1. Retomando.
Talvez neste artigo, que trata da relação entre a vontade humana e o governo divino sobre a criação, fique estabelecido não somente o fundamento da teologia moral, mas principalmente o fundamento da ética filosófica. De fato, podemos nos lembrar que para Tomás – assim como para a Igreja Católica – saber sobre Deus não é algo que vem apenas pela fé, mas pode vir mesmo aos que não a têm, pelo cuidadoso exame, feito pela razão, sobre a realidade – embora poucos o consigam, e mesmo assim, somente após laborioso exame. É o que a Igreja ensina no Catecismo da Igreja Católica, § 36: “A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas”, citando a Constituição Dei Filius, do Concílio Vaticano I. Mas isto, como ensina o parágrafo seguinte do Catecismo, “nas condições históricas em que se encontra, o homem experimenta, no entanto, muitas dificuldades para chegar ao conhecimento de Deus só com as luzes da razão”, dificuldades estas que surgem não somente do fato de que Deus, como objeto de conhecimento e desejo, ultrapassa infinitamente as capacidades humanas, mas também de ordem moral: marcados pelo pecado original, temos a intuição de que o conhecimento de Deus nos interpela à mudança de vida, e por isso facilmente nos persuadimos da falsidade ou, pelo menos, da incerteza das coisas que não desejariam fossem verdadeiras, como ensina Pio XII na Humani Generis, citada também neste parágrafo do Catecismo.
Como vimos na questão 02 desta primeira parte, foi Tomás quem sistematizou de maneira mais completa as vias pelas quais é possível – dados os fenômenos do movimento, da causalidade, da contingência, da perfeição e da finalidade, chegar à intuição de que há Deus, e saber do que estamos tratando, quando nos referimos a ele. Tratamos, pois, da origem que não tem origem, da causa que não tem causa, da perfeição que não tem processo, da permanência que não tem antes, da finalidade que não tem começo.
Postas estas coisas, e sabendo que nossa inteligência criatural está dirigida à verdade universal como objeto, e nossa vontade está dirigida ao bem universal como fim (ora, quem não percebe que nada é capaz de satisfazer o coração humano, quando percebe a ganância dos poderosos, a voracidade dos milionários, a luxúria dos orgiásticos, a curiosidade dos bem informados?). Ora, Deus é a verdade universal e o bem universal. Logo, ele é exatamente a única coisa capaz de fazer repousar na satisfação o nosso intelecto e, é claro, a nossa vontade. Mas ele não está nem ao nosso alcance, nem sob nosso domínio. Deus não se deixa controlar. Ele só se deixa amar.
Por outro lado, não seríamos capazes de buscar a verdade universal como bem do nosso intelecto, ou o bem universal como verdade da nossa vontade, se Deus não nos tivesse criado exatamente para isso: para amá-lo e apenas repousar nele. Como nos diz Santo Agostinho, logo no início de suas Confissões: “fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousa em vós”.
Vejamos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A inteligência e a vontade humanas como busca do universal e do absoluto.
O nosso intelecto, diz Tomás, tem, como objeto próprio, a verdade abstrata e universal, e como campo próprio de trabalho, as criaturas. Para a nossa mente, não basta saber que esta maçã é apetitosa, como sabem os animais. Precisamos descobrir as causas, as origens, os elementos, os fins, precisamos exercer controle sobre os processos. Quando nos deparamos com alguma coisa que nos interpela, não nos saciamos se não buscamos chegar ao conhecimento de suas causas, compreendidas como causas eficientes, materiais, formais e finais. Enfim, mesmo conhecendo toda a ciência sobre as maçãs, por exemplo, isto não satisfaria a inteligência humana: buscamos, na verdade, sempre chegar a causas mais profundas. A abertura do nosso intelecto à verdade somente seria satisfeita se chegasse à verdade completa, universal, sobre todas as coisas, isto é, somente a própria visão intelectual direta de Deus saciaria toda a nossa sede intelectual. É claro que há seres humanos intelectualmente preguiçosos, e não é a estes que me refiro. Refiro-me ao fato de que, mesmo que um grande cientista seja considerado o maior conhecedor do seu ramo da ciência, mesmo assim ele ainda não estaria saciado, e não se saciaria nunca, porque sempre perceberia que aquilo que ignoramos é incomparavelmente maior do que aquilo que sabemos, e sempre estaria consciente de que há ainda mais para saber.
Ocorre algo análogo com a vontade. De fato, a vontade não pode ser simplesmente definida omo o “apetite da inteligência”, como se fosse algo separado ou estanque, na pessoa, com relação Às inclinações sensíveis. Não somos seres divididos interiormente, de tal modo a imaginar que tivéssemos alguma “compulsão sensível”, por exemplo no campo da alimentação, que fosse independente do apetite do intelecto; seria como se o paladar e o olfato nos levasse a comer aquele bolo açucarado e cheio de gordura, enquanto a vontade, guiada pelo intelecto, nos dissesse que “seria melhor escolher uma salada de legumes”. Há, em nós, uma inclinação que é a inclinação de uma criatura inteligente, à qual chamamos de “vontade”, e que inclui e harmoniza (ou, pelo menos, deveria harmonizar) em si os apelos sensoriais e os conhecimentos intelectuais. A essa inclinação integrada chamamos vontade.
