1. Introdução.

Mais uma discussão interessantíssima para estabelecer a verdade da relação de Deus com a criação. Será que as chamadas “leis da natureza” se impõem mesmo contra Deus? Será que ele pode fazer alguma coisa fora dessas leis, que para nós são tão rígidas? Em suma, trataremos do significado verdadeiro da noção de “natureza”, da aplicação das chamadas leis da natureza e nos prepararemos para a questão dos milagres, que será aprofundada no próximo artigo.

Aqui, estamos diante de um dilema: se Deus é um artesão perfeito, ele não pode ter construído uma natureza provisória, que precise de consertos seus a cada momento. Mas, por outro lado, a natureza não é um mecanismo cego feito para trabalhar sem sentido; natureza é um termo que, na sua significação clássica, significa “aquilo que é determinado a um só fim”. Quando falamos, por exemplo, que a natureza do fogo é queimar, dizemos que ele está determinado a um só fim, que é a queima. Assim, com esta noção de natureza, podemos prosseguir no debate, lembrando que, no fundo, o conjunto da criação tem, por natureza, sua destinação a Deus, de tal modo que a relação ativa de Deus com a natureza não a viola, mas, ao contrário, possibilita seu fim.

Mas estamos nos alongando. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como sabemos, os artigos da Suma sempre começam com alguma hipótese que não pode ser aceita sem exame, porque oferece uma solução falsa para o problema. Neste caso, a hipótese inicial, para provocar o debate, é justamente a de que a ordem natural é fechada, é determinante e inflexível, e nem mesmo Deus pode atuar contra ela, ou seja, Deus não pode intervir para alterar a ordem natural das coisas. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

No seu Tratado Contra Fausto, Santo Agostinho nos ensinou que Deus, uma vez que é o criador e instituidor de todas as coisas, nuca age contra a natureza. Ora, tudo o que ele fizesse que rompesse a ordem das capacidades naturais das criaturas seria uma ação contra a natureza. Logo, Deus não faz nada contra a ordem das capacidades naturais das coisas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Deus é o instituidor da própria noção de justiça, no sentido de determinar que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. E Deus nunca age contra a ordem da justiça – Deus nunca é injusto. Ora, ele também é o instituidor da ordem da natureza, pela qual as capacidades das coisas estão inscritas nelas mesmas. Assim, do mesmo modo que Ele nunca é injusto, porque não rompe a ordem da justiça que Ele mesmo instituiu, pode-se afirmar, com certeza, diz o argumento, que ele nunca vai contra a ordem da natureza, porque não violaria a ordem natural que ele mesmo instituiu, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Deus não tem imperfeições, nem incompletudes, nem muda de opinião. Ora, se Deus fizesse coisas fora da ordem natural que ele mesmo instituiu, isto se daria porque ele mudou de ideia com relação a uma ordem que ele mesmo instituiu, ou não foi sábio o suficiente para prever todas as situações em que essa ordem estaria envolvida, de modo a fazê-la perfeita desde o início. Seria como um mau engenheiro que precisasse intervir para corrigir a sua máquina a cada momento. Mas Deus não muda de opinião, nem é um mau projetista. Logo, ele nunca age contra a ordem da natureza das coisas que ele mesmo criou, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra traz sempre alguma razão de autoridade pela qual não podemos simplesmente aceitar a hipótese controvertida inicial, estabelecendo o contraditório no debate e preparando a resposta sintetizadora de Tomás, que resolverá equilibradamente a discussão.

No presente caso, o argumento sed contra busca a autoridade de Santo Agostinho, que já foi citado no primeiro argumento objetor, acima, como respaldo à ideia de que Deus nunca faz nada contra a ordem natural das coisas. Agora, o argumento sed contra vai citar outro trecho da mesma obra já citada, o Tratado contra Fausto, em que Agostinho diz expressamente: “às vezes, Deus faz coisas que são contrárias ao curso normal da natureza”, e, portanto, a hipótese inicial está equivocada, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Deus não se deixa prender por determinismos. Ele não estabeleceu o universo criado como se fosse uma máquina mecânica que se move com perfeição, mas sem finalidade específica. O universo criado é, acima de tudo, uma obra aberta à relação com o próprio criador, que é sua origem, seu sustentador e sua finalidade. Disto tudo sabemos, mas os argumentos iniciais, que provocam o debate, trazem uma posição muito forte contra esta relação, e parecem desenhar um universo fechado à atuação de Deus.

Colocados, pois, os elementos do debate, discutiremos, nos próximos textos, as respostas de Tomás.