1. Introdução.
Deus não é um super-herói ou uma entidade cósmica que vive em algum lugar do universo e tem poderes acima dos humanos, mas, ainda assim, poderes internos ao próprio universo. Deus não é uma coisa entre as criaturas, nem é um relojoeiro que, a partir de alguma matéria-prima já existente, cria um mecanismo qualquer que segue funcionando e cuja existência independe do criador. Deus é Deus, isto é, ele é transcendente ao universo, ele é a própria existência que fundamenta a existência de todas as coisas. Cada um de nós, embora tenha sido gerado por um ato unitivo de nossos pais, foi criado por Deus, no sentido de que é ele que dá e mantém a existência de tudo, momento a momento. Esta verdade foi expressada por Jesus quando afirmou: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também” (João 5, 17). Se Deus deixasse de me criar agora mesmo, eu voltaria ao nada do qual ele me tirou.
Mas não é assim que, muitas vezes, nós o vemos. Imaginamos, talvez que, uma vez criados, já não devemos nada a ele, e podemos existir por nossa própria conta. Não conseguimos perceber que é o próprio Amor que nos mantém vivos e respirando. É justamente com aqueles que pensam assim, que pensam que Deus é uma espécie de “arquiteto mor” que construiu um imenso mecanismo no qual ele já não precisa intervir nem manter, que o debate será travado, agora. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
O debate proposto parte da hipótese de que as criaturas não precisam que Deus as conserve, instante a instante, na existência. Como um arquiteto que faz uma casa, e cuja obra permanece mesmo que ele morra ou suma, a criação subsiste por si mesma sem necessidade de permanente atenção criativa de Deus, de acordo com esta hipótese. A criação seria, então, uma atividade pontual de Deus que estabelece o universo, mas, uma vez que este foi estabelecido, já não precisa de Deus para sustentá-lo, para fazê-lo prosseguir na existência. Deus criou, mas já não intervém nem precisa intervir, salvo por alguma atitude miraculosa que modifique pontualmente o rumo das coisas. O universo seria, assim, uma espécie de grande mecanismo subsistente e autônomo, já sem dependência de Deus.
Há quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Há coisas, diz o argumento, que não podem deixar de existir, porque não estão sujeitas à destruição. Na verdade, somente são destrutíveis aquelas coisas que são compostas de forma e matéria, como os seres biológicos em geral. Nós, humanos, os pássaros, as plantas, podemos ser destruídos, porque nossa matéria, que está em nosso corpo, pode desorganizar-se de tal modo a se tornar incompatível com a vida, e deste modo, nossa forma deixa de existir naquela matéria corporal.
Neste ponto, o argumento introduz uma discussão altamente filosófica: aquilo que é inerente à essência de alguma coisa pertence necessariamente a esta coisa, e o contrário não pode estar presente nela. O exemplo seria os números inteiros divisíveis por dois. Eles são sempre números pares, ou seja, ser par é um aspecto essencial e necessário neles, analiticamente. Eles jamais serão ímpares.
É o caso da dimensão formal das coisas: é ela que faz as coisas existirem de fato, porque as coisas existem de fato porque têm determinada forma (forma não é formato nem aparência, mas verdadeira estrutura). Assim, um cão é um cão e não um pássaro porque tem a forma (species) de cão. E a forma, estrutura ou species não será destruída pela morte do indivíduo: morto o cãozinho, a espécie canina sobrevive nos inúmeros outros cães que existem no mundo. E, ainda que todos os cães fossem efetivamente mortos, a espécie canina sobreviveria ao menos no pensamento dos seres humanos e de Deus. Porque há duas maneiras para que uma forma exista: 1) estruturando efetivamente um ser material (como os inúmeros cãezinhos que representam indivíduos da espécie canina) ou 2) sendo pensado em alguma mente, como uma espécie extinta pode de certo modo existir como conhecimento científico humano abstrato, ou pensamento divino.
Assim, se houvesse alguma coisa que fosse uma forma subsistente, ou seja, possuísse uma estrutura estritamente abstrata e formal, que pensasse em si mesmo de modo integral, ela seria um ser subsistente por seu próprio pensamento, e capaz de efetivamente existir sem a necessidade de um corpo. Assim, ela não estaria sujeita à destruição, porque não teria um corpo que pudesse ser destruído. Ora, os anjos são exatamente assim: são seres inteligentes que existem como pensamentos subsistentes, capazes de pensar em sua própria forma e subsistir sem corpo. São essencialmente indestrutíveis. Por isso, de modo análogo àquele pelo qual um número par não pode ser ímpar, um ser indestrutível não pode se destruir.
