1. Introdução.

Vimos no artigo anterior que Deus pode, de fato, reduzir as criaturas ao nada. É parte da sua liberdade. Mas a pergunta que se impõe é: será que Deus efetivamente já aniquilou alguma criatura?

Esta é uma questão interessantíssima, porque, dentre as criaturas inteligentes que criou, tanto dentre os anjos como dentre os seres humanos, vimos o abuso mais escancarado da liberdade, para pecar. E, ainda assim, vemos que o Diabo está por aí, como também os seres humanos.

Mas, por outro lado, vemos, a cada momento, coisas sendo geradas e perecendo. Seres virando comida de outros, seres sendo desintegrados por forças descomunais, enfim, coisas desaparecendo. Neste ponto, sabemos que nada se perde nem surge, mas tudo se transforma, como dizia Lavoisier; mas sem dúvida, para o ente que perece, como o animal que é comido por outro, isto parece muito com ser aniquilado ao nada. Este debate será feito, também, neste curto artigo. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, para provocar o debate, propõe que alguns entes já foram efetivamente reduzidos ao nada, destruídos, por Deus, após serem criados. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Há um velho ditado filosófico que diz que o fim sempre corresponde ao princípio. Ora, no princípio era o nada. Só Deus existia, como substância total e infinita. É como se tudo mais, o conjunto todo das criaturas, existisse apenas como uma bolha de sabão efêmera, prestes a desaparecer de volta no nada, como uma ilusão de existência, frente a um Deus que é a única existência real. Assim, no fim, tudo seria aniquilado, reduzido ao nada, e somente Deus subsistirá em sua substancialidade infinita, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Toda criatura tem, em si, capacidades limitadas. Mas nenhuma capacidade limitada pode se estender infinitamente: por definição, tudo o que é limitado tende a se esgotar e a voltar ao nada de onde saiu, porque não pode permanecer indefinidamente. Assim, tudo irá, em algum momento, voltar ao nada, e portanto ser aniquilado é o destino de todas as coisas, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Não existem apenas criaturas substanciais, compostas de matéria e forma. Existem coisas que são apenas formas, como também existem entes que são apenas acidentes; dentre os entes puramente formais, poderíamos citar as espécies de animais; as espécies não têm matéria, apenas os espécimes, os indivíduos daquela espécie, a têm. Como exemplo de acidente, citaríamos a cor preta do meu cabelo. Ora, há espécies que simplesmente desaparecem, voltam ao nada, quando todos os espécimes desaparecem, por algum tipo de extinção em massa. É o caso de inúmeras espécies de dinossauros, das quais nem temos notícias, porque não chegaram sequer a deixar restos fossilizados. Ainda que a matéria que compunha seus corpos possam ter se transformado, por exemplo, em petróleo, sua forma se perdeu para sempre no nada. E também é o caso de certos acidentes: à medida que envelheço, a cor preta do meu cabelo desaparece e dá lugar ao branco. Logo, formas e acidentes podem ser reduzidas ao nada em algum momento, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O artigo introduz, agora, um argumento contrário à hipótese inicial, que nos impede de simplesmente aceitá-la; normalmente é um argumento com muita autoridade. Neste caso, é retirado das Escrituras Sagradas. Vem de Eclesiastes 3, 14: “Reconheci que tudo o que Deus faz dura para sempre”. Ora, se tudo o que ele faz dura para sempre, e se foi ele que fez a criação e todos os seres, então devemos concluir que nada volta simplesmente ao nada, mas, no jogo de transformações, a criação se mantém sempre em sua integralidade, conclui o argumento.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Eu aprendi que todas as obras que Deus fez perseveram para sempre.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Existe a ordem da natureza: ela está inscrita nas coisas mesmas, de tal modo que, conhecendo a natureza das coisas, podemos saber o que elas são e a que se destinam. A natureza das coisas é inteligível, e revela aquilo que Deus tem reservado para elas.

Existe, também, a ordem da graça, que é miraculosa frente a natureza. Quanto a esta, não podemos deduzir o que Deus fará: ele fará o que for conveniente à salvação das pessoas e ao fim sobrenatural das criaturas. Mas não é disso que estamos tratando aqui: tratamos da ordem natural, e da sua conservação.

Hoje, muito mais do que no tempo de Tomás, sabemos que, na natureza, nada se perde e nada se cria, tudo se transforma; esta é a célebre lei da conservação da matéria, formulada pelo cientista Lavoisier no século XVIII. É dela que estamos tratando aqui: a natureza se conserva, as coisas não são reduzidas ao nada quando se corrompem.

É preciso, porém, ter algum cuidado, para lidar com este princípio, e Tomás o tem. O primeiro cuidado é saber que esta lei da conservação não é oponível a Deus. Mas é garantida por Deus. Ela poderia ser formulada assim: Nada se perde, porque tudo o que foi criado por Deus é conservado na existência por Deus, por seu amor, embora ele pudesse – e possa – reduzi-las ao nada a qualquer momento. Mas ele não o faz.

Isto não significa também, como querem alguns filósofos de hoje em dia, que a matéria seja a única realidade substancial, e todas as coisas sejam apenas organizações acidentais da matéria, de tal modo que toda a realidade criada é apenas um acidente ocasionado pelo acaso e pela seleção, e todos os entes são meras reuniões circunstanciais da matéria. A matéria é o substrato da existência, ensina Tomás, mas as coisas são reais, surgem por geração e extinguem-se por degradação, de tal modo que a mesma matéria que as compôs comporá em seguida alguma nova coisa gerada. Por isto, ainda que as coisas materiais se destruam, não voltam ao nada, porque sua matéria permanece para compor outra coisa.

E as coisas são assim porque Deus as fez assim e as conserva assim. O universo criado não é uma máquina que funciona por leis rígidas, mas uma expressão permanente do amor de Deus que as sustenta de modo amoroso e ordenado a cada momento.

Na prática, pode parecer indiferente defender que a estabilidade e a conservação do universo seria o resultado de leis cegas e impessoais que conduzem automaticamente as coisas, por um lado, ou resultado do amor consciente, consistente e pessoal de Deus, que as mantém com regularidade e ordem, mas por deliberação a cada momento. Mas ocorre que existe, aí, toda uma diferença em crer que a base da existência é de mecanismo cego ou de amor pessoal e permanente. As evidências se inclinam para a segunda hipótese, que, para os que sabem contemplar, é muito mais do que uma mera hipótese; e isto deveria encher nossos corações de alegria.

6. Encerrando.

Nada será reduzido ao nada. Lavoisier está certo quanto a isso. A quantidade de massa existente no universo permanece constante, mesmo diante da transformação das coisas materiais. Mas isto não em razão de uma lei cega e mecânica. Isto decorre do amor eterno, permanente e cuidadoso de Deus.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais.