1. Retomando.
Existe uma corrente teológica – normalmente em religiões não-cristãs, mas que algumas correntes cristãs também adotaram – que se chama ocasionalismo. Ela diz que, na verdade, quando alguma coisa acontece no universo criatural, é Deus diretamente que está causando. Há apenas a aparência de que as coisas criadas são capazes de operar, mas só Deus, creem estes, é capaz de operar. Assim, quando um vulcão entra em erupção, é Deus quem está operando no vulcão. Quando o automóvel se move, é Deus quem está movendo o automóvel. Os que acreditam nisso, em alguns casos extremos, consideram até como pecado tentar evitar as consequências naturais das coisas: usar cinto de segurança seria um pecado, porque seria tentar fugir das consequências de um acidente de trânsito causado, no fim das contas, por Deus mesmo. É exatamente esta posição que Tomás quer refutar, aqui. Trata-se de defender que, embora Deus seja a razão pela qual as coisas são capazes de ter poder causal, o poder causal das coisas é verdadeiro. Se Deus não estivesse dinamizando o universo, eu não poderia levantar o braço para apanhar aquela caneta: em última instância, é o poder de Deus que me faz ter a capacidade de levantar o braço. Mas quem levanta o braço sou eu mesmo, não é Deus quem age quando eu ajo. É por isso que falamos de causalidade primeira, que é aquela causalidade fundamental que sustenta o dinamismo do universo, e que é própria de Deus, e causalidade segunda, que é a causalidade derivada, mas real, das criaturas.
Mas estamos falando demais. Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta Sintetizadora de Tomás.
O absurdo do ocasionalismo.
Tomás inicia justamente lembrando aqueles que defendem que Deus é quem faz tudo, e que as criaturas na verdade não causam nada, mas apenas dão ocasião para a ação exclusiva e direta de Deus (ocasionalismo). Assim, se uma pedra cai, isto não tem nada a ver com gravidade e massa, mas é Deus quem diretamente move a pedra; a gravidade e a massa são apenas as ocasiões para que Deus opere diretamente dizem os defensores deste pensamento. Se, por exemplo, o fogo queima, na verdade é Deus que queima, e o fogo é apenas a ocasião para que Deus, diretamente, provoque a queima, pensam estes. Mas este seria um modo absurdo de pensar, diz Tomás.
Ora, em primeiro lugar, diz Tomás, lembremos que as coisas foram criadas, com todas as suas características e poderes, por Deus. Se negarmos que eles têm a capacidade real de interagir e causar mudanças no mundo, então negamos também que Deus seja onipotente, ou seja, que Ele seja capaz de criar coisas consistentes num universo real.
Em segundo lugar, as propriedades e características das coisas seriam meramente ilusórias, falsas mesmas, se nos fornecessem apenas uma aparência de que operam, quando na verdade não operam.
Por fim, as próprias coisas seriam apenas aparentes, irreais, inconsistentes, se as suas operações fossem apenas ilusórias, porque, como diz Tomás, o imperfeito sempre existe por causa do mais perfeito. Sigamos o raciocínio de Tomás aqui. De fato, diz ele, a matéria, como elemento da natureza, é imperfeita ao extremo; ela só existe por causa da forma, que lhe dá perfeição. Ninguém encontra com um pedaço de matéria sem forma, por aí, porque isso não existe: a matéria só tem existência para ser determinada por alguma forma. De modo análogo, as formas só existem para operar, de tal modo que, por exemplo, um leão existe para ser leão, caçar, lutar, reproduzir-se. Um leão que fosse incapaz de operar como leão seria um boneco, um espantalho, um simulacro, um falso leão. Mas Deus não cria coisas falsas: portanto, ele não criaria coisas cuja operação fosse simplesmente ilusória, e que apenas dessem ocasião para que ele próprio agisse em substituição àquela coisa.
A verdadeira causalidade das criaturas.
Para verificar a maneira adequada pela qual as criaturas são realmente capazes de interação e causalidade, e isto não exclui a atuação causal direta e permanente de Deus, sem que haja concorrência entre a causalidade criatural e a causalidade divina, devemos lembrar da teoria das quatro causas, que tem origem em Aristóteles mas foi inteiramente adotada por Tomás.
Dentre as quatro causas, consideremos primeiro a causa material. Trata-se da matéria de que uma coisa é feita: uma estátua de mármore tem no mármore a sua causa material, ao tempo em que uma estátua de bronze tem a causa material no bronze. Ora, diz Tomás, a causa material, ou seja, a matéria de que alguma coisa é feita, não é uma causa que provoque efeitos fora da própria coisa. Na verdade, a matéria é a receptora da atuação das outras causas: o bloco de mármore recebe a ação do escultor para se tornar, digamos, uma estátua de Juscelino Kubitschek.
Restam então as outras três causas como possíveis explicações para a interação entre as criaturas. São elas: a causa final, ou o fim a que se destina a coisa; a causa eficiente e a causa formal. Ainda no exemplo da estátua de mármore, a causa eficiente, que fará com que o bloco se transforme numa estátua, é o escultor. A causa formal, ou seja, a forma da estátua, é a pessoa retratada; no caso, Juscelino Kubitschek. Por fim, a causa final é homenagear este grande presidente falecido, colocando sua estátua em algum ponto turístico. Estas três causas explicam a interação das criaturas e a relação da causalidade criatural com a causalidade de Deus, se conseguimos discernir cuidadosamente a ordem entre as causas.
A causa mais fundamental, a primeira em ordem de importância, é o fim ou finalidade. De fato, se não houvesse a decisão de homenagear o grande Juscelino Kubitschek com uma estátua num ponto turístico, que é a finalidade da própria estátua, ninguém se moveria para produzir a estátua.