Ora, assim como a inteligência humana se abre para a verdade universal, a vontade também não é capaz de se satisfazer com bens particulares: mesmo o ser humano mais rico, mais nobre, mais condecorado, mais reconhecido e mais politicamente (ou economicamente) poderoso, o mais popular e atraente, ainda este não estaria saciado em sua vontade, continuaria perseguindo metas e conquistas novas. Mesmo que alguém possuísse toda a Terra, toda a humanidade como serva pessoal e todo o conhecimento científico, cultural e sapiencial, ainda assim quereria conhecer outros planetas ou conquistar um gesto espontâneo de reconhecimento por parte de alguém.
Não há ser humano vivo que possa declarar estar saciado e não querer nada mais, nem sequer um copo de água fresca para saciar sua eventual sede, porque somente a posse completa, simultânea e infinita do bem universal saciaria e repousaria o ser humano.
Posse completa da verdade universal e do bem universal. Somente isto saciaria o ser humano. E não estamos tratando, aqui, de verdades reveladas, mas de simples constatações da antropologia filosófica.
A vontade, sua capacidade e objeto.
É claro que nossa vontade, entendida como aquela inclinação que nos move em razão dos estímulos sensoriais e intelectuais que recebemos, não se move apenas frente ao bem absoluto e universal. Na verdade, se nos deparássemos, aqui nesta vida, com o bem absoluto e universal, entendido como a satisfação completa e irrestrita de todas as nossas inclinações, desejos, impulsos e decisões, já não haveria nenhuma necessidade de escolha, nem mesmo a possibilidade de escolha. Um bem deste tipo nos atrairia e nos moveria necessariamente, se fosse percebido e compreendido por nós. É neste sentido que dizemos que o bem absoluto representa, por um lado, a realização plena da liberdade (porque nos capacitaria adquirir todas as satisfações, capacidades, conhecimentos e propriedades de uma só vez e de modo irrestrito, de modo que seríamos realmente livres para atingir a plenitude de tudo que poderíamos querer), e, por outro, o fim do livre arbítrio, porque simplesmente não haveria mais o que escolher, senão mover-se para se apossar de tal bem. O bem divino, completo, total, se colocado a nosso alcance, moveria completa e irresistivelmente a nossa vontade, porque a preencheria integralmente. Seria, pois, o motor perfeito da nossa vontade. Em outras palavras, se pudéssemos perceber Deus, inteligi-lo assim como ele é, ele moveria imediatamente, inteiramente e irresistivelmente a nossa vontade. Deus é, portanto, o motor perfeito para mover, como objeto de inclinação, nossa vontade! Aliás, o único objeto capaz de saciá-la propriamente.
Ocorre que todas as coisas criadas são uma participação na perfeição infinita de Deus, e portanto participam, muito limitadamente, da sua bondade infinita. Todas as coisas apresentam uma bondade limitada, circunstancial, contingente, e todos os gestos humanos que se dirigem a essas coisas buscam a bondade que há nelas. Então, no fundo, cada gesto humano busca realizar, ainda que de modo limitado, a bondade que, em Deus, é ilimitada. Portanto, mesmo sem poder perceber Deus diretamente, é Ele, em sua bondade infinita, que nos move, porque nossa vontade foi feita para recebê-lo. Busca-o em cada gesto, em cada desejo, em cada inclinação a algo criado.
Portanto, Deus move nossa vontade, em primeiro lugar, como objeto perfeito de inclinação. Ou, nas palavras sintéticas de Santo Agostinho, nas Confissões: “fizeste-nos para Vós, Senhor, e nosso coração não tem descanso enquanto não repousa em vós”.
Mas o próprio fato de que tenhamos uma vontade, ou seja, de que nos movamos, nos inclinamos para o bem, também decorre do governo universal que Deus exerce sobre as coisas. De fato, ele nos criou para o bem, e portanto criou nossa vontade com essa capacidade de nos mover para Ele. Como regente eterno do universo, ele governa também as vontades, primeiro fazendo com que desejem o bem, depois ajudando-as, com a graça, a discernir este bem. Como um governante que dispõe tudo para que o bem comum seja atingido pela coletividade, Deus dispõe tudo para que a criação e todas as criaturas possam buscar o bem que precisam.
Em suma: Deus move nossas vontades como objeto, mas também move como criador e governante que inclina todas as coisas para o bem. Isto não retira, é claro, nem o nosso próprio livre arbítrio, uma vez que ainda temos que escolher, dentre as coisas criadas com as que nos deparamos, quais são as melhores para nós e para todos aqui e agora, dado que todas são limitadas quanto ao bem que carregam.
Nem retira nossa responsabilidade, uma vez que podemos ainda escolher mal, quando, sopesando o bem que devemos buscar, preferimos o bem desordenado, dando as costas a Deus para eleger o bem sem Ele. Mas aí já estamos no campo da moral, não do governo divino das coisas. Estudaremos isto na próxima parte da Suma.
3. Encerrando.
Deus move nossa vontade, até quando achamos, na verdade, que somos nós a querer e a mover. E isto é a única coisa que nos faz verdadeiramente livres, porque nos faz alcançar o único fim que nos sacia, e portanto nos torna felizes, plenos: ele mesmo.
É uma visão muito diferente da visão individualista, egocentrista e indiferentista de hoje em dia. Veremos mais sobre isto no próximo texto, quando examinarmos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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