1. Introdução.
No seu magistério, o Papa Francisco tem sempre usado a categoria da casa comum, para se referir às condições que permitem a conservação da vida e do equilíbrio natural e ecológico. Parece claro que todas as coisas estão interligadas, e, a partir do debate que se estabelece neste artigo da Suma, veremos que esta interligação é mais profunda do que pode parecer à primeira vista: as coisas estão todas ligadas entre si e com Deus, e é esta conexão – em primeiro lugar, com Deus, e em segundo lugar com todas as outras coisas – que permite que tudo seja conservado na existência.
Uma imagem conveniente para compreender este mistério é, mais uma vez, ver a criação como uma grande orquestra, regida pelo compositor. De fato, somos a música de Deus; mas a música só existe porque todos os instrumentos estão tocando em harmonia e atentos à condução do maestro. De modo absoluto, sem o compositor e maestro não haveria música, masa música se conserva, em primeiro lugar, porque ele rege a orquestra, mas, em segundo lugar, porque cada instrumento da orquestra emite seu som, de modo a possibilitar que a orquestra inteira soe adequadamente. Por isto, podemos dizer que, primeiramente, a manutenção da sinfonia se deve ao nosso compositor e maestro, mas em segundo lugar a sinfonia prossegue porque todos tocam, seguindo o regente, de modo a fazê-la existir em sua inteireza.
Passemos então ao exame do artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é a de que apenas Deus, apenas Ele isoladamente, é responsável, direta e imediatamente, pela conservação da criação e de todas as coisas na existência. Assim, as coisas criadas não seriam sequer partícipes neste processo de conservação da criação na existência, mas cada coisa – e o conjunto da criação – seria sustentada na existencia direta e exclusivamente por Deus, sem qualquer auxílio ou intervenção, mesmo secundária, das outras criaturas. Há três argumentos no sentido desta hipótese inicial, que tentarão comprová-la.
3. Os argumentos objetores iniciais.
Como já sabemos, os argumentos objetores iniciais tentam, de modo parcial e tendencioso, comprovar integralmente a hipótese inicial. Em seguida, haverá um argumento contrário (sed contra) que tentará afastar a hipótese inicial, e somente com a resposta sintetizadora de Tomás é que a situação do debate se completará.Vamos examinar, agora, os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Deus cria imediatamente, e do nada, todas as coisas que existem. Ele não precisa da colaboração das outras criaturas, ele não precisa de nenhum material preexistente; ele simplesmente chama as coisas à existência, e elas passam a existir. Ora, o modo de criar é o mesmo modo de conservar na existência, como vimos nos artigos anteriores. Se Deus cria direta e imediatamente, sem intermediários e sem contar com o concurso das outras coisas, então de modo simétrico ele deve reger todas as coisas direta e imediatamente, sem o concurso das outras coisas criadas, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Nada pode estar mais perto de alguma coisa do que ela mesma. Nada pode ter com ela uma relação mais direta, mais imediata. Ora, Deus não concede às coisas que conservem a si mesmas, mas mantém em suas mãos o poder de conservá-las. Ora se nada pode conservar a si mesmo, embora seja tão imediata a si mesma, com muito mais razão Deus não delegaria a umas coisas o poder de conservar outras, colaborando com ele. Logo, Deus conserva direta e imediatamente todas as coisas, sem nenhuma participação das outras coisas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Vimos, no artigo anterior, que as coisas criadas não são causas da existência pura e simples de outras coisas, mas apenas causas de sua geração e transformação – como no caso dos pais que, para gerar, dependem das células sexuadas e da matéria externa, e mesmo do construtor, que depende dos materiais de construção para erguer a casa. Portanto, as coisas criadas não têm o poder de dar a própria existência às outras coisas, mas apenas, a partir de coisas já existentes, provocar a geração e a transformação. Ora, se não podem dar a existência, tampouco podem mantê-la. Logo, Deus é o único responsável pela conservação das coisas criadas em sua existência, de modo direto e imediato, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Como sabemos, o argumento sed contra traz as razões pelas quais não podemos simplesmente aceitar a hipótese controvertida inicial, aduzindo algum motivo que impede essa aceitação.
No presente caso, o argumento aduz que as coisas são conservadas na existência da mesma maneira pela qual elas vêm à existência. Assim, diferentemente das primeiras coisas que foram criadas diretamente por Deus, mencionadas nos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis, todas as coisas que existem hoje surgiram por geração, isto é, por meio da participação das causas criadas, que são secundárias com relação à causa primária que é o próprio Deus. Ora, se a existência dessas coisas teve a participação das demais coisas criadas, de modo simétrico a sua conservação na existência também deve envolver as outras coisas, como causas secundárias nesse processo de conservação, conclui o argumento.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Como vimos no artigo anterior, há dois sentidos para a noção de “conservar na existência”. O primeiro sentido é a conservação acidental, que envolve a vigilância e o afastamento de causas externas de destruição. Neste sentido, podemos dizer que o sal conserva a carne, ou que um pastor conserva suas ovelhas.
Mas há um outro sentido, mais substancial, para a noção de conservar na existência: trata-se de manter a coisa existindo, sendo alguma coisa, subsistindo, mantendo-se fora do nada.
Há, aqui, que se notar um emaranhado de causalidades no universo criado. É claro que, em última instância, Deus mantém tudo no ser, mantém todas as coisas existindo, e o faz diretamente, porque ele tem acesso a todas as coisas criadas, de maneira imediata. Deus não se esconde das coisas, não delega sua própria divindade. Neste sentido ele é – e continua sendo – Emanuel, Deus conosco. Deus que está presente a toda a sua criação.
Mas é claro que ele criou o universo de um modo tal que nada existe sozinho, como que ligado umbilicalmente a Deus e a mais nada. Sem as forças de todo o universo, como as forças gravitacionais e eletromagnéticas, sem o equilíbrio cósmico, sem a energia do sol e das estrelas, sem a atmosfera adequada para respirar, sem a cadeia alimentar que envolve todos os seres vivos, nada subsistiria. Quanto a nós, humanos, não existiríamos sem história, sem cultura, sem povo, sem famílias.
É neste sentido, portanto, que as causas secundárias participam da conservação de todas as coisas no ser. Dependemos primária e fundamentalmente da conservação que vem de Deus, e que nos mantém fora do nada. Mas dependemos, secundária e derivadamente, de todas as coisas do universo: mais fundamentalmente daquelas forças mais gerais e universais, como a gravidade e as forças físicas em geral, mas, de modo igualmente importante, das nossas relações naturais e sociais.
Esta relação não foi desconhecida mesmo nas antigas culturas. O próprio Aristóteles já notava o quanto dependemos das forças universais, do movimento do sol e das estrelas e de toda a relação natural e social para existir.
6. Encerrando.
É neste sentido que, como uma orquestra, a bela música da criação depende fundamentalmente do compositor e regente, mas depende também de que todos os instrumentos estejam preservados e afinados e sejam bem executados pelos outros músicos.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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