1. Introdução.

A questão da reconciliação entre o plano de Deus, sua onipotência amorosa, por um lado, e nosso livre arbítrio, por outro, é recorrente. Assim, há uma tendência a oscilar entre a ideia de que os planos de Deus são inexoráveis, e que portanto só nos resta a submissão e o fatalismo, por um lado, ou a ideia de que na verdade a expressão “plano de Deus” apenas mascara pretensões autoritárias que devem ser resistidas em nome da liberdade humana. Pode-se resistir ao plano de Deus? Impedir ativamente que os planos dele venham a se realizar? Responder “sim” parece admitir que o ser humano pode frustrar simplesmente a providência divina de modo inexorável. Responder “não” parece nos entregar à submissão, ao quietismo, ao fatalismo e à negação da liberdade humana.

Este é o debate agora em jogo. Vamos a ele.

2. A hipótese inicial.

A hipótese inicial propõe, aqui, que é possível resistir ativamente ao plano de Deus, sair de sua regência, frustrar seus intentos. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor menciona os perversos, ou seja, aqueles que são deliberadamente maus. Falando deles, Isaías (3, 8) diz: “suas palavras e suas ações se opõem ao Senhor”. Ora, se ninguém pudesse resistir ao governo divino, eles não poderiam se opor ao Senhor, mesmo que quisessem. Portanto, os planos do Senhor podem sofrer resistência, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Há, sem dúvida, uma justiça divina, que pune os perversos e os que se opõem a seus planos. Ora, nenhum governante justo puniria a quem não tivesse o poder de resistir a seus planos e a seu governo. Assim, a existência do castigo de Deus demonstra que é possível resistir e frustrar o governo divino, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Percebemos, no universo, entes que são opostos a outros. Por exemplo, há corpos celestes que se chocam, como há desastres naturais e a relação entre predadores e presas, entre os seres vivos. Ora, se Deus rege seres que se opõem deste modo, então ele teria que ser contraditório. Mas Deus não é contraditório. Logo, é possível resistir e contrariar os planos divinos, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra quer negar a hipótese controvertida inicial, e o faz citando Boécio, que, em sua obra Consolações da Filosofia, tratando da Sabedoria divina, afirma que “não existe nada que queira, ou que possa, se opor a este soberano bem. Portanto, é este soberano bem que rege com sua força todas as coisas, dispondo sempre com suavidade”; é este, também, o testemunho das Escrituras sobre a Sabedoria, em Sabedoria 8, 1: “Ela se estende vigorosamente de um extremo a outro, e governa retamente o universo”. Portanto, nada pode resistir ou frustrar os planos de Deus, conclui este argumento.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Postos, então, os termos do debate, Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora.

Há dois sentidos, diz Tomás, para a noção de “divina providência”: um sentido geral, ou seja, o governo divino visto sob a perspectiva do governo fundamental de tudo, tomado em comum; e um segundo sentido, visto sob a perspectiva da execução dos planos divinos, ou seja, o governo divino visto sob a perspectiva das causas e relações particulares, concretas, entre as criaturas e destas com Deus.

Com relação ao sentido geral, universal, da regência divina, nada pode escapar dela, porque ela não é senão a ordenação geral do universo ao bem, que é ele mesmo. Ora, se ele é o princípio do universo e o seu fim, como bem supremo, e se todas as coisas buscam o fim, que é o bem, não há como escapar da ordenação geral do universo criado ao seu fim eterno. Tudo está criado e destinado ao fim, que é o bem.

Com relação à ordem da execução, concreta, já vimos que as coisas podem agir, eventualmente, de modo casual ou fortuito, ou mesmo de modo deliberado (no caso das criaturas inteligentes) de uma maneira que parece escapar aos planos e à regência divina. Ocorre que, no fim das contas, Deus é a causa primária de todas as causas particulares, de tal modo que é capaz de integrar a aparente desordem das causas particulares à ordem da sua causalidade primária, que sempre dirige tudo para o bem.

Em suma, podemos dizer que, uma vez que nada pode agir senão pelo bem, mesmo aquelas condutas deliberadamente desordenadas das criaturas livres serão devidamente integradas e reordenadas, por Deus, para o bem. Tomás compara Deus, aqui, com aquele arqueiro que, ao atirar a flecha para o alvo, já considera, em seu cálculo, fatores como a força do vento, a força da gravidade e as peculiaridades dos materiais, de modo a que, sem violentar a causalidade de todos estes fatores, a flecha possa chegar perfeitamente ao alvo. É por isso que podemos afirmar que Deus rege tudo com suavidade: sem precisar violar a ordem das coisas particulares, que ele mesmo criou, Deus é capaz de atingir com perfeição sua meta, que é o sumo bem – Ele mesmo.

6. As respostas de Tomás aos argumentos iniciais.

Postos os princípios para encaminhar o debate, passamos a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro e o segundo argumentos objetores.

Tomás responderá em conjunto ao primeiro e ao segundo argumentos objetore. Vamos examiná-los, então, em conjunto também.

O primeiro argumento objetor, como vimos, cita Isaías para sustentar que os perversos resistem ao plano de Deus, já que “suas palavras e ações são contra os planos do Senhor” (Is 3, 8). O segundo argumento lembra que nenhum governante justo pune a quem lhe obedece; ora, se Deus pune os perversos, isto significa que é possível desobedecer, e portanto subtrair-se aos seus planos, conclui.

A resposta de Tomás.

De modo absoluto, como vimos, não é possível resistir de modo absoluto à ordem divina, já que mesmo os perversos e malvados estão, ao agir, buscando algum bem. É impossível agir sem buscar algum tipo de bem, porque o mal não é uma coisa, mas apenas algum tipo de desordem no próprio bem. Trata-se de buscar algo que, embora bom em si mesmo, é desordenado ou inconvenientemente buscado pelo perverso, porque seria inadequado para ele e para os demais. Assim, por exemplo, o luxurioso procura o bem da relação sexual de modo desordenado, com uma pessoa que não é seu cônjuge, ou em desobediência ao seu estado de vida celibatário, ou o ganancioso procura a riqueza material, que em si é boa, pela apropriação indevida do patrimônio que não lhe pertence, seja praticando furto, seja por meio de fraude, seja por violência mesmo. Nestes casos todos, sendo movidos por algum bem, os agentes não conseguem se subtrair completamente à ordem divina; mas, buscando esse bem de modo desordenado, concretamente desatendem ao plano de Deus para si e para o próximo, e são, com justiça, punidos – restabelecendo a integridade da ordem divina no particular e determinando que ela seja alcançada no plano geral. Isto responde, então, às duas objeções.

O terceiro argumento objetor.

Tudo o que está sujeito ao governo divino deve andar para o lado que Deus determina, som contradições. Mas há coisas que caminham em direções contrárias, como aquelas que provocam desastres naturais ou mesmo que destroem umas as outras, como os predadores e as presas. Logo, nem tudo se submete à regência divina, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás vai reafirmar a diferença entre as causas particulares, secundárias, e a causa primária, universal, que faz com que o próprio Universo tenha seus dinamismos. As coisas podem escapar às causas particulares, como, por exemplo, no caso de terremotos ou outros desastres naturais que causam destruição. Mas isto não escapa à ordem da causa primária, que infunde o próprio dinamismo de universo e o conduz, como um todo, ao bem; deste modo, aquilo que escapa a uma causa particular se submete a outra, de tal modo que a ordem total fica íntegra.

7. Concluindo.

Maravilhosa ordem que nos escapa, mas não escapa aos braços amorosos de Deus todo poderoso. Podemos confiar, então, que o amor tem a última palavra, na ordem universal das coisas.