1. Breve retomada.
A existência, em sentido próprio, quer dizer, o próprio ser, pertence a Deus e a Deus somente. Ele nos criou e nos mantém na existência; não somos confeccionados a partir de matéria preexistente, nem sequer gerados e formados por matéria preexistente: a própria matéria só existe porque participa da existência que é Deus. É preciso que Deus nos conceda, instante a instante, a existência, para que continuemos a existir.
Com isto em mente, vamos examinar os argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás nos apresenta.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Há entes, criaturas, que não têm a tendência à destruição, ao desaparecimento, à morte. De fato, ser destruído ou morrer é um processo de separação dos elementos que constituem o ente: a forma e a matéria. No caso dos seres vivos, o corpo perde a estrutura que chamamos de alma, e que é a forma que o torna vivo. O corpo sem alma não sobrevive, e por isto o ente se destrói. Mas mesmo nos entes inanimados, a perda da forma, da estrutura, leva à destruição: imaginemos que uma grande rocha vem a ser esfarelada por um terremoto: a rocha já não existirá, porque perdeu sua estrutura; resta apenas areia no lugar. Assim, é a forma que torna um ser atual, quer dizer, efetivamente existente como aquilo: uma árvore deixa de ter estrutura de árvore quando é incendiada até as raízes: vira carvão, e morre como árvore.
Assim, aquilo que não possui a matéria como parte dos seus elementos não pode passar por nenhum processo de destruição e morte: pensemos nos anjos, que existem como puras formas que pensam em si mesmos. Não podem ser destruídos, porque não há matéria a ser separada da forma; são pura forma. Ora, aquilo que não pode ser destruído não precisa ser conservado. Logo, Deus não mantém as coisas na existência permanentemente, mas apenas protege, enquanto necessário, aquelas coisas que, sem sua proteção, poderiam ser destruídas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
As coisas existem atualmente por causa de sua forma; de fato, por exemplo, um bloco de mármore que ainda não foi esculpido é apenas um bloco de mármore, e ainda não existe como estátua. Do mesmo modo as coisas naturais: enquanto os gametas sexuados não se encontram, ainda não existe um filho, porque ainda não existe a sua alma. Mas é preciso observar que a própria existência da forma decorre de uma atuação mantenedora de Deus: se Deus não mantiver a alma em existência, ela simplesmente se dissolve. Isto vale até para os anjos: se Deus não os tivesse criado, e não os mantivesse existindo como seres espirituais, eles não poderiam existir. Uma analogia interessante seria o seguinte: se eu penso numa determinada figura geométrica abstrata, como um triângulo, ele existe na minha mente apenas enquanto está presente ao meu pensamento. Assim que deixo de pensar nele e começo a pensar em outra coisa, ele deixa de existir como ideia atual em minha mente. De modo similar, se Deus deixasse de manter os anjos, as leis naturais, as almas, as formas das coisas materiais, a própria matéria, em sua mente, por um instante que fosse, e se esquecesse de sua criação, tudo simplesmente desvaneceria, como um pensamento que já não temos.
Assim, não podemos confundir o processo de destruição e morte, que é um processo natural apenas para as coisas materiais, com o processo de existência mesma, mesmo para aquilo que é imaterial, que é completamente dependente de Deus.
O segundo argumento objetor.
Deus é mais poderoso do que qualquer criatura. Ora, muitas criaturas são capazes de criar coisas, como as formigas fazem formigueiros e os seres humanos fazem casas, que continuam existindo mesmo que os respectivos criadores desapareçam. As criaturas que produzem coisas, portanto, são capazes de produzir coisas que não dependem deles para continuar existindo, de tal modo que permanecem sem que necessitem de atenção constante dos criadores.
Se simples criaturas, que são muito menos poderosas do que Deus, conseguem criar coisas tão estáveis que são capazes de permanecer sem necessitar de atenção e cuidado permanente, com muito mais razão deveríamos imaginar que as obras de Deus, suas criaturas, são feitas com tal perfeição e estabilidade que podem permanecer existindo sem que ele precise mantê-las a cada instante na existência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A existência pertence a Deus. Criar pertence a Deus. Deus não pode transformar suas criaturas em não-criaturas, ele não pode deixar de ser o criador, ele não pode deixar de ser Deus. Ele não pode deixar de ser Deus, ele não pode deixar de ser o único existente por si mesmo, ele não pode criar outros deuses além dele mesmo. Assim, é por ser infinitamente mais poderoso do que as criaturas, e porque sua atividade criadora implica dar existência ao que não existia antes de modo nenhum, que não há analogia entre a atividade criadora de Deus e a arte das criaturas. As criaturas que modificam a realidade não dão a própria existência àquilo que fazem, mas apenas alteram o que já existe. Eis porque a analogia feita pelo argumento não procede.
3. Encerrando.
Deus faz existir. Nenhuma criatura faz existir as coisas. Assim, aquilo que Deus chama à existência continua dependendo dele para continuar existindo; a analogia, aqui, é com a imaginação humana: se pararmos de imaginar, de sonhar, de recordar, os pensamentos simplesmente somem. Mas a imaginação humana não cria nada efetivamente; mas o verbo de Deus nos cria.
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