1. De volta para concluir.
Vimos, no primeiro texto, a hipótese inicial de que Deus não move diretamente as nossas vontades. Examinamos, ali, os argumentos objetores que tentavam comprovar essa hipótese.
Já vimos, no segundo texto, que Deus nos fez como criaturas dotadas de inteligência e vontade, e o primeiro modo pelo qual ele nos move a vontade é porque ele nos fez como capazes de buscar o bem. O mal, como mal, nunca pode mover a nossa vontade. Apenas o bem pode ser objeto de inclinação; o pecado, portanto, não é a busca direta do mal, mas a busca desordenada do bem, que desconsidera Deus.
Ora, uma vez que todo bem que existe na criação é um reflexo da bondade infinita de Deus, então toda busca do bem, mesmo a mais desordenada, é uma busca desordenada por aquilo que, em última instância, está em Deus de modo muito mais intenso e real. Portanto, quando alguém peca, está buscando, na verdade, o bem mais baixo, indireto, limitado, em desprezo ao bem real, completo, total, que é Deus. Todo bem pode ser buscado por nós, desde que respeitada a ordem divina.
E neste ponto chegamos ao segundo modo pelo qual Deus move a nossa vontade: exatamente pelo fato de que ele mesmo é o bem incondicionado, total, infinito, e, portanto, capaz de nos mover incondicionalmente.
Nada disso retira nossa condição de sujeitos dessa vontade que é calibrada para o bem e movida por ele. Deus move a minha vontade, mas a minha vontade é minha e, no fim das contas, sou em que me movo, quando a minha vontade é movida. Tudo isto foi discutido nos dois últimos textos.
Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor afirma que tudo aquilo que é movido externamente, ou seja, que é movido por alguma força externa a si mesmo, sofre violência; move-se por ser forçado, e não livremente. Ora, a vontade não pode ser forçada ou violentada. Mas Deus não é a criatura; portanto, se ele move a vontade da criatura, ele a está forçando ou violentando, o que seria impensável. Logo, a vontade da criatura não é movida por Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando alguma coisa é movida por outra contra a sua inclinação natural, diz Tomás, então ela está sendo forçada de modo violento. Se um leão abocanha uma presa e a arrasta, isto é um movimento forçado, violento. Mas se um pássaro, por exemplo, voa de um galho para outro movido por uma bela fruta que avistou, isto não é um movimento violento, mas um movimento livre, porque a inclinação do pássaro a se alimentar com a fruta é parte de sua natureza. Ora, quando a vontade da criatura é movida por Deus, que é o Bem, cumpre sua natureza de modo pleno, e portanto não é forçada nem sofre violência. Ao contrário.
O segundo argumento objetor.
Nem Deus pode realizar algo que implica uma contradição entre dois termos. Ora, um movimento voluntário consiste exatamente em algo que envolve a espontaneidade e a autoria, ou seja, mover-se voluntariamente consiste naquele movimento que tem sua origem no interior da própria pessoa que se move. Ora, se a vontade for movida por alguma força cuja origem é externa a si mesma, então não há aí voluntariedade, porque não se trata de um movimento espontâneo cuja origem é interna à própria vontade. Logo, Deus não pode, sem contradições, mover a vontade da criatura.
A resposta de Tomás.
Mover-se voluntariamente é ser o próprio princípio do movimento, a partir de dentro. Não há dúvidas quanto a isso: somente um movimento da vontade que nasça em mim mesmo, que me tenha como sujeito, pode ser considerado verdadeiramente como um movimento voluntário. Mas isto não significa que este movimento não possa ser provocado por algum estímulo exterior: quando alguém propõe casamento a outro, a iniciativa da proposição é sua, mas a aceitação, por parte do outro, não é menos voluntária por ser uma resposta a uma iniciativa externa. Assim, não há contradição em admitir que Deus pode mover nossa vontade.
O terceiro argumento objetor.
A atuação, ou seja, o movimento, é sempre atribuído propriamente àquele que o causa, e não àquele que o sofre. Assim, por exemplo, não é o revólver que causa o homicídio, mas aquele que puxa o gatilho e provoca o disparo do projétil. Ora, se é Deus quem “puxa o gatilho” da vontade humana, e se o faz diretamente, então os méritos e deméritos da ação humana não deveriam ser atribuídos ao ser humano, mas a Deus, que seria o causador do movimento da vontade humana, afinal. Mas isto é falso: nós somos agraciados com os méritos de nossas eventuais ações louváveis, assim como somos responsáveis pelos deméritos das que são erradas e lamentáveis. Portanto, Deus não move nossa vontade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando a pessoa é movida desde fora, sem que tenha nenhuma margem de iniciativa ou de reação, de fato ela não pode ser parabenizada ou responsabilizada por sua atividade, porque ela não envolve nenhuma inclinação de vontade. Seria o caso de alguém que, sob a mira de uma arma, entrega seu dinheiro ao criminoso. Mas quando o estímulo exterior, ou mesmo o princípio externo que desencadeia o movimento da vontade não exclui a adesão interna e a inclinação livre da vontade, ela não exclui também os méritos e as punições; assim, por exemplo, um soldado que, movido pelo temor de seu superior, cumpre suas ordens e luta com o inimigo, saindo-se vitorioso, está qualificado para receber as honras pela vitória que conquistou. Portanto, não há nenhum impedimento, aqui, para que Deus possa agir diretamente sobre as vontades criadas.
3. Concluindo.
Deus influi. Deus inclina. Deus atrai. Deus conduz. Em suma, Deus governa. E governa tudo, inclusive a nós, no seu amor, para o qual fomos criados. Podemos aceitar este amor como dom da liberdade e alcançar a felicidade, ou podemos rejeitá-lo e abraçar o nada, por orgulho. Mas isto não nos retira do Reino de Deus. Não há algo como o “lado de fora do Reino”. Tudo está incluído. É isto que se chama céu: acolher o dom e dirigir livremente a própria vontade até ele. E é isto que se chama inferno: contemplar eternamente o amor como alguém que escolheu rejeitá-lo para sempre.
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