1. Para finalizar.
Artigo longo e interessante. Deus existe, somente ele é a existência. Mas, quando nos cria, não nos dá a existência divina, que é a existência por essência. Não somos deuses, nunca fomos. Existimos apenas num sentido análogo, derivado, causado, sempre dependente e vinculado à existência divina. O panteísmo é falso: existe Deus, que é o existente, e, por sua misericórdia, somos mantidos na existência por ele. São, portanto, coisas diferentes: como a palavra que pronuncio quando converso com alguém, e que desaparece quando a conversa se encerra, nós somos “palavras criadas” de Deus. Nem sequer somos palavras no sentido pleno, porque o nosso significado não está em nós, mas em Jesus. Somos criaturas. Dependemos estritamente dele, umbilicalmente, para que sejamos, num sentido análogo, derivado, aquilo que ele é no sentido próprio, originário.
Tudo isso parece muito teológico e complicado, mas a falta da compreensão dessas coisas leva a muitos equívocos de fé, como o próprio panteísmo, já mencionado; precisamos ler e reler sempre, meditar tudo isto com calma.
Examinemos agora os dois últimos argumentos iniciais, que tentam provar a hipótese de que não dependemos permanentemente de Deus para nossa existência, e as respostas de Tomás a eles.
2. Os dois últimos argumentos objetores.
O terceiro argumento objetor.
Existem dois tipos de movimento, na natureza: os movimentos naturais, pelos quais os entes se encaminham aos seus próprios fins, que são, em suma, o que é bom para elas, e os movimentos violentos, em que alguma causa externa desvia o ente de seus movimentos naturais. Ora, prossegue o argumento, todo ente tende naturalmente a permanecer na existência, de tal modo que apenas um elemento externo pode causar sua degradação, corrupção e destruição final: toda morte é, portanto, em algum sentido, violenta, porque sempre depende de um fator externo que a cause.
Ocorre que há entes que não estão sujeitos a fatores externos de degradação, dentre os quais destacam-se os entes de razão, como as ideias e as leis naturais, e os anjos, que são entes vivos imateriais. Assim, estes entes não precisam, para continuar existindo, de nenhuma atuação permanente e externa de Deus que os conserve: eles simplesmente continuarão a existir para sempre, em razão de sua natureza mesma. Logo, Deus não age mantendo todas as criaturas permanentemente na existência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Como vimos na resposta sintetizadora de Tomás, no primeiro texto sobre este artigo, há dois sentidos pelos quais falamos que Deus “conserva” as coisas na existência; primeiro, protegendo-as daquilo que as pode destruir, por sua vigilância permanente sobre nós. De fato, no próprio jogo de forças do universo, algumas vezes as coisas serão destruídas por outras, porque isto faz parte da própria dinâmica da natureza; além disso, alguns entes simplesmente não estão submetidos ao jogo de destruição: lembremos, por exemplo, que nós, seres humanos, no atual desenvolvimento da tecnologia, não somos capazes, por exemplo, de fazer explorações lesivas em planetas distantes. Lembremos, também, que os anjos não estão sujeitos a este tipo de destruição, e portanto o cuidado de Deus, para eles, quanto a este tipo de perigo, é desnecessário. Mas não é neste sentido, que é um sentido “fraco”, que estamos tratando aqui.
Aqui, tratamos de outro sentido: de que, sem a atividade permanente e positiva de Deus, as coisas criadas não existiriam, e as existentes sucumbiriam no nada. É deste sentido de conservação, o sentido forte, que estamos falando aqui.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor pondera o seguinte: para debatermos se Deus age de modo permanente para conservar efetivamente todas as coisas na existência, então estamos tratando de algum tipo de ação de Deus. Mas toda ação de Deus relativamente à criatura causa um resultado na criatura. Então teríamos que investigar que tipo de resultado é este, que esta ação conservadora contínua de Deus causa na criatura. O resultado não poderia ser fazer com que a criatura exista, porque a criatura só pode se manter na existência depois que já existe. Por outro lado, o resultado não pode acrescentar alguma coisa às criaturas existentes, porque, neste caso, não estaríamos falando de manter, mas de aumentar a criatura. Mas quem aumenta não mantém simplesmente, mas acrescenta. Tampouco o efeito dessa ação permanente de Deus poderia ser que ele retirasse alguma coisa da criatura, porque neste caso ele não estaria conservando, mas diminuindo. Assim, uma vez que não há nenhum efeito efetivo de uma suposta atuação de Deus, deve-se concluir que ele não age permanentemente sobre as criaturas, para mantê-las na existência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não é por alguma ação nova, por algum agir acrescentado ao próprio agir criador que Deus mantém permanentemente a criação na existência: é o seu fluxo criador que se mantém permanentemente, como o sopro do flautista mantém a nota soando, ou o brilho da lâmpada mantém o ambiente luminoso. Não podemos pensar que Deus cria como um estalo, um gesto mágico que cessa, ao incidir sobre o mundo. Ele cria retirando do nada e mantendo permanentemente na existência, por um mesmo e inseparável ato. Assim, o argumento não procede.
3. Concluindo.
Deus é outro, com relação à criação. Mas não é estranho a ela: ele é o fundamento permanente pela qual ela existe.
Compreender isto é entender que a criação não é um mero gesto, mas uma relação de amor.
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