1. De volta.
A importância de reafirmar a bondade da matéria nunca pode ser diminuída. A tendência a nos espiritualizar, a imaginar que a matéria é uma prisão, atinge não somente as religiões de fontes não cristãs, como o espiritismo e as religiões ocidentais, mas até os cristãos, de modo sutil. Quando imaginamos que a morte é algum tipo de “libertação” ou de “retorno” a Deus, implicitamente estamos dizendo que existimos previamente à carne, ou independentemente dela, o que é um grande erro antropológico. Somos humanos. Fomos gerados – corpo e alma – pela fecundação. Morremos realmente no dia em que falecemos, embora um elemento nosso – o elemento espiritual – seja preservado da morte e fique, de modo incompleto, aguardando a ressurreição final. Tudo isso pressupõe aquilo que estamos debatendo aqui: o poder de Deus, absoluto, de transformar, de mover a própria matéria, que lhe é inteiramente submissa.
Por outro lado, as respostas de Tomás nem sempre são bem compreendidas, porque ele se expressa a partir de um conhecimento filosófico e teológico muito profundo, que nós já não temos. Mas compreendê-lo significa nos ajudar a encontrar uma saída de nossas próprias armadilhas culturais.
Vejamos agora a resposta sintetizadora de Tomás sobre esse tema.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás começa sua resposta de uma maneira bastante enérgica: é errado dizer que Deus não pode produzir, por si mesmo, diretamente, qualquer efeito concreto e determinado que qualquer criatura pode produzir. Ou seja, Deus criou todas as coisas e lhes deu o verdadeiro poder de serem causas, e lhes dá, a cada momento, a capacidade de provocarem os efeitos que causam. Ora, se Deus faz isto pelas coisas criadas, capacitando-as e energizando-as a verdadeiramente provocar efeitos nas outras coisas, então, com muito mais razão, ele pode provocar diretamente esses mesmos efeitos nas coisas.
Deste modo, uma vez que o universo criado é eminentemente relacional, isto é, ele se dinamiza, se move e se transforma pela relação entre as coisas, e, uma vez que Deus, dentro de si, é relação subsistente, e guarda uma relação direta com todas as coisas que criou (como vimos no artigo anterior) ele pode mover ou transformar qualquer coisa criada.
Assim, Deus faz as coisas existirem; como sabemos, normalmente são as próprias coisas que provocam a geração, transformação, deslocamento e destruição das outras coisas, quer dizer, o universo criado é organizado de tal modo que as causas efetivadas pelas próprias criaturas são capazes de dar contra de todas as transformações naturais. Mas Deus é capaz de operar estas mesmas transformações diretamente, porque, em todo caso, é ele quem cria as coisas capazes de existir e de operar, e é eles quem lhes dá, em última instância, a capacidade de operar.
Ou, como Tomás diz de modo mais técnico, toda a dinâmica das coisas decorre de sua forma ou tende a ela. Assim, por exemplo, se algum gás adquire a forma quente, ele tende a subir. Por isso, chamamos a fonte de calor, que aquece este gás, de motor, porque é ele que causa a aquisição da forma quente pelo gás e, consequentemente, provoca o movimento do gás para cima. É assim que podemos dizer que este movimento de subida decorre da forma quente apresentada pelo respectivo gás que sobe.
No mesmo sentido, dizemos que as coisas tendem à forma quando movidas pelo motor: por exemplo, se coloco uma folha de papel no fogo, esta folha tende a entrar em combustão, isto é, a adquirir em si mesma a forma do fogo.
Assim, é a mesma causa que doa a forma (no caso, o fogo que aquece o gás) e provoca o surgimento da forma no objeto (como o papel que passa a queimar). Por isso, uma fonte de claro faz as duas coisas: torna o gás mais leve e faz o objeto entrar em combustão.
Usando uma analogia com a atuação de Deus sobre a criatura, Tomás nos explica, então, que Deus pode agir como aquele fogo que faz o papel entrar em combustão, quando ele provoca o surgimento de uma nova forma numa matéria previamente informe, como vimos no artigo anterior. Mas ele pode, também, de maneira análoga, gerar as transformações que aquela forma gera, como a fonte de calor faz com que o objeto fique leve e suba.
Deus pode, portanto, não somente imprimir forma na matéria, como também gerar diretamente as transformações que a forma gera. Ou seja, Deus pode atuar diretamente sobre os corpos criados, provocando efeitos neles.
3. Encerrando.
E assim fica respondida, de maneira fundamental, a hipótese inicial. Mas há outros aspectos que devem ser debatidos ainda. Acompanharemos, então, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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