1. Um pouco de revisão.

Na questão 02 desta parte da Suma Teológica, estudamos as vias para falar de Deus; uma delas é a via do motor imóvel (primeira via) e a segunda é a via da causa eficiente final. É bom lembrar um pouco delas, para entender direitinho o que está em jogo no presente debate.

Uma pequena metáfora.

Vamos imaginar um automóvel movido a gasolina, desses modernos, todo controlado por uma central de computador. Vamos imaginar que estamos dirigindo este automóvel, e está chovendo. Assim, ligamos os limpadores de para-brisas, para que possamos enxergar bem a estrada. Poderíamos nos perguntar: como acontece a limpeza do vidro?

A causa imediata de que o vidro seja limpo são as palhetas de borracha que se movem nele. Ora, as palhetas se movem porque são estimuladas por um pequeno motor elétrico, ao qual elas estão conectadas. Este motor elétrico, por sua vez, recebe a eletricidade para funcionar a partir da bateria do carro, que é carregada por um pequeno gerador, que, por sua vez, é acionado pela força mecânica das explosões de combustível no interior do motor. As explosões acontecem por causa da gasolina que está no reservatório. Eu posso dizer, então, que, se não houver gasolina para iniciar todo esse processo, as palhetas que limpam o vidro não funcionarão. Não é a gasolina que limpa o vidro, mas as palhetas do limpador de para-brisas. No entanto, a gasolina é a causa primeira de que todos os sistemas do carro funcionem.

Mas como o pequeno motor elétrico do para-brisas pode funcionar corretamente, ligar e desligar no momento certo e com a força adequada? Ora, todos os sistemas do meu carro estão conectados a uma central computadorizada, que foi programada, de antemão, com todas as informações para que os sistemas do carro funcionem corretamente. Assim, se as palhetas não funcionarem adequadamente, a central computadorizada é capaz de reconhecer a falha e enviar uma mensagem de erro para o painel do carro, de modo que eu possa levar o carro à oficina de manutenção. Isto é, o mau funcionamento da palheta não escapa ao controle da central computadorizada. Notemos, portanto, que a central computadorizada do carro tem, em sua programação, todas as operações do automóvel, previamente mapeadas e determinadas: antes que qualquer parte do automóvel entre em funcionamento e provoque as finalidades para as quais foi construída, a central computadorizada, de antemão, conhece essas finalidades e os processos para chegar até elas.

Eu não posso dizer que o fato de que as palhetas estejam velhas ou desgastadas, ou que o motor elétrico que as aciona tenha entrado em pane são sinais de que estas coisas demonstram que a central computadorizada não controla estas operações: ao contrário, é justamente porque as controla que ele pode detectar os erros e informar ao motorista, alertando-o com as luzes do painel.

O controle de Deus sobre o universo.

De modo similar, e usando este exemplo do automóvel como uma espécie de metáfora para o funcionamento do universo, Deus é nossa “gasolina” (motor imóvel) que energiza todas as causas segundas, e nossa “central computadorizada” (causa eficiente primordial) que conhece e dirige todos os processos de causalidade eficiente do universo. É por isso que, mesmo quando alguma causa secundária não funciona adequadamente, isto não significa que ela está fora do plano de Deus: o nível de controle e de dinâmica de Deus não é o mesmo nível das coisas criadas. Neste ponto, nossa metáfora perde a força, já que a gasolina e a central computadorizada estão no próprio carro e fazem parte dele, mas Deus não está no universo nem faz parte dele. Eis que, a partir de sua posição transcendente, ele é a fonte última de todos os movimentos e causa última de todas as causas. Assim, as falhas particulares das coisas criadas não escapam ao seu governo maravilhoso.

Após esta pequena revisão, com essa metáfora tão limitada e quase ridícula, que tem apenas um valor didático, vamos passar a revisitar os argumentos objetores iniciais, estudando as respostas que Tomás nos oferece para cada um deles.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor, citando Boécio, afirma que Deus é bom, essencialmente bom, e não rege nem dispõe as coisas senão pelo bem e para o bem. Assim, se nada acontecesse fora da ordem da regência divina, não haveria coisas más no mundo, mas apenas coisas boas acontecendo. Mas há coisas más. Logo, há coisas que escapam da regência divina, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O mal não existe no mundo como uma substância: o mal não é uma coisa, mas apenas a degeneração do bem. O próprio Diabo, que é a personificação da maldade, existe apenas porque foi criado como anjo por Deus. Logo, substancialmente a sua existência é um bem ontológico, embora sua atuação seja incondicionalmente má do ponto de vista moral.

Assim, o mal é aquilo que escapa à ordem das causas particulares do bem. Para lembrar da metáfora do automóvel, um mau limpador de para-brisas é um limpador de para-brisas cuja existência é boa, mas cujo funcionamento é mau. Todo mal precisa, portanto, de alguma substância boa, para que exista. Não é possível pensar em algo absolutamente mau, substancialmente mau, porque a própria existência de alguma coisa é sempre um dom de Deus e, portanto, um bem. Assim, algo puramente mau simplesmente não existiria. Logo, a existência do mal no mundo não prova que alguma coisa escape da regência divina.

O segundo argumento objetor.

Aquilo que acontece sob algum comando, sob algum regente, sob o domínio de um governante, nunca é fortuito ou casual, mas sempre intencional. Ora, coisas fortuitas e casuais ocorrem a cada momento no universo. Logo, estas coisas escapam da regência divina, senão não seriam fortuitas e casuais. Assim, o controle divino não chega a todas as realidades criadas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Casual ou fortuito é aquilo que não acontece de acordo com as causas particulares, como uma chuva fora de época ou uma fruta que cai da árvore sem estar completamente madura, em razão de alguma ventania. Mas estas coisas não escapam ao plano de Deus, que envolve todas as causas e todos as ocorrências, como já vimos na resposta sintetizadora.

O terceiro argumento objetor.

Se há um plano divino, ele deve ser eterno, perene, fixo, imutável e inexorável, como o próprio Deus é. Assim, tudo o que há de acontecer já está rigidamente previsto, e tudo acontece por necessidade, numa espécie de determinismo intransigente que transforma tudo o que é contingente e efêmero em permanente e rígido. Ora, é inegável que há coisas contingentes e efêmeras no universo. Logo, estas coisas não podem estar incluídas num plano divino de regência do universo, e há coisas, portanto, que não estão sob o controle de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O que seriam essas coisas, ou efeitos, contingentes, que existem no mundo? São aquelas coisas que poderiam ser de outro modo, que hoje existe e amanhã já não existem, que não se conformam a uma predeterminação rígida ou a um determinismo implacável, porque não podem ser inteiramente subordinadas às suas causas próximas. Trazem sempre a marca do perecível, do efêmero, da transitoriedade. E, embora de fato demonstrem que não existe o determinismo absoluto de um plano rígido que envolva e controle de modo férreo as causas particulares, individuais (sempre sujeitas à falha, à imperfeição, ao perecimento), no entanto mesmo essas coisas se submetem a outras causas, mais gerais, e inclusive à causa primeira e à inexorabilidade de sua atuação para a dinâmica de todo o universo criado. Assim, mesmo o que é efêmero, contingente, está nos planos de Deus e não deixa de se submeter a ele, que tudo vê, que tudo sabe, que tudo ama.

3. Conclusão.

O universo inteiro, com toda a sua perfeição, com toda a sua liberdade, com toda a sua contingência, está sob a providência amorosa de Deus. Que isto alegre nossos corações: Deus que tudo criou e controla é poderoso o suficiente para nos livrar do mal e nos salvar.