1. Retomando.

Criar não é fazer alguma coisa a partir de matéria preexistente. Deus não é, nesse sentido, como um artesão que toma de matéria-prima para moldá-la como algo novo. Deus dá existência, o que significa que ele dá existência a cada momento, a cada instante da existência das coisas. A existência é toda dele, e sem ele, sem sua infusão permanente, não existiríamos. Assim, embora cada um de nós tenha sido gerado para a vida a partir dos gametas de seus pais, a nossa existência é criatural, isto é, vivemos como criaturas cuja permanência depende da atenção constante e incessante de Deus.

Este é um tema riquíssimo, e por isso merecerá um tratamento mais longo. Peço a paciência.

Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A resposta sintetizadora de Tomás, neste artigo, é muito rica – e um tanto longa. Vamos a ela.

Em primeiro lugar, e para evitar qualquer confusão, Tomás começa fazendo uma distinção necessária, face à ambiguidade da noção de “conservar”; há dois sentidos principais para a noção de “conservar na existência”, diz Tomás.

Os dois sentidos da noção de “conservar na existência”.

O primeiro sentido envolve o cuidado com aquilo que já existe, de modo a afastar dele os fatores naturais de degradação e destruição. Neste sentido, alguém que toma conta de uma criança, observando-a enquanto brinca, é responsável pela sua conservação, evitando que ela se aproxime de coisas perigosas que a possam ferir ou até matar. Neste sentido, a providência de Deus assiste as criaturas, dentro da ordem do bem universal, protegendo-as de danos ou agravos que podem provocar sua destruição injusta ou desnecessária. Mas este tipo de conservação não se estende até aquelas criaturas que não estão sujeitas a degradação ou destruição: Deus não precisa, por exemplo, proteger as ideias, os conceitos matemáticos ou os anjos; estes entes não sofrem ameaças naturais à sua integridade – e mesmo à sua existência.

Mas há um outro sentido no qual falamos da noção de conservação na existência: é quando aquilo que é conservado se mantém na existência em razão da própria atividade do mantenedor. Podemos pensar aqui numa nota musical emitida pelo violinista: somente enquanto o violinista mantém o arco em movimento sobre as cordas é que a nota existe. Cessando sua atividade musical, a nota também deixa de soar. É deste tipo de conservação, é neste sentido que estamos falando que Deus mantém todos os seres na existência. Se ele não estivesse atuando sobre nós, dando-nos a cada momento o existir, voltaríamos ao nada, como ensina São Gregório.

Para compreender mais profundamente esta situação, Tomás vai voltar à noção de causa, como ensinada na filosofia. Na relação entre as causas e os efeitos, diz Tomás, precisamos lembrar sempre que todo efeito depende de sua causa exatamente nos limites daquilo que a causa efetua sobre ele. Ora, quando examinamos a causalidade, no nosso mundo criado, vemos que as causas naturais das coisas não determinam a própria existência das coisas, mas apenas sua transformação. Isto tanto com relação a coisas naturais, quanto a coisas artificiais.

Isto parece muito teórico e abstrato, mas Tomás nos dá um exemplo bem esclarecedor:

Causando coisas artificiais.

Imaginemos que quero construir uma casa. Preciso, em primeiro lugar, de um terreno, isto é, de uma porção de terra adequada para a construção. Ademais, preciso de areia, cimento, água, ferragens, madeira, vidro e fiação; preciso de um arquiteto, que desenhe a estrutura da casa, e de construtores que sejam hábeis em arrumar todos os elementos na ordem adequada, para que a casa venha a ser. Portanto, a existência dos materiais e do projeto arquitetônico da casa devem preceder a própria existência da casa. E eu devo dizer que a existência física da casa não decorre da atividade de construção, mas dos elementos materiais e formais preexistentes a ela. Por isto, o construtor de uma casa é causa apenas do vir a ser da casa, ou seja, de sua organização e execução, mas não da sua existência mesma. O efeito “construção da casa” decorre da causa “construtor da casa” apenas quanto à execução da construção, mas não quanto à existência mesma, a existência física da casa. É por isto que, mesmo se o construtor vier a falecer, a casa não desaparece. De modo similar, o cozinheiro não faz a comida surgir do nada: ele apanha os ingredientes, combina-os com sua arte, submete-os ao calor do fogo e os transforma, causando a preparação da refeição. Mas a existência mesma da comida, como realidade efetiva, física, não decorre da atuação do cozinheiro. Ele não é causa da existência da realidade a ser comida. Se o cozinheiro vem a desaparecer após a refeição ser preparada, a refeição não desaparece.

Causando coisas naturais por reprodução.

Isto não é diferente de causar coisas naturais, diz Tomás; ou seja, de ser a causa do surgimento de outras coisas naturais, como os pais dão origem ao filho. Para estes casos, Tomás lembra o princípio filosófico: se um agente não é causa da própria forma de alguma coisa, ele também não é causa da própria existência dessa coisa. Mais uma vez, é uma afirmação bem abstrata, e examinar um exemplo deve ser mais esclarecedor.

Nós somos humanos. Mas, diferentemente da casa projetada pelo arquiteto, cuja forma é determinada por ele, o filho não recebe de nós sua estrutura: ele é humano porque nós somos humanos, e nós somos humanos porque nossos pais eram humanos, e assim por diante. A humanidade, como categoria abstrata, formal, não é inventada por nós. É recebida por nós.

