1. Retomando.
Deus pode nos aniquilar. Sua onipotência inclui este poder. Isto deve sempre ser lembrado, porque só a dimensão do seu poder permite compreender a dimensão do seu amor.
Vimos, no último texto, que a hipótese inicial propunha justamente o contrário: aniquilar-nos, reduzir-nos ao nada, seria algo além do poder divino: após criados, teríamos verdadeiro direito a continuar existindo, e nem Deus poderia mais nos aniquilar. Vimos três argumentos que tentavam comprovar esta hipótese, e um argumento contrário que citava a Bíblia para refutar aquela hipótese.
Agora, examinaremos as respostas do próprio Tomás sobre este assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Há quem imagine que Deus tinha necessidade de nos criar. Ainda hoje, 800 anos depois do tempo de Tomás, ainda há quem defenda isto: Deus é obrigado a ser bom, é obrigado a amar, e portanto é obrigado a nos criar e a nos manter existindo, e não é livre para não nos criar ou para não nos manter existindo.
Mas, como vimos quando estudamos a liberdade de Deus e a sua criação gratuita e livre, isto não é verdade. A fé católica nos ensina que Deus é plenamente livre, ele nos cria porque quer, e seu amor não pode ser compelido nem exigido. Isto está nas Escrituras, que ensinam: “O Senhor faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 134, 6).
Assim, criar é algo que Deus faz livremente, por amor, como também manter as criaturas na existência. Ele cria porque quer, e nos mantém na existência porque quer, uma vez que está em seu poder nos aniquilar de volta ao nada, num piscar de olhos. Meditar isto, contemplar esta verdade, dá noção da magnitude do amor de Deus por nós: é porque Deus ama que há alguma coisa e não o nada.
6. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
o primeiro argumento objetor, como lembramos, cita Santo Agostinho para propor que Deus nunca é causa de alguma tendência ao não-ser. Ora, ele seria uma causa deste tipo, caso viesse a reduzir alguma criatura ao nada. Assim, diz este argumento, Deus não pode reduzir nenhuma criatura ao nada.
A resposta de Tomás.
O nada não tem causas. É preciso lembrar esta verdade filosófica, tão importante para a fé. A tendência ao não-ser não precisa ser causada, porque o não-ser, uma vez que não é, não tem causas. A causa sempre explica algum movimento, alguma composição de alguma coisa que efetivamente existe. Assim, o nada não causa nada, e a tendência ao nada não é causada por nada nem por ninguém. Na verdade, o que acontece é que as criaturas vieram do nada, e portanto precisam de causas para existir; para voltar ao nada não precisa nenhuma causa: basta que as causas de sua existência cessem. Neste sentido, Deus não é causa de nenhuma inclinação para o não-ser. Mas se ele parar de manter as criaturas no ser, na existência, elas voltam ao nada de onde saíram – e, neste sentido, dizemos que Deus, circunstancialmente, poderia causar o não-ser das criaturas, se escolhesse livremente não as conservar mais na existência. Neste sentido, a causalidade para o nada é apenas acidental, no sentido filosófico da palavra “acidente”: aquilo que resulta indiretamente de alguma causa essencialmente dirigida a outro fim.
O segundo argumento objetor.
É por causa da bondade de Deus que todas as coisas existem. Mas a bondade de Deus não é acidental, no sentido de ser algo acrescentado a Deus. Ser bom é a própria essência de Deus, de tal modo que, nele, ser Deus e ser bom são a mesma coisa. Assim, uma vez que não faz sentido imaginar que Deus possa deixar de ser bom, não faria sentido imaginar que ele escolheria nos reduzir ao nada, porque isso seria contraditório com a sua bondade essencial, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não podemos imaginar que a bondade de Deus seja uma espécie de “força automática”, um impulso natural a que ele seja sempre e permanentemente bom no sentido que nós imaginamos. Como se Deus fosse obrigado a sempre ficar fazendo necessariamente aquilo que achamos bom, pelo fato de que a bondade dele é infinita. As coisas não funcionam assim: na verdade, a bondade de Deus envolve sua infinita liberdade: ele é livre para ser bom como quer e quando quer. E cada gesto que manifesta sua bondade é bom no sentido pleno, porque ele é o padrão da própria bondade. Por isso, Deus pode criar algo, e isso será absolutamente bom; ele pode não criar algo, e isso será, também, absolutamente bom. E, por fim, se ele reduzisse alguma coisa já criada ao nada, isso também seria infinitamente bom. Por isso, a bondade de Deus não entra em contradição com sua capacidade de reduzir as coisas ao nada.
O terceiro argumento objetor.
Para nos reduzir ao nada, Deus teria que agir sobre nós. Mas toda ação sempre ocorre sobre algum objeto, no qual se inicia e termina. Assim, mesmo uma ação aniquiladora não poderia ter como termo final o nada: como o incendiário, que põe fogo na madeira, produz cinzas como resultado final de sua atuação – a aniquilação da madeira pelo fogo é a geração das cinzas. Assim, não poderia existir uma ação de Deus que reduzisse alguma coisa ao nada, mas apenas uma atuação que a destruísse e fizesse surgir alguma outra coisa no lugar, propõe o argumento.
A resposta de Tomás.
Não podemos descrever um hipotético gesto de Deus que aniquilaria, que reduziria alguma criatura ao nada, como uma “ação”, no sentido de uma intervenção modificadora da realidade. Na verdade, a ação de Deus é a conservação das coisas na existência. Assim, sua redução ao nada decorreria, na verdade, de uma cessação da ação sustentadora de Deus.
7. Concluindo.
Deus escolhe nos criar. Ele escolhe, a cada momento, nos manter existindo. É exatamente a consideração de que as coisas poderiam ser diferentes, que Deus poderia não ter nos chamado à existência, que ele poderia a cada momento nos deixar voltar ao nada do qual saímos, que deve mover nossa gratidão mais profunda. Deus não precisa de nós. Ele nos quer.
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