1. Voltando.
Com vimos no último texto, a hipótese controvertida, aqui, é a de que Deus não pode intervir diretamente na criação de modo a moldar, na matéria, algum ente novo. Uma vez que o universo foi criado, sugerem os argumentos objetores, somente as próprias criaturas podem gerar novas criaturas; somente a causalidade criatural pode mudar a matéria, fazendo surgir novos seres. Deus já não o poderia fazer diretamente. Mas vimos também que o argumento sed contra nos lembra da narração da criação de Adão, no segundo relato de criação da Bíblia (Gn 2, 7). Ali, o autor sagrado descreve a atuação de Deus diretamente sobre a matéria.
Vamos examinar, então, a resposta sintetizadora de Tomás, e as suas respostas aos argumentos objetores iniciais.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Sim, diz Tomás; Deus pode atuar diretamente na matéria, imprimindo nela qualquer forma, ou seja, ele pode formar qualquer novo ente no universo, atuando diretamente sobre a matéria.
De fato, como sabemos, a matéria-prima não existe na realidade: o que existe, no nosso universo, é sempre a matéria que está compondo algum ente material: a matéria desta pedra, daquele cão, daquela estrela, e assim por diante. Mas toda matéria, esteja ela no corpo que estiver, é capaz de compor outro corpo. Sabemos disso hoje, como Tomás sabia no tempo dele, embora hoje saibamos com mais riqueza de detalhes. Sabemos, por exemplo, que as moléculas de carbono que estão no meu corpo podem já ter passado pelo corpo de um antigo dinossauro, ou mesmo de uma árvore antiga. Em suma, como dizia a filosofia clássica, a matéria contém em si a potência passiva de ser qualquer corpo, de compor qualquer ente.
Ora, se algo que tem a potência passiva encontra um agente que tem a respectiva potência ativa para agir sobre ela, o resultado é que o agente pode agir sobre aquela potência passiva, levando-a a ser aquilo que ela pode ser. Pensemos no escultor que encontra um belo bloco de mármore: ele pode transformar aquele bloco numa estátua, exatamente por ser o escultor, isto é, ter a potência ativa para esculpir.
Ora, a matéria foi produzida pelo próprio Deus, que deu a ela essa capacidade passiva ilimitada, isto é, o potencial para se transformar em qualquer coisa corporal. Ora, uma vez que Deus é a própria onipotência, obviamente ele pode moldar diretamente a matéria existente, fazendo-a atualizar-se para ser o que ele quiser que ela seja. É verdade que Deus normalmente não o faz, e age por meio de agentes intermediários, quer dizer, se ele precisa que um cãozinho exista, ele normalmente simplesmente provoca o cruzamento de dois cães adultos de sexo oposto. Mas ele tem o poder de moldar o cãozinho diretamente. Está em sua onipotência intervir direta e livremente na sua criação.
3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que, segundo a filosofia de Aristóteles, somente uma coisa que está atualmente em existência concreta, material, é capaz de causar a geração de alguma outra coisa. A espécie canina, por exemplo, em sua universalidade abstrata, não é capaz de gerar cãezinhos: apenas os cães individuais, materiais, são capazes de gerar filhotes similares a eles próprios.
Ora, Deus é universal, e não se materializa como um ente individual em meio às coisas do universo criado. Então ele não pode modificar diretamente a matéria para fazer surgir seres materiais individuais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há duas maneiras pelas quais um efeito pode ser similar à causa: porque a coisa gerada tem a mesma espécie que a geradora (é o caso da reprodução, sexuada ou não), ou quando a coisa gerada está contida virtualmente na geradora – é o caso, por exemplo, do escultor, que consegue retirar do bloco de mármore aquilo que concebeu em sua mente e que era possível executar naquela matéria. Quer dizer, quando o efeito está inserido no poder da causa, mas não se trata de uma geração sexuada ou assexuada. Podemos pensar, aqui, por exemplo, no efeito de atração que a gravidade tem, e que está virtualmente contido na massa de um determinado corpo, ou no efeito de iluminação que o sol tem, quando brilha sobre a terra. Esses efeitos não são da mesma espécie da causa, mas estão abrangidos pela capacidade da causa.
