1. Retomando para fechar.

Deus comanda as coisas. E move para a perfeição as coisas materiais, inclusive os seres vivos, naquilo que eles não têm liberdade para se mover sozinhos. Ou seja, naquilo que não envolve a capacidade de reconhecer seus fins e de alcançá-los livremente.

Assim, se, por um lado, cabe a nós buscar, com liberdade moral e movidos pelo bem, o nosso próprio progresso ético e religioso, por outro lado o crescimento das plantas, os instintos animais, os nossos próprios sistemas vegetativos, nada disso é movido por vontade, mas dirigido por Deus no sentido de alcançar a própria perfeição. Todo o universo, todas as coisas, movem-se para os seus próprios fins e para o bem comum, dirigidos por Deus – que é o próprio Bem.

É certo, porém, que Deus move todas as coisas, ordinariamente, por meio das causas secundárias. É a certeza disso que possibilita o progresso das ciências naturais, que são, por assim dizer, santas, porque investigam a ordem razoável que o próprio Deus escreveu no mundo. Se não houvesse esta ordem, nada haveria para ser examinado e conhecido. A ciência seria impossível.

Mas a indagação aqui é ainda mais profunda: será que, além de ordenar as coisas para seus fins e organizar as causas secundárias, ou seja, a própria relação de causalidade entre as criaturas, para fazê-las atingir seus próprios fins, Deus poderia agir diretamente sobre as coisas corpóreas, encaminhando-as para seus fins? Assim, além de organizar a semente, a água, a terra, os nutrientes, a luz do sol e a atmosfera, para fazer uma roseira crescer e florir, será que Deus poderia diretamente fazê-la florir, sem se valer de toda essa teia de causalidade? Será que foi justamente isto que aconteceu, digamos, no milagre das rosas de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, com o índio São Juan Diego?

A resposta já foi dada por Tomás de modo sintético, e já a examinamos no último texto. Agora cabe, de posse daquela resposta, retomar os argumentos iniciais para examiná-los e estudar as respostas específicas de Tomás a eles. Vamos à nossa tarefa.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento toma a lição de Aristóteles, de que, quando uma coisa movimenta outra, elas precisam estar em contato de algum modo, para que aquela que movimenta possa transmitir a energia àquela que é movimentada. Este contato é sempre físico (mesmo que possa não ser um toque entre as duas coisas, como no caso das forças magnéticas, por exemplo)

Ora, Deus não é uma coisa física; assim, seria absurdo imaginar que ele pudesse entrar em contato físico com as criaturas corpóreas, por exemplo empurrando uma rocha ou atraindo magneticamente um pedaço de ferro. Portanto, Deus não pode movimentar fisicamente nenhum corpo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É preciso lembrar, aqui, que não estamos falando apenas da capacidade de movimentar alguma coisa por deslocamento físico. Não estamos tratando, apenas, de empurrar uma pedra ou puxar uma árvore de lugar. Falamos da capacidade de realizar transformações nos corpos das coisas, o que envolve, além do contato físico (quer por toque, ou quer por outras forças físicas, como a gravidade ou o magnetismo), a capacidade de provocar modificações corporais sem transmitir energia motora fisicamente– como acontece, por exemplo, quando eu causo uma tristeza em alguém que amo, porque ela fica sabendo de algo feio ou pecaminoso que eu fiz. Ou quando dizemos, por exemplo, que a simples presença cotidiana dos pais exerce uma influência mensurável no desenvolvimento dos filhos. Este é aquilo que Tomás chama de contato virtual, pelo qual aquele que tem algum poder sobre outra coisa é capaz de causar sua transformação sem tocar fisicamente nela. Pensemos num molestador de internet: ele pode até levar uma criança a se ferir ou se matar, sem ter nenhum contato físico com ela. Muitas vezes, aquele que tem um poder virtual sobre o outro pode agir sobre ele sem que o outro possa agir de volta: pensemos num presidente de empresa que pode demitir de longe seu empregado, sem que o empregado possa vê-lo ou reclamar.

Assim, sabemos de fato que Deus não dá empurrões nem entra em contatos físicos com sua criação, porque ele não precisa disso, e porque ele não é um ente que age no mesmo nível e no mesmo grau que as criaturas. Ele as tem sob seu poder maravilhoso, e a partir desse poder é capaz de transformá-las sem contato físico – porque pode tocá-las virtualmente. Mas o poder infinito de Deus, que gera esse contato virtual, não gera o contato inverso: as coisas criadas não podem tocar em Deus.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra daquele conceito de motor imóvel, que vem da filosofia aristotélica. O motor imóvel é tudo aquilo que pode causar uma transformação em outra coisa, sem ser transformado de volta, como no exemplo do patrão que pode demitir o empregado sem que o empregado possa reclamar, interagir ou até mesmo sem vê-lo pessoalmente. A demissão move o empregado para fora da empresa, mas o patrão continua imóvel, ou seja, não sofre nenhuma transformação provocada por esta situação.

Deus é um motor deste tipo: sendo perfeito e onipotente, ele não é passível de transformações. Portanto, não entra no jogo de ações e reações que caracteriza o mundo material: se é verdade que a toda ação corresponde uma reação oposta e de igual intensidade, qualquer movimento que um ente provoca no corpo de outro ente causa uma reação equivalente naquele que provoca o movimento. Mas nada pode provocar reações em Deus, uma vez que ele não pode se mover nem sofrer qualquer transformação.

