1. Introdução.

A visão de Tomás sobre o universo criado é maravilhosa. Muito diferente da nossa visão geral, hoje, de que o universo é um grande mecanismo fechado, que se explica por suas leis rígidas e já não precisa de Deus para continuar existindo. Lembro-me de uma as que tive, há alguns anos, com um amigo cientificista: ele me dizia que, se Deus é perfeito como eu acredito, não faria sentido que ele criasse um universo no qual ele tivesse que intervir a todo momento para corrigir o rumo das coisas: ele seria um péssimo engenheiro, e não o Deus todo-poderoso. Eis porque, dizia este meu amigo, a própria ideia de um milagre seria contraditória com a ideia de um Deus a um só tempo perfeito, criador e todo-poderoso. Mas o meu amigo estava errado, e Tomás está certo.

O universo não é um mecanismo: é uma grande relação de amor, criado pelo Deus que ama infinitamente, e que, no seu amor onipotente, participa do dinamismo daquilo que criou. 

Mas vamos examinar este artigo: ele trata exatamente a possibilidade de que, mesmo após criado o universo, Deus possa diretamente fazer surgir coisas a partir da matéria preexistente. Iniciemos o debate, então.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, é a de que Deus não poderia moldar diretamente a matéria já criada, de modo a fazer surgir nela um novo ser, composto de forma e matéria. Deus não poderia, então, digamos, a partir de uma rocha, fazer diretamente surgir um cão. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

Primeiro argumento objetor.

Para Aristóteles, apenas um ser individual, composto de matéria e forma, é capaz de provocar o surgimento de um novo ser composto, isto é, fazer com que a forma atualize a matéria dando origem a um novo ser. Assim, digamos, a noção de “espécie canina”, em sua universalidade imaterial, não pode produzir novos cãezinhos, mas apenas um cão concreto, em sua individualidade material, é capaz de fazer surgir novos cãezinhos. 

Ora, Deus é essencialmente imaterial, ou seja, ele é pura forma sem matéria. Então ele não pode produzir diretamente, na matéria preexistente, um novo ente, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento também recorre a Aristóteles. Segundo O Filósofo, na obra De Anima, aquilo que é universal, abstrato, genérico, sempre se refere a uma pluralidade de objetos, e portanto é incapaz de produzir concretamente algum deles sem alguma causa particular que o determine. Assim, a espécie canina, por si mesma, é incapaz de produzir um simples cãozinho, a menos que um casal de cães adultos cruze e se reproduza. O exemplo que Aristóteles dá é aquele da opinião universal: a ideia, por exemplo, de que iscas são úteis para a pescaria não se torna, de fato, uma pescaria efetivamente bem-sucedida até que eu determine qual isca concreta é capaz de atrair aquela espécie de peixe que quero pescar. 

Ora, prossegue o argumento, Deus, por seu poder criador, é causa universal de todo o universo criado. Portanto, ele não pode produzir algum ente concreto, senão pela mediação de causas concretas – como o cruzamento dos cães, no exemplo do cãozinho. Assim, Deus não pode gerar diretamente algum ente concreto a partir da matéria, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Deus deu a existência ao universo criado a partir de nada. Essa existência geral depende de uma causa geral: todas as criaturas compartilham a característica universal de existir.  Portanto, a causa da existência universal só pode ser, ela própria, uma causa universal, capaz de gerar aquilo que é a característica mais comum do universo: a existência.

Mas, além dessa característica comum, as criaturas têm características particulares: aqui, um ser inanimado, com atributos de dureza extrema, como um diamante. Ali, um ser vivo que se apresenta como uma planta. Ali, um animal irracional desta ou daquela espécie. Acolá, um ser humano com sua inteligência. Ora, já vimos, quando estudamos a questão 104, que Deus conserva as coisas individuais contando com as outras coisas individuais, para que produzam efeitos individuais. Logo, para causar um efeito individual, como fazer uma determinada porção de matéria se converter num ente determinado, Deus nunca o faz diretamente, mas conta sempre com a causalidade secundária de algum ser individual dentro do próprio universo criado. Logo, Deus não pode moldar a matéria com alguma forma específica de modo a fazer surgir, diretamente, um ente individual no universo criado, conclui o argumento. 

4. O argumento sed contra

O argumento contrário sempre traz algum motivo para rejeitar a hipótese inicial.

Aqui, ele cita as Escrituras. De fato, diz o argumento, no Livro do Gênesis, a Bíblia cita uma atividade de Deus que pega um pouco de matéria e molda nela o primeiro homem, Adão (Gn 2, 7). Ora, isto demonstra que Deus tem o poder para formar um ente individual a partir da matéria prévia e informe, conclui o argumento. 

5. Encerrando.

Deus não se ausenta da sua obra, e a criou de tal modo aberta que, a cada momento, o amor pode mudar as coisas. Eis o espaço para os milagres: são intervenções de amor. Ou seja, no jogo entre a consistência do universo, a causalidade real das coisas e a liberdade das criaturas inteligentes, Deus se mantém sempre atento para que o amor seja sempre uma alternativa real – se o amor pode mudar as coisas, é porque há um caminho sem amor, por um lado, e um caminho com o amor, em que o milagre é sempre possível e mesmo esperado. Assim, Deus não é um arquiteto que criou a construção perfeita, nem o engenheiro que fez a máquina perfeita: Deus é o puro amor que criou a relação perfeita entre alteridade, causalidade, liberdade e amor. Eis o que somos. 

Deste modo, quando Deus intervém diretamente no universo, usando sua onipotência para formar as coisas a partir da matéria, isto não é a intervenção de um mau relojoeiro que fez um mecanismo defeituoso: é exatamente o contrário. Trata-se da comprovação de que o universo é a obra aberta do amor infinito, que não deixa nunca de se relacionar com sua criação. 

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás, tanto a resposta sintetizadora quanto aquelas aos argumentos objetores iniciais.