Em seguida ao fim, a segunda causa mais importante é a eficiente. De fato, não alcançaríamos o fim de produzir a estátua se não houvesse um escultor. Em terceiro lugar, temos a causa formal: se não houver um retrato, uma pintura, uma memória de como Juscelino se parecia, a estátua jamais adquirirá a forma certa; não servirá, portanto, para homenageá-lo. Em suma, a causa final é a primeira, em segundo lugar está a causa eficiente e, em terceiro, a causa formal. Nestes três casos, vemos que a causalidade imediata, próxima, se explica inteiramente pelas criaturas: elas são verdadeiramente causa material, formal, eficiente e final de tudo o que existe. Mas como fica a causalidade direta e imediata de Deus sobre as criaturas?
A causalidade primeira de Deus.
Com relação a essas três causas (final, eficiente e formal), podemos ver de que modo Deus é a causa das causas, para cada uma delas.
Pensemos na causa final. De fato, as causas finais imediatas estão no mundo criado. Uma semente existe para virar árvore. Voltando ao exemplo da estátua: a causa final imediata de produzi-la é homenagear um grande líder político. Mas, de modo realmente extremo, as causas finais existem em primeiro lugar na mente de Deus: quando vejo, por exemplo, uma semente de milho, não existe, no mundo natural, o pé de milho que esta semente prenuncia. Mas eu sei que o fim desta semente é ser pé de milho, e este pé de milho existe na mente de Deus. A semente dá glória a Deus ao se tornar um belo e produtivo pé de milho. Assim, é claro que, para além das causas finais que existem na mente do artesão humano, há, em Deus, todas as causas finais de todas as coisas. Tudo se move para atingir o fim que está em Deus, e que é Deus mesmo, e, portanto, em última instância, Deus move todas as coisas para si, sem concorrer com o fato de que as coisas se movem para seus próprios fins naturais, como as obras humanas se movem para atingir os fins que estão na mente do artesão. Podemos dizer, pois, que Deus move, como causa final, todas as coisas, diretamente.
Com relação à causa eficiente, há algo análogo. De fato, todas as coisas podem, de acordo com sua natureza, funcionar como causas eficientes de outras coisas. No exemplo acima, vemos que o escultor funciona como causa eficiente da estátua. Mas já vimos, na questão 02 desta parte da Suma, que não pode haver uma regressão infinita em termos de causa eficiente: o escultor se move pela força dos músculos, o músculo se move pela força do alimento, o alimento cresce pela força do sol e do adubo, o adubo vem da digestão de algum animal, e assim por diante. É necessário que haja uma primeira causa eficiente, capaz de sustentar e desencadear todo o processo de causalidade eficiente subsequente. Esta causa eficiente primeira é justamente Deus. Portanto, afinal, Deus está profundamente envolvido com todo o processo de causalidade eficiente que existe na natureza, sustentando-o, possibilitando-o, desencadeando-o.
Por fim, temos a causa formal. É por ter a forma de Juscelino, e não de Napoleão, que a estátua é uma estátua de Juscelino e não de Napoleão. Assim, é a causa formal que dá significado, que dá distinção e que dá a própria funcionalidade à coisa. É por ter a forma de fogo que o fogo queima. É por ter a forma de água que ela é capaz de matar a sede. Ora, todas as formas naturais, substanciais, são a expressão da criatividade de Deus, ou melhor, de sua criação. As coisas têm significado, têm funcionalidades, têm um sentido, um logos, podem ser analisadas cientificamente, justamente porque têm esta ou aquela forma, esta ou aquela estrutura, esta ou aquela species. Não somente Deus concebe e confere as formas substanciais, mas é ele quem lhes dá as respectivas funções e capacidades e dirige sua operação para o respectivo fim, que é a perfeição formal. Neste sentido, podemos dizer que Deus, por ser aquele que concebe as coisas para serem o que são, é mais íntimo às coisas do que elas mesmas. E é ele que, como um maestro primoroso, dirige tudo para o fim comum do universo, que nada nem ninguém pode impedir. Também aqui vemos claramente que Deus age diretamente sobre as coisas, sem concorrer de nenhum modo com a causalidade delas, mas sem ser impedido por elas.
A causa primeira, Deus, age livremente, mas não concorre com as causas segundas.
Deus é o fim, Deus é o conservador e o motivador de todas as operações, Deus é o estruturador da realidade e de todas as coisas. E para explicar a maravilha dessa atuação divina, Tomás nos dá uma analogia: As coisas existem na noite, mas não são visíveis para nós. A luz do sol não as impede de serem o que são, nem as faz mais do que são, mas as torna visíveis para nós. Do mesmo modo, é a causalidade divina, a causalidade primeira, que, sem impedir a causalidade segunda nem concorrer com ela, possibilita e torna visível essa causalidade criada, dirigindo-a, ademais, para o bem comum.
3. Encerrando.
Por esta profundidade, por esta intimidade da atuação de Deus, animando e iluminando a causalidade verdadeira do universo criatural, é que as Escrituras podem atribuir ao próprio Deus aquilo que, na verdade, é concretizado pela própria natureza criada. E, para provar, Tomás cita Jó 10, 11, em que o próprio Jó se dirige a Deus, dizendo: “De pele e carne me vestiste, de ossos e nervos me teceste”. Ora, sabemos que isto ocorre pelo processo mesmo da gestação. Mas o que seria este processo natural da gestação sem a força de Deus a sustentá-lo?
Mas este texto acabou ficando muito longo. No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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