1. Introdução.

Sempre houve uma forte influência “espiritualizante” em todas as religiões, e o cristianismo não esteve isento dela. De fato, é muito fácil imaginar que Deus tenha influência sobre inteligências, sobre espíritos, sobre ideias, mas é mais difícil imaginar que Deus possa influir diretamente sobre a materialidade das coisas. Pode-se esconder, aí, algum tipo de dualismo platônico, que vê a matéria como oposta a Deus mesmo, como algo intrinsecamente mau ou estranho a Deus. Pode-se também esconder algum tipo de determinismo mecânico, como aquele que vê o mundo como pensamento, de um lado, e extensão, de outro – dimensões que seriam estranhas entre si e não relacionadas. Esta é uma visão bastante difundida na modernidade: tanto Descartes parecia ver o mundo material como um mecanismo cego, oposto ao pensamento, que seria completamente espiritual e sem relação com o mundo material, quanto Kant, ao dividir a vida em imanência e transcendência, parece reduzir o mundo histórico, concreto, material, ao determinismo de um mecanismo rígido.

Assim, é enorme a importância deste artigo de Tomás: reafirmar que a matéria não é má, mas é uma dimensão da criação de Deus; decorre da vontade dele e se submete plenamente a ele. Está sob seu poder também.

É claro que devemos fugir de simplificações brutais, como aquelas que imaginam que Deus é um ser existente no meio de sua criação, como se ele fosse mais uma coisa no meio das coisas. Ele não é. Portanto, não podemos imaginar que Deus venha empurrar fisicamente alguma pedra, por exemplo.

Mas deixemos de digressões e vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

Para iniciar o debate, o artigo propõe uma hipótese provocativa, que estimula a debater: Deus não pode mover diretamente as coisas materiais, atuando sobre seus corpos, ou seja, ele não atua diretamente sobre a matéria das coisas. Há três argumentos que tentam confirmar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Tratando da alteração e da movimentação das coisas materiais, quanto ao jogo de causalidades que existe no mundo material, Aristóteles estabelece duas condições para que uma coisa material possa ser movida por outra: 1. É preciso que as duas coisas estejam presentes de modo simultâneo e 2. É preciso que haja algum contato entre elas.

Mas Deus não está ao alcance de nenhuma coisa material. De fato, ele não pode ser tocado materialmente, como ensina o Pseudo-Dionísio na sua obra sobre os Nomes Divinos. Ora, se nada pode tocar em Deus, então ele não pode provocar movimentos em coisas materiais de modo direto, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor é interessante, embora muito profundamente filosófico. De fato, quando estudamos a segunda questão desta primeira parte da Suma, vimos que Deus é o “motor imóvel”, isto é, ele é capaz de mover o mundo sem que ele próprio precise se mover. Deus move sem se alterar.

Ora, este tipo de movimento se dá porque Deus é sumamente atrativo, e é capaz de despertar, naqueles seres que são capazes de conhecê-lo e de desejá-lo, a vontade de se mover até ele, que é o sumo bem. Como uma bela fruta não precisa se mover para atrair os pássaros, Deus não precisa se mover para atrair o desejo daqueles que podem percebê-lo.

Ocorre que as coisas só podem ser movidas por atração por aquilo que são capazes de perceber. O pássaro percebe a fruta, e por isso voa até ela para bicá-la. Mas a fruta é material, e portanto pode ser percebida pelo pássaro, fazendo-o mover-se até ela. Assim, o pássaro, que é uma realidade corpórea, move seu corpo fisicamente até a fruta, que é uma realidade corpórea.

Mesmo nós, humanos, que somos seres corpóreos, somente podemos perceber Deus por nossa inteligência. Portanto, Deus, ao nos atrair até ele, move diretamente nossa inteligência, e apenas indiretamente o nosso corpo.

Isso porque Deus não é material. Ele só pode ser percebido, então, por seres inteligentes, porque o intelecto é justamente a capacidade de conhecer imaterialmente. Ora, se somente aquilo que pode ser apreendido é capaz de mover outra coisa sem se mover, e Deus só pode ser apreendido pela inteligência, que é imaterial, então Deus não move diretamente nenhuma realidade material, ou seja, Deus não move diretamente nenhum corpo, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Para entender este argumento, vamos pensar com um exemplo: Se um automóvel tem um motor fraquinho, digamos, um motor com 30 cavalos de potência, ele vai andar vagarosamente. Mas se ele tiver um motor poderoso, com 1000 cavalos de potência, ele será capaz de acelerar e andar em altas velocidades. Mas se ele tiver um motor com potência infinita, ele será capaz de se mover instantaneamente entre dois pontos quaisquer do espaço.

Deus é onipotente. Isto significa que, se ele move algum ser corpóreo, ele o moverá com potência infinita. Com isto, o ser corpóreo poderá deslocar-se instantaneamente entre dois pontos quaisquer do espaço, ou seja, ele estará, instantaneamente, em dois lugares diferentes, ou com dois modos de existência simultâneos diferentes entre si. Pensemos numa montanha que seja movida por Deus daqui até a china: ela estará aqui e, instantaneamente, estará na China. Isto é impossível. Nenhum ser corpóreo pode ocupar dois lugares diferentes do espaço instantaneamente, nem pode estar simultaneamente existindo de dois modos diferentes. Logo, nenhum ser corpóreo pode ser diretamente movido pelo poder de Deus, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Há muitos testemunhos bíblicos de que Deus pode mover diretamente as coisas corpóreas; de fato, já no primeiro capítulo do Gênesis vemos a ação de Deus, movendo as águas inferiores e superiores, para que se reúnam no mesmo lugar (Gn 1, 9). Há outros exemplos bíblicos da atuação de Deus sobre coisas materiais, de tal modo que podemos afirmar que Deus pode mover os corpos, as coisas materiais, diretamente, conclui este argumento.

5. Conclusão.

Não somos gnósticos. Os gnósticos são espiritualistas, tendem a negar a bondade da matéria e, consequentemente, tendem a negar que Deus possa ou queira ter alguma relação com ela, mesmo de poder. As coisas não são assim: Deus criou a matéria e tem todo o poder de transformá-la, movê-la, moldá-la diretamente. Veremos mais sobre isto nos próximos textos.