1. Introdução.
Há, aqui, uma discussão central sobre a concorrência entre a causalidade de Deus e a causalidade das criaturas. Quando a criatura atua, quando um agente desencadeia alguma consequência, será que é o próprio Deus que gera diretamente a consequência, como pensam algumas correntes religiosas?
De fato, há notícias de que, em alguns grupos religiosos, as pessoas entendem que é Deus quem faz, diretamente, todas as coisas acontecerem. Assim, se alguém lança uma pedra para o alto, na verdade é Deus quem faz a pedra subir e voltar a descer, creem eles. Em determinados grupos religiosos, considera-se como verdadeiro pecado, por exemplo, usar cintos de segurança no carro: é Deus quem causa os acidentes e provoca os efeitos nos ocupantes do veículo, creem eles; logo, usar cinto seria querer impedir a mão de Deus de causar os efeitos que ele quiser, nos integrantes do veículo. Um pecado contra a ação de Deus, pensam eles.
Por outro lado, há quem queira simplesmente deixar Deus de fora do jogo de ocorrências da criação. Pascal criticava Descartes, por exemplo, porque Descartes admitia apenas que Deus tinha feito o universo surgir do nada, mas excluía completamente qualquer atuação de Deus a partir daí. O universo seria um grande mecanismo determinista de forças físicas deslocando massas, e nada mais. Pascal, em seus Pensamentos, dizia: ““Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, prescindir de Deus; mas não pode evitar de fazê-lo dar um piparote para colocar o mundo em movimento; depois disso, não precisa mais de Deus”. O mundo, para aqueles filósofos deterministas ou cientificistas, não tem um fim, não obedece a um plano, não decorre do amor.
Mas sabemos que Deus age, e sabemos que, verdadeiramente, também as criaturas agem.
Como harmonizar o agir onipotente de Deus com o atuar, limitado mas consistente, das criaturas? Será que Deus age em concorrência com as criaturas, de tal modo que, se alguma criatura atua, Deus não o faz? Ou será que, mesmo quando as criaturas atuam, isto é apenas uma ilusão, e no fundo é Deus que atua diretamente?
É o que examinaremos neste artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, para provocar o debate e levar à conclusão, é a de que a atuação das criaturas exclui a atuação de Deus, de tal modo que, quando a criatura atua, Deus se abstém, fica na posição de mero observador e deixa que as coisas funcionem por si mesmas. Deus não precisaria, assim, atuar ordinariamente no universo: ele seria como o relojoeiro que não precisa mais intervir para que o relógio funcione sozinho. Existem três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Nada do que Deus faz é insuficiente, diz o argumento. Ele é perfeito e pleno, então também sempre age de modo perfeito e pleno. Ora, se Deus agisse simultaneamente com a criatura, isto é, se a atuação da criatura não excluísse a atuação de Deus, então a atuação seria toda de Deus e nada da criatura. Imaginemos que alguém atira uma pedra para cima: se disséssemos que Deus de algum modo participa dessa ação de atirar a pedra para cima, ou do comportamento da pedra de voltar à terra pela atração da gravidade, então teríamos que admitir que, como Deus é pleno, perfeito e onipotente, é ele, e não a minha mão, quem atira a pedra para cima, e é ele, e não a relação entre a pedra e a gravidade quem a conduz de volta para o chão. Neste caso, porém toda a atuação da ordem criada seria supérflua, enganadora, apenas aparente, porque, de fato, em tudo seria Deus, e apenas ele, quem opera. Mas as coisas não são assim, propõe o argumento: as coisas criadas operam de verdade. Logo, Deus não concorre de modo algum com a atuação das criaturas, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Um mesmo resultado não pode ser atribuído a dois agentes suficientes simultâneos; assim como um mesmo movimento concreto e localizado não pode ocorrer com dois objetos do mesmo modo. Se é a gravidade que atrai a pedra ao chão, é a gravidade que exerce a atração, e não Deus. Se a pedra cai ao chão atraída pela gravidade, quem cai é a pedra, e não Deus. Ora, se Deus atuasse nestas situações, seria possível, por exemplo, medir, no laboratório, qual a participação da força de Deus sobre as coisas, quantificando, por exemplo, o percentual em que a gravidade age e o percentual pelo qual é Deus que age. O que é, obviamente, absurdo. Logo, não existe nenhuma atuação de Deus simultaneamente com as criaturas, no mundo, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Aquele que age, fazendo alguma coisa, é quem estrutura aquilo que faz de tal maneira que ela possa agir por si mesma, causando seus próprios efeitos. Pensemos, aqui, no engenheiro que projeta um automóvel, e que pensa nos mecanismos que farão o automóvel funcionar, ou no arquiteto que, de antemão, pensa nos mecanismos que estarão na casa que constrói. Ora, é por causa da atuação do engenheiro que a sua criação tem a forma que tem, mas, depois de construída, é a própria coisa criada que opera, e não mais o engenheiro.
De forma análoga, Deus tornou a sua criação perfeita e capaz de operar, no momento da criação, como narrada nos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Ora, depois que as coisas foram plenamente criadas, já não é necessário que Deus opere diretamente aquilo que as próprias coisas podem operar. Assim, a operação de Deus sobre as coisas criadas ocorreu no momento da criação, mas não ocorre mais, conclui este argumento.
4. O argumento sed contra.
Deus opera na criação, e isto não pode ser negado, porque a própria Bíblia nos ensina que ele não é indiferente, nem está distante, nem se recusa a agir no mundo. De fato, em Isaías (26, 12), o Profeta ensina que “na verdade, todas as nossas obras tu as realizas para nós”. Assim, Deus opera, de fato, em tudo o que as criaturas operam, conclui este argumento.
5. Encerrando por enquanto.
Deus age sempre. Quem testemunha isto é o próprio Jesus: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também”, diz ele em João 5, 17. O agir de Deus, ininterrupto, fundante, energizante, não concorre com o agir das criaturas; na verdade, as criaturas agem porque têm como fundamento o agir de Deus. Na linguagem clássica, diríamos que o agir de Deus está em outra ordem, ou seja, na ordem da “causalidade primeira”, ao tempo em que as criaturas estão na “causalidade segunda”.
Mas estamos nos adiantando; isto será matéria para os próximos textos, nos quais examinaremos as respostas de Tomás quanto a este assunto.
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