1. Voltando para encerrar.

O governo que Deus exerce sobre o universo criado é essencialmente participativo. Ele inclui todas as coisas, de tal modo que não apenas busquem sua própria perfeição, seus próprios interesses, mas possam colaborar com a perfeição das outras coisas e do próprio universo. O bem é difusivo, o mal é parasitário; esta é a noção medieval que precisamos resgatar aqui. Deus inclui todas as coisas no caminho inexorável ao bem que é ele mesmo. Tudo colabora, portanto, com o próprio bem, com o bem das outras coisas e com o bem do Universo, como nos lembra São Paulo em Romanos 8, 28: tudo coopera com o bem daqueles que amam a Deus, que é o próprio bem. Tudo coopera, a seu modo, com a condução amorosa do universo até Deus. Este é o primeiro princípio: na regência da criação, não somente o plano de Deus envolve direta e imediatamente todas as coisas, como todas as coisas cooperam, direta e imediatamente, com a execução desse mesmo plano.

O segundo princípio a ser lembrado é que Deus respeita o modo de ser das coisas que criou, sejam elas inanimadas, simplesmente vivas, vivas e sensoriais, vivas e inteligentes, corpóreas ou espirituais. Cada um colabora do seu modo: as desprovidas de inteligência não “agem”, mas são conduzidas; as inteligentes devem reconhecer o bem por si mesmas e escolher caminhar para Deus com a graça ou rejeitá-lo sem ela. Neste caso, Deus é poderoso o suficiente para extrair, do mal moral criatural, um bem ainda maior para o proveito de toda a criação, como o maestro consegue integrar as notas dissonantes à sinfonia, tornando-a ainda mais bela e complexa.

2. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Platão defendia que existiriam três “planos de regência” para o universo: um primeiro plano feito pelo Deus altíssimo, o Sumo Bem, que abrangeria o governo daquilo que é permanente, ideal, imutável, como as Ideias e os corpos celestes regulares e perpétuos, que são, em última instância, o modelo de tudo o que existe no resto do universo. Um segundo plano seria de responsabilidade de “deuses secundários”, seres poderosos que regem aquilo que é contingente e mutável, e portanto indigno do Deus Altíssimo. E, por fim, a regência dos assuntos humanos, quanto àquilo que escapa às forças individuais, seria feita por anjos e demônios, que invisivelmente nos conduziriam. Mas esta não é uma visão verdadeira, como nos alerta, por exemplo, Gregório de Nissa. Este santo Padre da Igreja ataca a posição de Platão, mostrando sua falsidade. Logo, há apenas uma dimensão no governo do universo criado: a dimensão do governo direto e imediato por Deus nosso Senhor, sem nenhum tipo de intermediação, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A observação de Gregório de Nissa se dirige ao fato de que Platão, que não conheceu Nosso Senhor Jesus Cristo, nem a Trindade Santa, imaginou que o universo seria regido por vários projetos diferentes, advindos de fontes diferentes; como se não houvesse um único plano de Deus para todas as coisas, as de cima e as debaixo. Isto não significa, porém, que este santo Padre da Igreja que foi Gregório de Nissa negasse, em seus escritos, que Deus envolve e considera todas as criaturas como partícipes na execução da regência do Universo, ou seja, administradores do Bem, para si mesmos e para as outras criaturas, na dinâmica da condução do Universo ao seu bem transcendente que é o próprio Deus. Platão, portanto, ao dividir o plano de Deus em três, errou. Mas Gregório não nega, e nem poderia, que a execução do plano de Deus envolve a parceria de todas as criaturas.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor diz que aquilo que alguém dá conta de fazer sozinho deve ser feito sozinho, pois tudo o que é feito de modo dividido, quando deveria ser feito por alguém sozinho, fica mais imperfeito. Ora, prossegue o argumento, Deus é onipotente, e portanto dá conta de fazer tudo sozinho. Logo, seria uma marca de imperfeição que ele dividisse o trabalho que consegue fazer sozinho. Portanto, conclui o argumento, a regência do universo criado deve ser feita por Deus sozinho, e nunca compartilhada.

A resposta de Tomás.

Deus é onipotente. Mas não é alguém sedento de poder ou de comando, que reservasse para si todo governo ou regência e fosse ofendido pela participação das criaturas. Deus é amor, cria por amor, não para exercer controle ou disputar poder. Assim, ele concede às suas criaturas um real capacidade de relação e de causalidade. As leis da natureza, os fenômenos físicos e químicos, a interação entre todas as coisas, a dinâmica pela qual as criaturas se encaminham à perfeição e conduzem outras coisas para lá, tudo isso é real e não é causado por Deus diretamente. É por isso que Deus concede a todas as coisas, de um modo adequado às suas naturezas, serem verdadeiros participantes na execução de seu plano maravilhoso.

O terceiro argumento objetor.

Por que os governantes e reis da terra usam auxiliares, ministros e servidores? Eles o fazem porque não conseguem lidar com todos os assuntos e todos os lugares de uma vez só, e assim é por imperfeição, por limites humanos, que o governo humano é repartido entre vários agentes. Mas Deus não tem os limites humanos, então não precisa de ministros ou ajudantes para governar o mundo. Logo, ele o faz sempre direta e imediatamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é apenas por causa de limites humanos que um governante humano tem auxiliares. Ele também os tem para descentralizar o exercício do poder, legitimar as decisões e possibilitar a participação de outros na busca do bem. Assim, um governo compartilhado é mais elevado, mais perfeito, do que um governo rigidamente centralizado, mesmo em termos humanos. A objeção não se aplica.

3. Concluindo.

Na aparente complexidade filosófica e teológica de um único artigo da Suma, há toda a fundamentação para o dogma da Encarnação de Jesus Cristo, para a fé na constituição sobrenatural da Igreja como corpo intermediário na regência do mundo, na mediação única de Nossos Senhor Jesus Cristo como algo que não concorre, em termos salvíficos, com a intercessão dos santos: são dimensões diversas de um mesmo plano de Deus que se executa com a colaboração de todos os seres criados. Às vezes é preciso descer muito profundamente para entender o motivo pelo qual Deus quer incluir sua Igreja, una, santa, católica e apostólica, e seus santos, vivos ou já na glória, como colaboradores, intercessores e executores do único plano divino manifestado plenamente em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Além disso, vê-se a abertura de Tomás para a descentralização governamental, a gestão participada e as vantagens de uma gestão participada e compartilhada. Belo fundamento para aquilo que, hoje, defendemos como ideais de governo, lastreados em sólidas razões teológicas.