Mas a reprodução faz com que transmitamos essa forma, essa categoria abstrata, aos descendentes, imprimindo-a na matéria. Isto é, no processo de reprodução, é um gameta masculino que se encontra com o gameta feminino e, a partir dessa matéria genética preexistente, se combinam para dar origem ao novo ser. Este novo ser será nutrido e amado pelos pais até nascer, e crescerá em humanidade e graça até a morte. Vale dizer: na reprodução, não somos origem nem da matéria, nem da forma, mas apenas do processo pelo qual o novo ser se origina. Por isso, o novo ser (seja uma nova planta, um novo animal ou um novo ser humano) recebe de nós apenas a oportunidade de existir e o processo de formação, mas não o próprio ser, a própria existência. É por isso que, mesmo que os pais morram, o filho permanece (dado que receba de outros o cuidado necessário para tanto).

Causando efeitos naturais de modo natural.

Mas as coisas naturais, como animais e plantas (e mesmo formações rochosas, e até corpos celestes) não dependem apenas do processo de reprodução para existir. Pensemos nas sementes de plantas: elas dependem da luz do sol, da água, do solo, ou seja, de diversos outros elementos que são causa direta de seu surgimento e desenvolvimento, sem ser causa direta da sua composição e estruturação. Uma semente plantada depende de outros fatores causais para germinar e brotar.

Mas há determinados fenômenos que não passam nem por um processo de confecção, como as coisas artificiais, nem de reprodução, como as coisas naturais; são fenômenos nos quais não apenas a forma, não apenas o processo de surgimento e desenvolvimento, dependem das causas, como nos casos especificados acima (a casa, quanto ao construtor e o filho, quanto aos pais). Aqui, a própria existência do fenômeno depende inteiramente da causa. Pensemos numa sala escura: não conseguimos enxergar nada, ali. Mas, uma vez acesa a lâmpada, as coisas se tornam visíveis aos nossos olhos. Ora, este efeito (pelo qual a luz torna as coisas visíveis) é algo cuja própria existência depende de uma fonte de luz permanente e ativa. Difere, portanto, tanto do processo de construção quanto do processo de reprodução. Aqui, cassado o efeito, cessa imediatamente a causa: o efeito só pode existir enquanto a causa estiver ativa.

Outro exemplo seria a música produzida pelo flautista: a própria vibração que gera a nota musical dura apenas enquanto o músico sopra o instrumento. A nota produzida depende inteiramente, para a sua existência, da atuação direta do músico. O exemplo do músico apenas torna mais evidente aquilo que se manifesta também na fala: a palavra falada só existe porque é pronunciada, e enquanto é pronunciada. Cessada a articulação da fala, cessa a própria existência da palavra.

Esta é, de modo análogo, a relação das criaturas com Deus: não são artesanato de Deus, não são construção de Deus feita com material preexistente, não são prole da reprodução de Deus; são como notas musicais. Ou, mais precisamente (para usar a imagem bíblica) são palavra pronunciada de Deus. É com esta imagem que a Bíblia narra a criação, no primeiro capítulo do Gênesis: Deus disse, e tudo foi criado.

Criação, palavra de Deus.

Somos palavra pronunciada de Deus. Deus está dizendo o mundo agora mesmo. Se ele deixasse de falar, se deixasse de nos pronunciar, de emitir a palavra que somos nós, sumiríamos no nada, como some no nada a palavra daquele que emudece. Somos palavra pronunciada; mas existe, em Deus, a Palavra eterna, o Filho, que é a fonte para a palavra pronunciada que nós somos.

Não e outra a lição do Evangelho de João (1, 3), quando nos ensina: no início havia a Palavra, e a Palavra estava em Deus, e a Palavra era Deus; no princípio ela estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito. Somos palavra pronunciada, que deixaria de existir se o falante se calasse.

A metáfora que Tomás nos traz aqui, a metáfora da luz do sol que ilumina, e que, cessada a fonte, faz cair a escuridão, talvez seja mais intuitiva para demonstrar a relação entre a ação de Deus e a nossa existência, no sentido de que, para nós, é muito fácil vislumbrar a escuridão que surge quando apagamos a luz. Isto faz intuir o que aconteceria se Deus deixasse de pronunciar nossa existência: desapareceríamos no nada, como uma sala escura da qual subitamente desligamos a lâmpada. Ou a fala daquele que emudece.

Assim, não somos produzidos, nem somos reprodução de Deus: somos palavras que ele fala. E palavras só existem enquanto são pronunciadas.

3. Encerrando.

Deus não é um arquiteto, nem sequer o “grande arquiteto” que nos projetou e já não precisa visitar a casa que construiu, entregue a outros donos. Esta é uma imagem equivocada. Tampouco ele é alguém que espalha sua própria prole por aí, como se nós fôssemos iguais em natureza a ele, como pensam tantos gnósticos e falsos místicos. Deus é Deus, a criatura não é Deus.

Somos palavra dita na Palavra Eterna. Longo discurso de amor, que, no caso da criação, começou no interior da própria Trindade, e por isso jamais acabará. Isto também é o que a Bíblia ensina.

Nos próximos textos examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.