1. Introdução.
Eis aqui mais uma dimensão interessantíssima da relação de Deus com o universo criado, e com cada um de nós, criaturas suas: não adquirimos, pela criação, o “direito de existir”; existimos porque ele nos cria por amor, e por amor nos sustenta a cada instante. Isto significa que tudo poderia ser reduzido ao nada instantaneamente, se Deus não quisesse manter tudo na existência. A consequência de discutir isto é maravilhosa: a um só tempo, nossa existência se dá por decisão livre dele, e nossa permanência é uma prova de que ele nos ama agora mesmo e nos quer existentes. Por outro lado, por nos amar, ele quer que sejamos consistentes; quer dizer, não somos mera ilusão de existir, como pregam algumas filosofias e religiões orientais. Mas não somos fruto do acaso, nem máquinas autônomas. É um equilíbrio delicado e maravilhoso: Deus nos mantém por amor, mas pode a cada momento, não nos manter. De direito, pode sempre nos aniquilar. De fato, cada instante em que existimos é um momento de puro amor, de pura doação que ele nos concede.
É preciso, pois, admitir que Deus pode nos aniquilar, nos devolver ao nada; mas não o fará, porque nos ama.
É este o debate no presente artigo. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial é polêmica, e visa justamente provocar o debate. Trata-se de propor que não está nas mãos de Deus o poder de nos aniquilar, de nos reduzir de novo ao nada do qual viemos. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Para tentar comprovar a hipótese controvertida, o primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que afirma que Deus nunca é causa de alguma tendência ao não-ser. Ora, ele seria uma causa deste tipo, caso viesse a reduzir alguma criatura ao nada. Assim, comprovado está, diz este argumento, que Deus não pode reduzir nenhuma criatura ao nada.
O segundo argumento objetor.
Deus é a causa da existência de todas as coisas, por sua bondade. Existimos porque Deus é bom, como diz Santo Agostinho. Mas a bondade de Deus não é um acidente nele: é a Sua essência mesma, de tal modo que, nele, ser Deus e ser bom são a mesma coisa. Assim, do mesmo modo que existimos pela bondade de Deus, se ele não pode deixar de ser bom, então não pode deixar de nos criar e nos manter na existência. Assim, não tem poder para nos reduzir ao nada, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Para nos reduzir a nada, diz o argumento, Deus teria que exercer algum tipo de ação sobre nós. Ora, ocorre que todo tipo de ação sempre tem como finalidade algum ser; mesmo as ações destruidoras devem iniciar-se num determinado ser e finalizar transformando-o em outro ser, como o incendiário transforma a madeira em carvão. Destruir alguma coisa, portanto, sempre implica gerar outra. Logo, se Deus nos destruísse, isto nos transformaria em algo diferente do que somos, mas não nos reduziria ao nada. Assim, Deus não tem o poder de nos reduzir a nada, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento que se coloca contrariamente à hipótese inicial encontra fundamento na própria Bíblia para rejeitá-la. De fato, Jeremias, em oração (10, 4) diz o seguinte ao Senhor: “Castigai-nos, Senhor, mas com equidade, e não com furor, para que não sejamos reduzidos ao nada”. Ora, esta oração, que faz parte da Revelação divina, só teria sentido se Deus tivesse o poder – como de fato o tem – de nos reduzir a nada, e portanto a hipótese inicial está errada, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Há quem imagine que Deus é bonzinho, ou seja, que ele é obrigado a agir como queremos, como imaginamos que ele deveria agir, sob pena de não acreditarmos nele. Nada mais falso. Não é Deus que deve se adaptar ao nosso padrão de bondade: nós é que precisamos conhecer a bondade dele. Ele é Deus, e sempre poderia fazer tudo diferente. Examinando tudo o que ele faz, descobrimos o que é a bondade absoluta. Neste caso, o poder absoluto de nos aniquilar revela a infinitude de seu amor a nos sustentar.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
Deixe um comentário