1. Retomando.
O mundo tem uma consistência. A matéria faz parte dele, é um dos elementos criados por Deus. Há uma hierarquia entre os entes, e esta é uma ideia muito forte na visão antiga das coisas, que, de certa forma, perdemos hoje. Uma coisa viva é melhor do que uma inanimada, uma coisa com percepção sensorial é melhor do que uma vegetativa, uma coisa inteligente é melhor do que uma simplesmente sensorial. Essa hierarquia, no entanto, não é para a vantagem daqueles que são mais altos, mas para que sirvam mais, que colaborem mais, mais conscientemente, mais amorosamente, na gestão da criação.
Assim, o governo divino não é autocrático, não é ditatorial, não exige de nós a simples submissão que violenta, que anula, que reduz a nada. Deus não é um déspota a ser obedecido independentemente de querer: se o fosse, o mandato de amá-lo seria indiferente: bastaria temê-lo e obedecê-lo. Mas as coisas não são assim. Deus deve ser amado. Acima de todas as coisas. E ele conta conosco – e com todas as criaturas – para reger o universo. É claro que não concorremos com a regência divina no mesmo plano (ele rege de modo transcendente, nós agimos de modo imanente), mas com certeza o plano de Deus leva em conta a causalidade verdadeira, mesmo que secundária, de suas criaturas.
Mas deixemos de digressões. Examinemos a resposta do próprio Tomás a esta questão tão bela.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
As duas dimensões da noção de governo.
Há duas dimensões na noção de “regência” ou “governo” do universo. Ambas devem ser levadas em conta, se quisermos compreender adequadamente o modo pelo qual Deus rege a criação. São elas:
1) A dimensão do plano, que é a própria Providência divina, que envolve e toca de modo direto e imediato todas as coisas. Nada escapa aos planos de Deus, nada está distante, nada se interpõe entre Deus e suas criaturas, quanto à sua Providência, mesmo aquelas coisas que não o amam ou expressamente o rejeitam (especificamente o Diabo e seus demônios). Ou seja, quanto ao planejamento, Deus rege direta e imediatamente a criação.
2) A dimensão da execução do plano. Aqui, Deus envolve todas as coisas, todas as criaturas, desde a menor até a maior, como colaboradoras na realização de seus planos maravilhosos. Assim, na execução, Deus governa de modo mediato, isto é, valendo-se das próprias criaturas, tanto para que alcancem a própria perfeição, quanto para que ajudem as outras criaturas a alcançá-la.
A razão para que as coisas sejam assim é que Deus é a própria bondade. Assim, ele sempre faz as coisas de modo perfeito, ou seja, do melhor modo com relação àquilo que ele faz. Isto significa que o melhor modo de fazer uma coisa pode não ser o melhor modo de fazer outra; por isso, o modo pelo qual Deus governa não somente é o melhor, como é o melhor para cada dimensão da sua atividade e estabelece o próprio padrão daquilo que é bom.
A dimensão da providência – os planos de Deus.
E qual o padrão de um governo bom? Certamente, para um bom governante, interessa conhecer não somente as generalidades, as universalidades e as abstrações, mas conhecer e entrar em relação com cada particularidade, cada dimensão individual, concreta, daquilo que está sendo governado. Tão melhor é um governante, quão melhor for sua capacidade de dominar o universal e conhecer os particulares. Isto, especialmente naquele tipo de conhecimento que não é puramente especulativo, mas que se dirige à ação, à transformação, ou seja, aquilo que podemos chamar de conhecimento prático. É o caso do médico: não basta a um bom médico, quando dirige o tratamento de um paciente, ter o domínio especulativo da ciência médica abstrata; ele tem que conhecer todas as particularidades do paciente, perceber sintomas e manifestações da doença e observar os efeitos e adversidades do remédio.
Usando da analogia, podemos dizer que, de certo modo, esse exemplo do médico nos revela um pouco sobre a providência divina, em seus planos maravilhosos: não apenas o conhecimento especulativo, universal, abstrato, do universo e de seus destinos: é preciso que Deus entre em relação direta com cada ente, cada aspecto de cada criatura, conhecendo-a em sua individualidade, em suas peculiaridades, considerando-a efetivamente em sua dinâmica, de modo a que seus planos possam ser chamados daquilo que realmente são: perfeitos. Neste sentido, a dimensão de planejamento, ou de providência, no governo divino, deve implicar uma relação direta e imediata entre Deus e todas as coisas.
A execução do governo da criação.
Mas é claro que a regência do universo não se limita a conhecê-lo e planejar, mas implica conduzi-lo efetivamente à perfeição, ou seja, ao seu fim. Esta é a dimensão da execução, na regência de Deus sobre a criação.
Ora, como já vimos, Deus sempre faz as coisas pela melhor maneira, respeitando as peculiaridades de cada dimensão com a qual ele se relaciona. Se, na dimensão da providência, dos seus planos, a relação direta e imediata com todas as coisas seria a melhor maneira de reger, aqui, na dimensão da dinâmica do universo no caminho da perfeição, a melhor forma de reger é incluir todas as coisas como capazes não somente de buscar, com suas próprias capacidades, suas perfeições, mas também de colaborar com a perfeição das outras coisas, de modo interligado e interdependente. Com isto, Deus permite que não somente as coisas sejam boas em si mesmas, mas que também sejam boas para os outros, isto é, que sejam verdadeiramente causa da perfeição das outras coisas. Neste sentido, a perfeição do governo de Deus não é a submissão cega de todas as coisas a si, mas, como diz Tomás, agir como aquele mestre que, além de formar os discípulos, faz deles verdadeiros mestres de outros, também. Quando pensamos no modo com que tudo está interligado entre si, e com Deus, podemos contemplar a maravilha do Reino de Deus.
3. Encerrando.
Aqui está a chave para todo ambientalismo ou ecologia verdadeiramente cristã: considerar a criação como regida por um plano maravilhoso, concebido pela providência divina que considera a peculiaridade de cada ente, de cada relação, de cada parte, em função de um todo, e considerar, ao mesmo tempo, que a execução desse plano amoroso e infinitamente bom envolve cada ser, cada existência, cada inteligência, como participante na execução da regência perfeita de Deus. É neste espírito que o Papa trata de meio ambiente na Encíclica Laudato Sí, da qual ele nos promete uma segunda parte para breve. Esperamos com alegria!
No próximo texto examinaremos as objeções iniciais e as respostas de Tomás a elas.
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