1. Voltando para encerrar.

Deus criou um universo que se relaciona profundamente com Ele: Ele o pensou e concebeu, Ele o dinamiza e sustenta, Ele o encaminha para o bem, que é Ele mesmo. Assim, as coisas criadas, por um lado, têm uma natureza, obedecem a leis e são, de fato, sujeito de relação e autoras de efeitos. Mas as leis da natureza não se impõem ao próprio Deus: Ele é livre para conduzir as coisas ao bem, com amor e misericórdia, e as únicas leis que se impõem a Deus são aquelas que dizem que Ele não pode ser contraditório com Ele mesmo. Assim, Deus não pode deixar de ser onipotente, onisciente, existente e bom. Nem pode fazer com que as criaturas virem Deus. No mais, Ele é livre para respeitar ou não as leis da natureza e as capacidades naturais das coisas, conforme Ele determine o caminho mais adequado para levar as coisas ao bem comum do universo, que é Ele mesmo. Vimos tudo isto nos textos anteriores. Agora examinaremos de novo os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor toma uma citação da obra “Contra Fausto”, de Santo Agostinho, que é citada três vezes neste artigo. De fato, esta primeira citação é isolada e descontextualizada: ele retira da obra a afirmação de Santo Agostinho de que “Deus, como criador da natureza, nunca faz nada contra a natureza”. Desta citação, o argumento conclui que Deus jamais pode agir contra a natureza; as leis da natureza não podem ser desconsideradas por Deus e se impõem até a ele, conclui.

A resposta de Tomás.

Ocorrem coisas fora da ordem estabelecida pela natureza para as coisas, e isto pode se dar por duas razões:

1. Por ação direta de algum sujeito, como ocorre quando o ser humano aplica sua inteligência ou sua força para realizar coisas que vencem as forças naturais. O simples ato de atirar uma pedra para o alto estaria classificado aqui: de fato, quando colocamos nossa força para atirar a pedra, ela realiza um movimento que, por alguns instantes, vence a força da gravidade e faz com que a pedra, mesmo pesada, movimente-se para longe da terra, de modo contrário à força da gravidade. Há, aqui, a atuação deliberada de um agente para alterar aquilo que seria a inclinação natural das coisas.

2. Num segundo caso, a própria disposição da natureza parece contraditória; vê-se, por exemplo, na atuação das marés, quando a água parece contrariar a gravidade e a lei da conservação, subindo de nível e descendo ao longo do dia. Mas, neste caso, não existe, a rigor, uma contrariedade à lei da natureza, mas a atuação de leis mais elevadas que não tínhamos percebido no início. No caso das marés, existe o influxo do movimento da Terra e da gravidade da lua, que provocam a alteração do nível da maré nos oceanos. Portanto, trata-se de constatar que há mais capacidades e forças em jogo do que aquelas que são perceptíveis num primeiro momento, mas não há, aqui, verdadeiramente, nenhuma violação ou contrariedade às próprias leis naturais.

De certo modo, a atuação de Deus sobre a natureza guarda um pouco destes dois modos. Em primeiro lugar, ele é um agente livre, capaz de atuar de tal modo a fazer com que as coisas não obedeçam às suas inclinações naturais, de maneira análoga àquela pela qual nós atiramos a pedra para cima. E, em segundo lugar, uma vez que foi ele quem estabeleceu as próprias leis naturais e as inclinações das coisas, a sua atuação manifesta aspectos da própria natureza que podem ter passado desapercebidos por nós. Assim, quando Deus atua, apenas aparentemente as leis estão sendo rompidas. Na prática, porém, como diz o próprio Santo Agostinho na obra citada, é natural qualquer coisa que o autor de todas as coisas, de todas as leis, de toda a ordem natural, faz com a natureza que ele próprio criou.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que Deus é o autor da justiça, que é a ordem do que é devido. Ora, Deus nunca age contra a justiça, isto é, ele é essencialmente justo. Ora, ele é também o autor da natureza e suas leis e inclinações. Logo, de modo análogo àquele pelo qual ele nunca age contra a justiça, pode-se concluir que ele tampouco age contra a natureza das coisas, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

A ordem da justiça, assim como a ordem da bondade e do amor, não são ordens que Deus criou, mas aquilo que ele mesmo é. Deus não pode agir contra aquilo que ele é, porque Deus não é contraditório.

Mas a ordem da natureza não é algo que Deus é, mas algo que Deus fez. Assim, as leis da natureza, as relações entre as coisas criadas e suas inclinações estão na ordem das causas segundas, que não podem se impor a Deus, mas, ao contrário, dependem dele para existir. Assim, não há contradição quando Deus intervém na natureza, mesmo contra leis e inclinações naturais.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que Deus, que é perfeito, onipotente e imutável, foi o autor e criador da própria ordem natural e das inclinações intrínsecas das coisas. Ora, se Deus tivesse que intervir a qualquer momento para mudar aquilo que ele mesmo criou, teríamos que imaginar que Deus muda de ideia com relação às coisas que criou. Mas Deus, sendo perfeito e imutável, não muda de ideia, nem precisa corrigir o que faz, aduz o argumento. Assim, Deus não intervém para atuar contra as leis naturais ou as inclinações das coisas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O universo não foi criado como uma máquina, um mecanismo determinista que funcionasse como um relógio, sem espaço para alguma finalidade externa a ele mesmo, nem qualquer relação permanente com o criador. Não. O universo é dotado de uma relação essencial, vital, dinamizadora, com Deus, que o criou, que o conduz e que é o próprio fim a que o universo se dirige, sendo Ele mesmo o sumo bem. Assim, Deus criou o universo como algo aberto, dinâmico, relacional, e capaz de receber a providência divina sem perder a consistência criada. Assim, a intervenção de Deus na natureza não contradiz a criação, nem representa alguma mudança de ideia ou imperfeição em Deus; trata-se, na verdade, da realização do Seu plano maravilhoso para a criação.

3. Conclusão.

Deus dirige sua criação, assiste aquilo que criou, intervém na sua dinâmica, eventualmente age suspendendo ou contrariando as leis naturais. Mas será que, ao agir assim, Deus está sempre realizando milagres?

Este é o assunto do próximo artigo.