Analogicamente, podemos dizer que todos os efeitos que as causas criadas podem gerar estão contidos, em primeiro lugar, em Deus, de modo virtual: se Deus não criasse as coisas com determinadas capacidades de causalidade, elas jamais teriam essas capacidades. Portanto, sua causalidade é derivada, secundária, é uma causalidade que está virtualmente contida, em primeiro lugar, no próprio Deus.
Assim, Deus pode causar diretamente, no universo criado, tudo aquilo que as criaturas podem causar diretamente. Também pode, portanto, moldar diretamente a matéria para que surja dela algum novo ente.
Mas Aristóteles nos mostra que, dentre aquilo que é imaterial, apenas Deus tem este poder, porque apenas Deus contém em si, virtualmente, todos os poderes de todas as criaturas. Assim, os anjos, embora muito poderosos, não poderiam gerar algum ser material a partir de matéria preexistente, embora possam manipular a matéria produzindo nela efeitos passageiros – como se vê de tantos fenômenos paranormais registrados em casas mal-assombradas e coisas similares.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor também vai na linha da causalidade universal, comparada com a causalidade individual ou concreta.
Ele faz o seguinte raciocínio: tudo aquilo que pode produzir inúmeros efeitos não vai produzir nenhum efeito concreto, a menos que seja determinado a um efeito concreto por algum elemento concreto. O exemplo seria um carimbo: ele poderia deixar qualquer marca no papel, mas, a menos que você tenha gravado nele alguma marca concreta, ele não vai estampar nada. Mas quando você grava no carimbo alguma marca concreta, de modo a que ele passe a ser o carimbo com o meu nome e meu RG, ele já não pode carimbar nenhuma outra coisa senão o meu nome e RG. Portanto, a causa universal somente pode produzir efeitos concretos quando é individualizada de algum modo especial.
Assim, uma vez que Deus é uma causa universal, ele só pode produzir efeitos concretos, individuais, na criação, quando age por alguma causa intermediária, concreta, ou seja, por meio de alguma criatura. Ele não pode, portanto, causar algum efeito concreto diretamente, como gerar algum ente novo a partir da matéria preexistente, conclui este argumento.
A resposta de Tomás.
Este argumento, assim como o anterior, parecem esquecer que Deus não é uma coisa no meio das coisas, ele não é algum tipo de super-herói que eventualmente tivesse superpoderes, mas de algum modo sofresse os limites da natureza criada. Deus está acima e além do universo, e não se submete às leis universais do universo criado. Ele é infinitamente livre, infinitamente poderoso e é ele quem determina tudo o que existe e existirá; é ele que estabelece inclusive as naturezas e as capacidades das coisas concretas. Não existe, portanto, nada que alguma criatura possa fazer que Deus não o possa, de modo ainda mais perfeito. Portanto, Deus pode moldar qualquer coisa diretamente.
O terceiro argumento objetor.
Já vimos, na questão 104, que Deus conserva o universo valendo-se sempre das coisas particulares para causar efeitos particulares de conservação nas outras coisas: as mães conservam os filhos, por exemplo. Deus, por outro lado, é o conservador do todo, da universalidade, da casa comum, do ser comum.
Ora, quanto à criação, pode haver uma lei similar: Deus cria a casa comum, o ser comum, mas as coisas individuais, em sua concretude, são geradas sempre por outras coisas individuais, porque sua existência é sempre concreta, e Deus cuida do universal. Logo, Deus não molda coisas individuais, e nem poderia, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Deus estabelece tudo no universo. Foi Ele que estabeleceu, inclusive, que as coisas particulares devessem gerar efeitos particulares, como foi ele que fez a relação entre as coisas e seus efeitos. Ora, é claro que, se Deus tem o poder de dar poder às criaturas, ele também tem o poder de gerar diretamente os efeitos particulares que as criaturas geram. Inclusive o poder de moldar coisas particulares diretamente.
4. Conclusão.
Quem pode o mais, pode o menos. Este é um velho ditado popular que pode se aplicar muito bem aqui; o mesmo Deus que criou o universo e deu às coisas a capacidade de causar efeitos pode causar diretamente os efeitos que as coisas causam umas nas outras. Ou seja, Deus pode fazer diretamente aquilo que as coisas podem fazer, ele pode realizar aquilo que, por seu poder criado, as coisas o podem.
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