1. Introdução.
Deus não é um tirano. Ele é o existente, ele é a própria existência, à qual nos convidou a participar. Mas o ingresso não é individual: ele é Pai Nosso, isto é, pai da multidão, e por isso pai de cada um. Assim, faz sentido que, mesmo na inexistência de lei revelada prévia, ele tenha perguntado a Caim: “onde está o teu irmão?” (Gn 4, 9). A resposta de Caim, que demonstra como o ser humano, caído no pecado, não internaliza a noção do cuidado pelo outro, é talvez a resposta que damos, hoje, quando Deus nos cobra o cuidado pelo outro e pela Casa Comum: “por acaso sou guardador do meu irmão?” Sim, Caim, tu és. E já o eras quando o mataste.
Portanto, Deus partilha com todas as coisas (conosco também) a conservação comum do universo criado; o Papa Francisco tem insistido muito neste tema, diante de uma progressiva e grave deterioração ambiental – e também cultural, por aquilo que São João Paulo II chamava de “cultura da morte”.
O fato, portanto, de que Deus nos cria imediata e diretamente, e que ele nos ama e conserva imediata e diretamente não exclui o fato de que as coisas se relacionam na conservação recíproca, como ele permite. E isto demonstra que temos uma enorme responsabilidade pelo mundo.
Com estas coisas em mente, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
A criação e a conservação não são coisas diferentes. Deus conserva porque cria, e a conservação não é senão a dimensão permanente da própria ação de criar. Ora, criar é uma ação privativa, direta e imediata de Deus perante as criaturas. Portanto, conservá-las na existência, sendo um prolongamento da própria criação, também deve ser uma ação privativa, direta e imediata de Deus para com as criaturas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É verdade que criar, ou seja, chamar do nada à existência, é algo privativo de Deus. E também é verdade que conservar na existência não é algo essencialmente diferente de criar, mas é como que uma extensão da própria atividade criadora. Mas ela não é simétrica, neste particular, com o gesto de criação: o gesto de criação é privativo de Deus, e não inclui, é claro, as criaturas, pelo simples fato de que, antes de serem criadas, elas ainda não existem. Mas a conservação pressupõe a existência das criaturas, e portanto permite envolvê-las de tal modo que umas dependam das outras para se manter na existência. Assim, embora fundamental e primariamente todas as coisas dependam de Deus, e somente dele, para existir e se manter na existência, há a participação, secundária e derivada, de todas as criaturas no processo de conservação do universo e de todas as coisas; esta participação não retira a imediatidade da ação conservadora de Deus e, na verdade, a pressupõe mesmo.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor inicia com a ideia, óbvia, de que nada pode ser mais próximo de si mesmo do que a própria coisa. Ora, prossegue o argumento, nenhuma criatura pode receber de Deus o poder de conservar-se a si mesma na existência. Portanto, com maior razão, não poderia receber o poder de conservar as outras coisas na existência. Assim, o poder de conservar na existência é privativo, direto e imediato de Deus, sem mediação de nenhuma causa criada, afirma o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqui, precisamos retomar a noção de causa própria. Causa própria é aquilo que faz resultar, como causa principal, determinado efeito. Assim, a faca é causa própria do corte, mas é causa acidental de queimadura se estiver aquecida no fogo. À causa própria cabe não somente ocasionar, como também conservar aquilo que ocasionou. Neste sentido, apenas Deus é causa própria da criação, então apenas Deus é conservador em sentido próprio.
Quanto Às outras coisas, é claro que nada pode ser causa de si mesmo; logo, nada pode ser causa própria de si mesmo. Então nada pode ter o poder de ser o principal conservador de si mesmo. Mas pode participar na conservação de tudo o que lhe circunda. Assim, nada impede que as coisas participem na conservação das outras coisas.
Acrescentaríamos que, de certo modo, ao conservarmos todas as coisas, também conservamos, em última instância, a nós mesmos, já que dependemos, por outro lado, das outras coisas para sobreviver. Mas isto é apenas um efeito indireto da nossa atuação na conservação das outras coisas.
O terceiro argumento objetor.
A criação implica um tipo de causalidade que não é transformação, mas é verdadeiramente um chamar à existência. Somente Deus pode causar a própria existência das coisas, a partir do nada. Todas as outras atividades, inclusive as atividades chamadas de “criadoras” (o trabalho humano, por exemplo), são, na verdade, apenas transformadoras, porque sempre pressupõem alguma coisa preexistente que será transformada – por exemplo, o artesão precisa do barro para fazer seus vasos. Ora, se as causas segundas não são causas de existência, tampouco podem ser causas de conservação. Assim, somente Deus conserva tudo na existência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, nenhuma criatura pode fazer surgir alguma coisa do nada; as criaturas atuam transformando as outras coisas, mas sempre se pressupõe que exista alguma coisa a ser transformada. E, uma vez transformada, de fato a coisa transformada segue sendo o que é, sem nova intervenção e de modo independente da causa transformadora. Vimos isto no exemplo do construtor de casas: uma vez que os materiais de construção preexistentes são organizados de modo a constituir a casa, o construtor já não a mantém na existência, porque ela pode existir sozinha. Sob este aspecto, poderíamos de fato concordar que as criaturas não colaboram com Deus na manutenção da existência das outras criaturas, mas apenas na sua transformação.
Mas isto não esgota o nosso problema: de fato, há transformações que dependem da permanência da causa para sua conservação: pensemos, por exemplo, naquela sala que depende da lâmpada para permanecer iluminada. A iluminação, para ser conservada, precisa que a lâmpada permaneça acesa. Assim, por exemplo, para que o ar permaneça puro e respirável para os animais, é preciso que haja plantas fazendo fotossíntese; para que uma floresta se conserve sem que se degrade pela superpopulação de herbívoros é preciso que haja carnívoros, e os exemplos podem se multiplicar. Assim, podemos concluir que as outras criaturas podem ser responsáveis secundárias pela conservação das transformações necessárias para que a dinâmica da existência se mantenha.
3. Conclusão.
Uma grande rede de amparo recíproco, sustentada pelas mãos de Deus. Belíssima concepção da existência, da conservação do universo criado.
Deus cria, Deus conserva. Mas será que Deus poderia destruir? Veremos no próximo texto.
Deixe um comentário