1. Retomando.

No fundo, examinamos um artigo da Suma em que se constata aquilo que foi muito bem formulado pelo químico francês Lavoisier, no século XVII: nada se perde, nada se cria no mundo material; tudo se transforma. Isto já havia, portanto, sido notado por Tomás e pela Igreja. Mas há uma enorme diferença entre o modo pelo qual este tema e apresentado na Suma, por um lado, e o modo que a química e a física modernas apresentam este mesmo princípio. É claro que não compete à química ou à física lidar com questões metafísicas ou teológicas, mas há sempre um modelo pressuposto, quando falamos da realidade. O modelo pressuposto na modernidade é aquele das leis uniformes e impessoais, que regem um universo mecânico. O modelo, para Tomás, é de um universo que poderia, a qualquer momento, voltar ao nada de onde saiu, mas é mantido na existência, em toda a sua massa, pela atividade diuturna e cuidadosa de Deus. Aquela mesma característica: a uniformidade, a regularidade das leis, a constância na existência, que é vista pela modernidade como marca de impessoalidade, é vista, sob os olhos da fé, como marca de amor: quem ama, cuida, e cuida com responsabilidade, constância e uniformidade.

Assim, tanto Tomás quanto a modernidade percebem que as coisas não voltam ao nada, mesmo quando se corrompem. Vimos isto no último texto, no qual Tomás refuta a hipótese inicial de que as coisas poderiam ser aniquiladas em sua existência, e que, neste caso, mesmo sua matéria voltaria ao nada. Isto não ocorre. Vimos o que Tomás pensa a respeito.

Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os Argumentos Objetores Iniciais e as Respectivas Respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra do velho ditado que diz que “assim como é o princípio, assim será o fim”. Ora, o princípio da criatura é o nada, porque antes da criação só Deus existia. Assim, no final, elas terão um destino que corresponde ao princípio: voltarão ao nada e só Deus existirá, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O nada nada é. O nada não é um princípio, mas apenas o modo de falar para descrever um ponto de partida em que nada criatural preexistia. Portanto, o princípio das criaturas não é o nada, mas o poder infinito de Deus, capaz de chamá-las à existência sem pressupor qualquer realidade anterior a elas mesmas. Portanto, o princípio fundamental da existência das criaturas é o poder infinito de Deus para chamá-las à existência e conservá-las, e é este o princípio que marca também sua destinação final: a expressão do amor todo poderoso de Deus, que as criou e conserva. Se elas voltassem simplesmente ao nada, não estariam expressando seu princípio fundamental, mas negando-o: seria o mesmo que dizer que o nada é mais fundamental que o poder infinito de Deus. Esta também é a lição da Bíblia, em Hebreus 1, 3: Deus “sustenta o universo com o poder da sua palavra”. Portanto, uma vez que o princípio é o poder infinito de Deus, expressão de seu amor infinito que chama do nada à existência, este é também o fim último da criação, e não a redução de volta ao nada.

O segundo argumento objetor.

A quantidade de energia que existe em cada criatura é sempre finita. As suas potencialidades para a transformação e para o aperfeiçoamento são sempre limitadas, como aliás o próprio Aristóteles demonstra em sua “Física”. Ora, ter potencialidades finitas, energia finita, aperfeiçoamento limitado, implicam também limite de existência no tempo: nenhuma criatura, com esses limites, pode seguir infinitamente na existência. Portanto, tudo aquilo que é criatural deixará de existir, será reduzido ao nada em algum momento, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Somos criaturas. Assim, nossa capacidade de existir vem toda de Deus. Passamos do nada à existência pelo poder infinito de Deus, não pelos nossos próprios poderes limitados. Assim, o fato de que as coisas permanecem existindo reflete a capacidade infinita de Deus, da qual somos apenas recebedores, passivos, e portanto a nossa limitação não é um limite à permanência no existir. Nós permanecemos no ser porque Deus, amor infinito, poder infinito, nos conserva.

É certo que algumas coisas, por sua natureza mesma, estão destinadas a perecer, com o tempo. Tratamos, aqui, das coisas materiais, em especial dos seres vivos: o fato de que são compostos de matéria e forma, e que a forma viva está sujeita à degradação e à corrupção material, que conduz inevitavelmente à morte, não decorre de alguma ação de Deus para destruir, aniquilar ou reduzir alguma coisa ao nada, mas do próprio embate natural das forças de manutenção e de eliminação da vida. Mesmo as coisas materiais inanimadas também estão sujeitas a forças materiais e físicas que as podem destruir em sua estrutura. Em todos estes casos, porém, a matéria de que são compostas não se perde, mas reaparece em algum outro ente, sob alguma nova forma: pensemos, aqui, no processo de predação e digestão, por exemplo. Portanto, os seres materiais estão sempre sujeitos a forças naturais contrárias de geração, conservação e destruição, mas sua matéria permanece sempre.

Por outro lado, as coisas imateriais, como os anjos, não estão sujeitos a estas forças corruptoras, e podem permanecer para sempre – pelo infinito poder de conservação que vem de Deus, e não por seus limitados poderes criaturais. O tamanho desse poder divino, que é amos infinito, pode ser medido pelo fato de que os anjos rebeldes e decaídos não foram aniquilados por Deus, mas são por ele mantidos na existência eternamente, apesar de sua queda.

O terceiro argumento objetor.

As formas e os acidentes não são, a rigor, coisas materiais. Pensemos, por exemplo, na brancura do leite: ela se perde quando adicionamos café ao leite, de tal modo que ele muda de cor. Mas a brancura não é algo material em si mesma. Pensemos, também, nas formas dos entes: quando morre, digamos, um cão, a sua forma canina desaparece, e o que resta é apenas um cadáver. Ora, se a forma das coisas perece, e se os acidentes podem perecer, então são simplesmente reduzidos ao nada, porque não deixam, após sua destruição, nenhuma matéria que venha a compor outro ente. Assim, há coisas que, uma vez destruídas, são aniquiladas, reduzidas ao nada por Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quando falamos que as coisas não são aniquiladas, não estamos nos referindo a suas partes ou seus elementos, mas aos próprios sujeitos da existência: as coisas em sua substancialidade. Os elementos das coisas podem ser destruídos, como é o caso dos acidentes que são transformados: se algo era branco e agora é negro, a brancura de fato deixou de existir nele. Mas, mesmo assim, não foi exatamente reduzida ao nada: ela continua existindo de modo potencial de dois modos:

1. Ela pode existir potencialmente na própria coisa (ou seja, a coisa pode sempre ser pintada de branco de novo, por exemplo).

2. Ela pode existir potencialmente na matéria. Pensemos, por exemplo, numa fruta que, caindo da árvore, é devorada por um animal. Imaginemos que esta fruta deixa sementes que passam pelo trato digestivo do animal e são defecadas adiante. Encontrando as condições favoráveis, pode nascer ali uma nova planta, capaz de produzir novamente uma fruta da mesma espécie da anterior. Isto porque a capacidade de participar da geração de novos entes, quaisquer entes, é algo intrínseco à matéria: uma molécula pode fazer parte, hoje, do corpo de um animal, e amanhã estar num curso d’água, para, num dia qualquer, ser absorvida por uma árvore, e assim por diante. Por isto, as formas das coisas materiais nunca são completamente aniquiladas, nunca voltam ao nada: estão como que guardadas na potência da matéria.

3. Concluindo.

Vivemos sob o signo do amor que nos criou e nos sustenta. Este mesmo amor, num dado momento, foi radicalmente rejeitado por nossos primeiros pais, mas encarnou-se, morreu por nós e nos salvou. Quanta coisa linda para contemplar!