É certo que qualquer transformação ou movimento causado por um motor imóvel se realiza apenas no reino do intelecto: um ser inteligente pode perceber a bondade que há em Deus e ser levado a desejá-lo ardentemente, de tal modo a sofrer, por causa disso, grandes transformações. Mas a inteligência não é algo material, mas espiritual.

Logo, Deus não interage diretamente com os corpos das coisas para movê-las, mas apenas com os intelectos das coisas inteligentes, que são imateriais, e portanto incorpóreos, conclui o argumento,

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás é muito interessante, quase inesperada para nós.

De fato, pensamos, hoje em dia, sempre em termos de causalidade eficiente: se alguma coisa precisa ser movida, então já calculamos qual a força que precisa ser feita, qual o melhor ângulo para o ataque e qual a energia necessária para provocar o movimento do objeto. Mas, quando falamos da causalidade primária, falamos principalmente da causalidade final, ou seja, do objetivo pelo qual as coisas existem e para o qual caminham. Toda perfeição, antes de estar nas coisas, está em Deus. Assim, Deus move, em primeiro lugar, como causa final. No caso dos seres inteligentes, nós somos capazes de discernir quais são os fins de nossa atuação e agir em conformidade com eles; por isto, nosso movimento para Deus decorre sempre da nossa inteligência. Mas, no caso das coisas corpóreas que não são dotadas de inteligência, Deus mesmo as move, para que alcancem o seu fim, que está no próprio Deus como fonte de toda perfeição. Então, podemos dizer que Deus move estas coisas também como causa final, porque, ao movê-las, é a própria inteligência divina que reconhece a si mesmo como bem supremo e as conduz a si. Portanto, tanto no caso das criaturas inteligentes (que se movem por liberdade) quanto das desprovidas de inteligência (inanimadas, vegetais e animais), trata-se de reconhecer que Deus, amor supremo, é o fim, e a inteligência, seja a criatural, seja a divina, sempre vai conduzir a ele.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento pode ser resumido assim: um automóvel com um motor de pouca potência se move com pouca velocidade. Um automóvel com um motor muito potente se move com muita velocidade. Um automóvel que tivesse um motor com potência infinita poderia se mover com velocidade infinita, de tal modo que poderia estar instantaneamente no ponto de partida e no ponto de chegada de algum percurso. Ora, Deus é infinitamente potente. Se ele fosse capaz de movimentar diretamente os corpos, as coisas materiais poderiam estar simultaneamente em dois lugares muito distantes, no espaço, o que é impossível, porque rompe as leis da física. Logo, Deus não atua movendo coisas corporais diretamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não podemos pensar na onipotência de Deus em termos físicos. Não podemos quantificar a onipotência, como se ela pudesse ser medida em termos de quantidade de energia. Não é como se o poder de Deus fosse análogo ao de um motor de automóvel, cuja força fosse medida em unidades como o HP, ou o newton, ou o KW, ou qualquer outra similar. E Tomás vai dar uma explicação filosófica para isso.

Ora, seria impossível que existisse um ser quantitativamente onipotente, ou seja, algo que pudesse mover as coisas a partir de uma potência mecânica infinita. Isto violaria inclusive leis da física que a ciência nem conhecia na época de Tomás, como as leis de Newton e a própria lei de Einstein, que diz que nada pode se mover mais rápido do que a velocidade da luz sem transformar a própria massa em energia.

Se houvesse um motor, um mecanismo com energia infinita, as coisas poderiam ser movidas com velocidade infinita, e portanto poderiam estar em mais de um lugar simultaneamente. Ademais, um ente com uma potência quantitativamente infinita provocaria sempre o movimento com deslocamento infinito, se fosse algo como um motor mecânico com energia infinita. Porque, caso não o fizesse, não seria infinita sua potência.

Mas Deus não é um motor mecânico com potência quantitativamente infinita. Quando chamamos Deus de onipotente, o que queremos dizer é que suas capacidades não guardam proporção com as potências das criaturas, e não que ele tenha o mesmo tipo de potência das criaturas, mas elevada ao infinito.

Assim, uma vez que sua onipotência é qualitativamente diferente de qualquer potência de qualquer criatura, ela só pode ser uma capacidade com controle, isto é, o poder de um ente com discernimento, com inteligência para utilizar, a cada vez, justamente da energia necessária para atingir os resultados que deseja. A onipotência de Deus vem em perfeita harmonia com sua maravilhosa onisciência, e principalmente com sua infinita bondade e amor.

Assim, não se pode concluir que, uma vez que as leis da física não podem admitir um motor mecânico com potência infinita, então Deus não pode mover nenhum corpo diretamente, porque isto violaria as leis da física. Este é um raciocínio errado.

Do fato de que Deus é onipotente, e do fato de que as coisas corpóreas não podem ser movidas por forças mecânicas quantitativamente infinitas, não devemos concluir que Deus não pode mover os corpos, mas devemos concluir, coerentemente, que Deus, em sua infinita sabedoria, pode dosar seu poder, quando interage diretamente com as coisas corpóreas.

3. Conclusão.

Às vezes parece um pouco sem sentido, talvez até cansativa mesmo, a insistência de Tomás em debater detalhadamente aquilo que parece claro de antemão: no presente caso, o poder de Deus de mover os corpos, e não somente as almas ou as inteligências, ou mesmo os espíritos. Mas isto decorre da necessidade de fundamentar sempre adequadamente a nossa fé, de tal modo a excluir a possibilidade de espiritualismos dualistas que consideram a matéria como má ou como oposta a Deus.

Eis a importância de insistir detalhadamente no assunto, antes mesmo de debater o modo pelo qual Deus move inteligências e vontades, o que faremos nos próximos artigos.