Assim, aquilo que é naturalmente indestrutível não precisa que Deus esteja constantemente sustentando sua existência: simplesmente, por sua essência mesma, não pode deixar de existir.
Ora, então as coisas existem ou deixam de existir por causa de características próprias, substanciais, inscritas em sua essência mesma, e não porque Deus as conserva constantemente na existência, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Deus é infinitamente mais poderoso do que qualquer criatura. Ora, há seres humanos que são capazes de produzir obras que permanecem independentemente de sua atuação, de modo que não precisam mais cuidar delas ou mantê-las na existência. Se um arquiteto, por exemplo, constrói uma casa, essa casa não depende, para existir, de nenhuma nova atuação do arquiteto. Mesmo que ele morra, que vá embora ou que nunca mais retorne à casa, ela pode continuar a existir. Até mesmo certos fenômenos inanimados, como a inércia ou a energia térmica, permanecem mesmo sem os agentes causadores: se o fogo aquece a água, ela permanece aquecida mesmo quando o fogo se extingue. Se um animal atira um graveto, o graveto continua seu percurso mesmo depois do impulso inicial. Ora, se criaturas, mesmo as irracionais, conseguem gerar efeitos que prosseguem sem qualquer atuação positiva da causa, com muito mais razão Deus pode criar entes que não precisem que ele fique positivamente mantendo na existência, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A tendência natural das coisas é que elas continuem a existir. Se elas são destruídas ou se corrompem, isto se dá sempre por algum movimento impeditivo, quer dizer, que violenta a tendência natural, e que tem uma causa agente fora do próprio ente. Esse agente, que faz um movimento violento, pode ser um agente patológico (doença), um predador, um evento catastrófico (como um terremoto ou vulcão) ou qualquer outra coisa que cause a degradação daquele ente e o leve ao desaparecimento.
Ora, há entes que não podem sofrer tais movimentos destrutivos, como é o caso dos anjos. Portanto, a tendência a continuar a existir, neles, jamais será contrariada, e Deus não precisa cuidar disso. Logo, não se pode dizer que Deus precise conservar todas as coisas criadas na existência a cada instante, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Se Deus está constantemente mantendo as coisas na existência, isto significa que ele está agindo sobre as coisas de modo constante, para conservá-las. Ora, toda ação positiva, eficaz, de algum agente, causa efetivamente algum efeito que modifica a realidade. Por isso, se Deus age efetivamente para manter as coisas na existência, isto deveria causar alguma modificação na criatura que está sendo mantida por ele. Mas isto seria impossível e absurdo: esta atuação de Deus não poderia dar mais existência à criatura, porque aquilo que já existe não pode existir mais do que já existe. Se, por outro lado, ele estivesse acrescentando às criaturas algo que elas ainda não têm, elas estariam sempre sendo modificadas por essa atuação divina, ou seja, para continuar existindo elas estariam continuamente se transformando em algo que não são, e portanto não estariam sendo conservadas, mas modificadas; para que se mantenham, precisam continuar como são, e para isto não haveria, sobre elas, nenhuma atuação positiva de Deus. Logo, as coisas não são conservadas na existência por algum tipo de atuação divina, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra defende que a hipótese inicial contraria as Escrituras, e portanto não pode ser aceita. De fato, segundo a Carta aos Hebreus, 1, 3, Deus “sustenta o universo com o poder da sua palavra”. Ora, sustentar é exatamente conservar a existência. Logo, o universo criado é mantido na existência pela ação contínua de Deus, conclui o argumento sed contra.
5. Encerrando por enquanto.
Há muitas pessoas que alegam acreditar em Deus, mas não acreditam que ele se envolve efetivamente em nossas vidas, nem que se importe com o universo que criou. São normalmente chamados de Deístas, em oposição aos Teístas, que são aqueles que conhecem o único Deus verdadeiro, trinitário, que nos ama e nos mantém existindo. Os Deístas às vezes argumentam justamente como o segundo argumento objetor acima: se Deus é um artesão perfeito, sua obra deve ser perfeita, uma máquina perfeita, que não tem necessidades de ajustes e intervenções. Mas Deus não é um artesão trabalhando com alguma matéria-prima preexistente: ele é a própria existência. Se ele se ausentasse, ou já não interviesse, isto significaria que a própria existência teria se afastado da criação, e tudo deixaria de existir! Veremos mais sobre isto nos próximos textos.
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