

Quando se diz que o milagre envolve algo árduo, isto não significa que o milagre sempre envolve coisas raras, complicadas ou inusitadas; mas porque envolve algo que os elementos envolvidos não podem alcançar por seus poderes naturais. É o caso de um milagre realizado com sal e água, como aquele realizado por Eliseu em 2 Reis 2.

Quando se diz que ele é algo não usual, ou insólito, não por envolver sempre algo surpreendente ou incomum, mas porque ocorre de uma maneira infrequente ou inesperada, sem relação natural entre causa e efeito. É o caso das curas daqueles que recebiam a sombra de Pedro, ou da cura milagrosa de uma simples febre por uma ordem verbal de Jesus. Por fim, podemos dizer que o milagre supera a expectativa da natureza, como no caso da ressurreição dos mortos, porque os mortos não revivem naturalmente. Mas isto não significa que o milagre deve superar a esperança teologal, porque a esperança já envolve a expectativa de uma intervenção direta e sobrenatural de Deus em nosso favor. Portanto, o fato de que a ressurreição dos mortos esteja dentro da nossa esperança teologal não retira dela a característica de ser milagre.

O terceiro argumento objetor.

A palavra milagre surge, em sua origem, da ideia de admiração ou espanto. Ora, o espanto e a admiração só podem surgir daquilo que pode ser percebido sensivelmente por nós. Mas há atuações divinas fora da ordem natural que não podem ser sensivelmente percebidas por nós, porque são modificações internas em outras pessoas, que não provocam fenômenos perceptíveis externamente. Assim, por exemplo, em Pentecostes Deus concedeu o dom da ciência infusa aos Apóstolos, fazendo com que eles passassem a ter conhecimentos que não adquiriram de modo natural, como a capacidade de falar em línguas estranhas que não estudaram. Mas ninguém seria capaz de perceber que eles adquiriram estas habilidades, e portanto ninguém ficaria admirado ou maravilhado com isso. Logo, nem toda atuação de Deus fora ou além da ordem natural pode ser chamada de milagre, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, o conhecimento infundido pelo Espírito Santo não era algo que, em si mesmo, fosse perceptível pelas outras pessoas. Mas o resultado dessa infusão, como a capacidade de falar línguas diferentes ou de dar respostas profundas sobre assuntos sobre os quais não estudaram, era evidente para todos, e maravilhava àqueles que tomavam conhecimento e testemunhavam essas manifestações. Assim, essa admiração e espanto aconteciam, tornando o evento miraculoso sob todos os critérios.

4. Concluindo.

Quão numerosos são os milagres de Deus, e passam muitas vezes despercebidos por nós. Não deixam de ser milagre por isto.