1. Introdução.

Deus não é controle. Ele é amor. Deus é amor. Esta centralidade no amor leva-nos a reinterpretar a ideia de que Deus está no controle sob uma perspectiva inteiramente diferente daquela a partir da qual olhamos para um governante humano. Deus não disputa poder, ele ama. Deus não quer submissão cega, ele ama, e quer uma resposta de amor. Deus controla tudo no amor, e se Deus não fosse onipotente na misericórdia do seu amor, estaríamos em maus lençóis. Mas não estamos: Deus é amor, e nada escapa ao amor de Deus. Mesmo aquilo que mais parece desamor tem a permissão de Deus. Porque ele é potente o suficiente para retirar, do mal que ele permite, um bem maior que ele positivamente quer.

No entanto, há o desamor, há o mal, há a deficiência e o casual. Como se pode afirmar, então, que Deus tem o controle de tudo? Esta é exatamente a questão a ser debatida aqui. Vamos a ela.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como já sabemos, todo debate, nos artigos da Suma, começam pela apresentação de uma hipótese controvertida, que normalmente é total ou parcialmente falsa, e representa uma posição extrema no assunto. Em seguida haverá argumentos objetores, que tentam comprovar a hipótese, e argumentos sed contra, que dão motivos, normalmente retirados de alguma autoridade no assunto, que tentam demonstrar que a hipótese é inaceitável. Por fim, Tomás apresenta uma resposta sintetizadora, na qual os princípios são apresentados, para a resposta adequada do problema inicial. E, em seguida, ele enfrenta os argumentos iniciais a partir dos princípios apresentados na resposta sintetizadora.

No presente debate, a hipótese provocadora inicial propõe que, embora o plano divino envolva direta e imediatamente todas as coisas, ele não dispõe sobre tudo o que acontece; isto é, podem acontecer coisas que estão fora dos planos divinos, ou seja, sobre as quais Deus não tem controle. Há três argumentos objetores iniciais que tentam provar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita o filósofo Boécio, que reafirma o fato de que Deus rege todas as coisas pelo bem. Ora, é muito claro que há coisas más acontecendo no mundo o tempo inteiro. Mas se nada escapasse ao governo divino, apenas coisas boas aconteceriam. Logo, há coisas que não se submetem ao controle divino, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Além disso, diz o segundo argumento, aquilo que segue um plano não pode ser considerado casual ou aleatório. Ora, existem muitas coisas fortuitas, casuais e aleatórias acontecendo; mas, se nada escapasse ao plano de Deus, nada desse tipo aconteceria. Logo, há coisas que escapam ao controle de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Aquilo que está nos planos de Deus acontece necessariamente, dada a onipotência divina. Ora, aquilo que é necessário, aquilo que é imutável e certo, não é contingente, e aquilo que é contingente, ou seja, efêmero e mutável, não é necessário, quer dizer, pode ser de outro modo ou até pode não ser, sem que isto altere a configuração do universo. Mas se tudo estivesse nos planos de Deus, não haveria coisas contingentes, efêmeras, prescindíveis e mutáveis, mas apenas o determinismo da ordem preestabelecida rigidamente por Deus. Ora, sabemos que existem coisas contingentes, sujeitas a mudança, efêmeras e até livres, no universo criado. Logo, há coisas que escapam do governo divino, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra nos lembra que e a própria Bíblia que nos ensina, no Livro de Ester 13, 9: “Senhor, Rei Todo Poderoso, tudo está realmente no vosso poder e ninguém pode resistir à vossa vontade”. Ora, se as coisas são assim, então nada há que escape ao governo divino, conclui o argumento.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Na dinâmica do universo criado, as coisas ocorrem de modo complexo, isto é, resultam de causas que são variadas e que se relacionam entre si. São as causas que as próprias coisas criadas exibem, no seu jogo de relações.

Mas Deus não está no mesmo plano da causalidade das criaturas. Há uma “hierarquia de causalidades”: Deus é causa primeira, ou seja, ele é a causa que faz com que as criaturas tenham capacidade causal. Se o fogo aquece, é porque, em última instância, ele recebe de Deus, em primeiro lugar, sua capacidade de aquecer. E assim por diante.

Por isso, as dinâmicas particulares do universo podem resultar em efeitos que não seguem a causa, por acidente, em razão da complexidade dessa dinâmica. Vamos pensar num exemplo concreto para tornar as coisas mais fáceis.

Pensemos numa semente de milho. Para que essa semente vire um pé de milho, diversas causas estão em jogo. A própria genética da semente, seu poder germinativo, mas também a presença de solo, nutrientes, água e luz do sol, além da temperatura certa.

Assim, embora a semente seja causa do pé de feijão, pode ser que determinada semente não chegue a se tornar um pé de feijão, porque tem um defeito qualquer em sua biologia que a impede de brotar. Ou talvez porque faltou água, solo com nutrientes, a luz do sol ou a temperatura adequada. Portanto, na ordem das coisas concretas, às vezes os efeitos não seguem as causas, porque faltou alguma condição ou alguma coisa impediu o resultado. Os efeitos das coisas particulares podem, portanto, escapar das causas particulares.

Ocorre que as próprias causas particulares, como já dissemos, têm sua causalidade resultante da causalidade primária de Deus. Assim, se alguma outra causa impediu a germinação da semente, esta outra causa que impediu a germinação também pode ser remetida à causa primária, que é Deus.

Portanto, nada pode escapar à causalidade primária, dentro da dinâmica do universo, porque tudo aquilo que escapa da ordem de alguma causa particular sempre cai sob o efeito de alguma outra causa particular, e todas essas causas particulares decorrem da causalidade primária de Deus.

Portanto, mesmo aquilo que parece escapar da ordem particular das causas secundárias está submetido à ordem universal da causalidade primária de Deus por algum outro meio.

Deste modo, nada do que acontece no universo escapa ao controle de Deus, de um modo ou de outro.

6. Encerrando por enquanto.

É muito tentador lembrar que mesmo aqueles que imaginam se subtrair aos planos de Deus, vivendo no pecado e escolhendo a rebeldia frente a seus planos, estão apenas escolhendo deixar de ser sujeitos, executores ativos do plano divino de amor, para serem objeto dele, colhendo em si o resultado, as consequências de optar contra o amor. Isto não impedirá que o plano se realize, porque o amor não pode ser parado. Mas impedirá o pecador renitente de ser coautor do amor.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.