1. Introdução.

Vamos tratar, aqui, do funcionamento da inteligência humana com relação a Deus. Não se trata, propriamente, de conhecer o próprio Deus, mas de saber se Deus pode fazer surgir na mente humana, diretamente, algum conhecimento, sem que as respectivas informações tenham chegado à mente por experiência própria. Seria o chamado “conhecimento infuso”, ou seja, Deus colocaria diretamente algum tipo de conhecimento na mente humana.

Mas há dimensões ainda mais profundas em nosso debate. O universo criado é profundamente inteligível. E nossa mente espelha a inteligibilidade das coisas, de tal modo que pode apreendê-las. Isto é realmente algo assombroso: não somente o universo é inteligível, como nós somos capazes de entendê-lo. Isto porque a mesma inteligência infinita que criou o universo de modo inteligível criou a inteligência humana. Fez o universo inteligível e nos fez participantes da inteligência criadora. Assim, toda aprendizagem, toda ciência, toda a razão, todo pensamento, é participação na inteligência de Deus. Não haveria ciência natural se as coisas não fossem assim.

Por tudo isto, o debate aqui vai muito além da chamada “ciência infusa”, ou aquele conhecimento diretamente infundido por Deus em nossa mente. Qualquer conhecimento que temos, qualquer ciência que adquirimos, demonstra, em última análise, a relação dupla de Deus com o nosso conhecer: ele fez as coisas inteligíveis e nos fez inteligentes.

Mas estamos nos adiantando. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe, para iniciar o debate, a hipótese de que Deus não pode alterar diretamente a inteligência humana, de modo a gerar, nela, algum conhecimento. Na verdade, a hipótese vai mais longe, e chega a insinuar que o próprio processo de conhecimento humano é completamente independente de Deus, de tal modo que é a nossa inteligência, quando se defronta com as coisas, que caminha da ignorância para o conhecimento, por si mesmo, sem nenhuma relação com Deus. Assim, Deus não tem relação com nosso conhecimento, propõe a hipótese: nossa capacidade de aprender, assim como as coisas a serem aprendidas, não teriam nenhuma relação com Deus. Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que a atividade de aprendizagem intelectual humana é daquelas que começa e termina em nosso interior mesmo. Ela inicia com a nossa ignorância, passa pelo nosso exame e abstração do mundo exterior e termina com o conhecimento. Não é, por exemplo, como a atividade do escultor ou do pintor, que visa transformar o mundo externo. A atividade daquele que age em outra coisa é chamada de atividade transeunte. A atividade do descobridor, do estudante, daquele que busca aprender, é uma atividade que começa e termina no próprio agente. Ou, para usar a linguagem técnica, é uma atividade completamente imanente.

Ora, toda ação que envolve a relação entre alguma coisa que move e outra que é movida nunca é completamente imanente: ela é sempre uma ação que envolve algo que começa num agente mas termina num paciente, ou seja, que começa num ente causador e termina no ente que sofre os efeitos. Ou seja, para falar a linguagem filosófica, toda atividade que pode ser causada por um ser em outro é uma atividade transeunte.

Logo, a atividade intelectual não pode ser diretamente causada por Deus no intelecto da criatura. Portanto, Deus não pode mover diretamente o intelecto criado, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Aprender é uma atividade personalíssima. É uma atuação do meu próprio intelecto, que se dá conta de sua ignorância, lança sobre o objeto a luz do intelecto agente e inscreve o conhecimento no intelecto possível. É neste sentido que se pode falar de “movimento do intelecto”: passar da ignorância ao conhecimento.

Ora, este movimento tem todos os elementos dentro do próprio sujeito que aprende: nele está o intelecto agente, nele estão os dados sensíveis obtidos pelos sentidos, nele estarão os conhecimentos intelectuais obtidos, ao final do processo. Todo o processo de aprendizagem se dá, portanto, com esses princípios da própria alma que aprende.

Portanto, não há sentido em dizer que Deus pode causar diretamente a aprendizagem, quando a aprendizagem pode ser inteiramente explicada por elementos que estão no próprio intelecto da criatura. Assim, Deus não move o intelecto criado, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Nossos sentidos são estimulados pelos aspectos sensíveis das coisas: vemos sua aparência, ouvimos seus sons, sentimos seus cheiros, e é assim que nossos órgãos dos sentidos são movidos por seus objetos próprios, que são os sensíveis.

Ora, com relação ao intelecto, o seu objeto próprio é aquilo que é inteligível, isto é, aquilo que se pode cientificamente saber, de modo universal e abstrato, sobre o objeto. Mas o objeto do conhecimento intelectual, que é sempre um objeto próprio para a ciência ou mesmo para a filosofia, é sempre o mundo criado, sua estrutura, suas causalidades, seus elementos. Deus não faz parte do mundo criado, e portanto não entra em relação com nosso intelecto, porque não pode ser compreendido por ele. Assim, Deus não é um objeto que mova o intelecto: simplesmente não podemos caminhar da ignorância ao conhecimento, quanto a Deus.

Ora, se Deus não é objeto proporcionado ao nosso intelecto, e se nosso intelecto é movido por seus objetos, então Deus não pode mover diretamente nosso intelecto, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Aquele que ensina, ou seja, o professor, é capaz de estimular e mover o intelecto daquele que aprende, justamente porque ensinar e aprender é um dos modos do processo de aprendizagem intelectual. Ora, as Escrituras nos ensinam que Deus ensina aos seres humanos. De fato, no Salmo 94(93), 10b, diz-se que “Ele ensina ao homem o conhecimento”. Ora, se Deus é professor, e ensina ao ser humano, então ele pode mover diretamente o intelecto humano, conclui este argumento.

5. Encerrando.

Sem Deus, não há conhecimento possível. Somente na Trindade, no Criador que nos fez no Verbo e pelo Verbo, é que a ciência ganha possibilidade e consistência. Exatamente porque a ciência é como ler uma carta, inscrita no universo. Mas ler uma carta pressupõe que a carta tenha sido escrita antes por alguém – e ser uma criatura capaz de lê-la pressupõe que ele nos tenha concedido a participação em seu próprio intelecto.

Veremos mais sobre isto no próximo texto.